“Escuteiro um dia, escuteiro para a vida”. Este é um dos lemas do movimento mundial criado por Baden-Powell há mais de 100 anos. No imaginário de muitos a palavra remete para jovens vestidos de camisa e calções a ajudarem idosos a caminhar numa passadeira. No entanto, ser escuteiro não se limita a esse estereótipo, conforme nos explicou o chefe do Agrupamento de Escuteiros de Febres.

Escutismo ou escotismo é um movimento mundial sem fins lucrativos que assenta nos princípios da educação, voluntariado e apartidarismo. Foi fundado em 1907 por Baden-Powell [ver caixa]. “Há uma coisa que Baden-Powell deixou escrito no célebre livro ‘Escutismo Para Rapazes’. O escutismo serve para formar o carácter e a personalidade, para as pessoas estarem ao serviço do bem. Deve estar sempre ligado a uma religião, independentemente de qual ela seja”, explica Vítor Rua, 49 anos, enfermeiro no Hospital de Cantanhede e Chefe do Agrupamento de Escuteiros de Febres há 5 anos. Certamente, já muita gente se deu conta da palavra escrita com “u” e com “o”. E desengane-se quem pensa que se trata um mero erro ortográfico. Na verdade, os dois termos existem e, apesar de os princípios a que se referem serem os mesmos, subsiste uma diferença. “Em Portugal existem dois movimentos. O Corpo Nacional de Escutas, que é um movimento escutista ligado à Igreja Católica, e a Associação de Escoteiros de Portugal, uma associação ecuménica que recebe elementos de todas as confissões religiosas”. O agrupamento de Febres é afecto ao Corpo Nacional de Escutas. “Temos as melhores relações com as outras associações, nomeadamente com a Associação de Escoteiros de Portugal, cujos elementos fazem formação nas nossas escolas e com quem partilhamos muitas actividades juntos a nível regional”. A existência de duas associações possibilita a quem não seja católico poder pertencer ao movimento criado por Baden-Powell.

Uma cultura própria

Os acampamentos conti-nuam a ser actividade nobre do escutismo. É, no entanto, uma questão de honra não deixar qualquer tipo de vestígio no local onde acamparam. “Fazemos sempre a separação do lixo. Hoje, mais do que nunca, é importante mantermos este princípio”. E escuteiro que se preze também nunca usa pregos. “Recorremos a cordas de sisal para tudo. Já fizemos duas descidas no rio Mondego, com jangadas de madeira feitas por nós, amarradas com cordas”. E a verdade é que as jangadas não se afundaram e tudo correu pelo melhor. Outra das particularidades do movimento escutista está relacionada com a forma de saudação, que se faz levantando a mão direita, de palma para a frente, com o polegar apoiado na unha do dedo mindinho e os outros três dedos apontados para cima. Os três dedos simbolizam os três princípios do escutismo (dever para com Deus, dever para com os outros e dever para consigo próprio), bem como as três pontas da flor-de-lis que, por sua vez, representam a pureza de espírito, luz e perfeição. Como forma de cumprimento pessoal utilizam sempre a mão esquerda, entrelaçando os dedos mínimos. “A mão esquerda porque é a que está mais perto do coração e é com ela que se devem cumprimentar os verdadeiros amigos. Os dedos entrelaçados simbolizam uma maior ligação ao outro”. A saudação dos Lobitos é diferente, consiste em apontar os dedos indicador e médio para cima, em forma de “V”, como representação das orelhas de um lobo quando está com atenção.

De “Lobito” a “Caminheiro”

O escutismo é encarado como uma filosofia de vida e os ensinamentos deixados pelo seu fundador continuam a ser levados à risca. Caracteriza-se por “espírito voluntário, a capacidade de ser dar, e tornar o mundo um pouco melhor. Há uma frase de Baden-Powell que resume o que é o escutismo: só somos felizes se fizermos os outros felizes”. Ao desenvolvimento do espírito de fraternidade e solidariedade, juntam-se os objectivos da formação e educação dos jovens. “A nossa preocupação não é dar catequese. A nossa função é, servindo-nos dos princípios da fé católica, ajudar os nossos jovens a serem pessoas com carácter, iniciativa, interventivas e activas na sociedade, dispostas a fazer aquilo que se pede a um escuteiro, ou seja, fazer uma boa acção por dia”. O chefe Vítor Rua considera-se um “escuteiro adulto”, isto porque só aderiu ao movimento aos 37 anos de idade. A sua entrada coincidiu com a dos seus filhos, numa altura em que eram necessários mais chefes no agrupamento de Febres. Na hierarquia do escutismo existe um longo caminho a percorrer antes de se chegar a chefe, sendo que tudo começa aos seis anos, idade mínima para se juntar a um agrupamento. Os jovens entram como “Lobitos”, distinguidos dos seus pares pelo uso de um lenço amarelo debruado a branco, tendo logo de prestar provas. “Existem seis áreas de desenvolvimento e em cada área há dois objectivos”. Esta etapa implica uma forte parceria com os encarregados de educação. “Assistimos constantemente à transformação das crianças no relacionamento com os outros, na capacidade de partilha. Costumam entrar muito ligados a coisas materiais e vão conseguindo desprender-se. Nos tempos que correm isso é cada vez mais difícil. O apelo dos telemóveis, dos computadores, do sofá, do quentinho de casa, são coisas difíceis de combater. Mas não é por acaso que temos um agrupamento com cerca de 90 jovens que dizem não a este conforto”. Depois de cumprida a primeira fase passam a ser “Exploradores”, até aos 14 anos, envergando um lenço verde debruado a branco. Continua a haver um sistema de progresso baseado em objectivos e só a partir daquele momento é que são considerados escuteiros. “O Lobito não é verdadeiramente um escuteiro. Temos duas insígnias diferentes, uma para a Promessa de Lobito e outra para a Promessa de Escuteiro que é onde consta a flor-de-lis. A verdadeira promessa acontece só quando recebe o lenço verde”. Segue-se a etapa de “Pioneiros”, dos 14 aos 18 anos, assinalada com um lenço azul debruado a branco. Dos 18 aos 22 anos os jovens encontram-se na última caminhada, daí o nome “Caminheiros”, caracterizada pelo uso do lenço vermelho debruado a branco. Com o avançar da idade, os objectivos passam a ser cada vez mais exigentes em termos de conhecimentos e capacidades físicas e técnicas. “Há uma área de formação para o desenvolvimento espiritual, mas o sistema de progressão é sempre o mesmo”. Aos 22 anos acontece um momento importante: é aqui que os jovens decidem se querem ou não continuar no respectivo agrupamento. Vítor Rua espera vir a realizar brevemente a primeira cerimónia de partida em Febres. “Tem um ritual muito rico. À luz do seu patrono, que é São Paulo, um apóstolo evangelizador, o que se pede a um ‘Caminheiro’ é que seja um homem novo, ou seja, é aquele que vai divulgar a palavra de Deus. A cerimónia da partida não é o fim da etapa que cumpriu, mas sim a partida para uma nova caminhada”. Caso decidam não fazer o curso de dirigentes os jovens podem permanecer no agrupamento como “Caminheiros” até aos 25 anos. Depois dessa idade continuam a estar tacitamente ligados ao movimento, até porque, segundo Baden-Powell, “escuteiro um dia, escuteiro para sempre”.

Agrupamento de Escuteiros de Febres

Em Cantanhede só existem dois agrupamentos de escuteiros, o da sede de concelho e o de Febres. Este último foi fundado em 1994 por influência do padre Jorge, responsável pela paróquia febreense na altura. Vítor Rua juntou-se aos escuteiros em 1997, a convite do padre Jorge. Frequentou na altura um curso de formação do Corpo Nacional de Escutas, em Serpins, concelho da Lousã, onde aprendeu os princípios e objectivos do movimento e algumas técnicas escutistas. “Os agrupamentos criam-se e têm um tempo formação, em que há lugar para formar dirigentes, consolidar a estrutura e constituir um conjunto de secções”. Só depois de terminado o processo de amadurecimento é que os dirigentes enviam um pedido de filiação do agrupamento ao movimento escutista que, no caso de Febres, foi feito através do Corpo Nacional de Escutas, em 2001. Os dez anos de filiação vão ser assinalados em Junho, estando já a ser preparada uma semana de actividades que começará com o tradicional Festival das Sopas, a 18 de Junho, sábado, e terminará no dia 26, domingo, com a realização de uma fotografia oficial com os elementos do agrupamento, uma cerimónia formal e uma missa. Actualmente, a sede do agrupamento de Febres funciona nas instalações anteriormente ocupadas pelo Centro de Dia. “Temos lá a nossa sede administrativa, o nosso armazém de material e salas para reuniões”. Ainda assim, falta cumprir um objectivo há muito desejado: o Campo Escutista de Febres. A placa em madeira que assinala o local das futuras instalações, numa das margens da Lagoa dos Cedros, foi colocada em 2007, no dia em que o movimento escutista celebrou 100 anos. “Falta tratar de umas questões relacionadas com terrenos para que o projecto avance”. O executivo cantanhedense está a liderar o processo de aquisição dos terrenos, com o apoio da Junta de Freguesia de Febres. “Falei recentemente com o presidente da Câmara Municipal de Cantanhede e, apesar de todos os constrangimentos, ele continua empenhado em que as coisas avancem. Não são os valores envolvidos que inviabilizarão o projecto, são as questões administrativas, de legalização de terrenos, que têm atrasado o processo”. Os 17 dirigentes do agrupamento de Febres já se comprometeram a limpar o local onde funcionarão as novas instalações. E todos nós sabemos que palavra de escuteiro é para se cumprir. O Dia Mundial do Escutismo, ou Dia de São Jorge, patrono do escutismo, assinalou-se a 23 de Abril. Este ano, devido às celebrações da Páscoa, a data é assinalada, a nível regional, durante este fim-de-semana (sábado, 30 de Abril, e domingo, 1 de Maio), em Penacova. Em 2013 chega a vez de Febres receber escuteiros de vários agrupamentos da Junta Regional de Coimbra do Corpo Nacional de Escutas.

Lorde Robert Stephenson Smyth Baden-Powell nasceu em Londres, a 22 de Fevereiro de 1857. Depois de perder o pai, aos três anos de idade, passou muitos momentos com a mãe e irmãos a passear por bosques, onde descobriu alguns segredos da Natureza. Foi na companhia do seu irmão mais velho que terá acampado pela primeira vez. Mais tarde, em 1870, ingressou na escola de Chaterhouse, em Londres. Era, contudo, na mata que dá o nome ao estabelecimento de ensino que o jovem Baden-Powell passava horas a fio a observar e conviver com os animais e plantas. Com 19 anos seguiu uma carreira militar. Cumpriu uma missão na Índia, foi espião militar na Rússia e combateu na África do Sul. Teve uma ascensão fulminante na carreira e aos 32 anos já era coronel. Havia de ser graças ao seu desempenho numa batalha na África do Sul, entre os ingleses e os bóeres (colonos brancos da África do Sul de descendência holandesa), que Baden-Powell se tornaria famoso em toda a Inglaterra. Com 43 anos passou a ser o mais jovem general de sempre do Império Britânico. Depois de regressar a Inglaterra, em 1901, apercebeu-se que um livro da sua autoria, destinado ao exército, estava a ser usado como manual nas escolas. Foi a partir daí que começou a desenvolver a ideia do escutismo. Em 1907 realizou um acampamento com um grupo de 20 rapazes que acabaria por ser um êxito. Ficou registado como o primeiro acampamento escutista de sempre. No ano seguinte publicou o seu manual de instrução “Escutismo para Rapazes”, dando origem ao movimento a nível mundial. Em 1912 levou a cabo uma viagem por vários países para visitar escuteiros de várias nacionalidades e em 1920 promoveu, em Londres, a primeira reunião internacional escutista. Na última noite desse encontro foi proclamado Escuteiro Chefe Mundial. Quando o movimento celebrou os seus 21 anos de existência já contava com mais de dois milhões de membros em todo o mundo. Por essa altura, Baden-Powell recebeu pelas mãos do Rei Jorge V o título de lorde. Aos 80 anos foi viver com a sua esposa para o Quénia, onde acabaria por falecer a 8 de Janeiro de 1941. |LM