Até ao final do mês de Abril está patente no Museu da Pedra, em Cantanhede, uma interessante exposição que nos faz viajar no tempo, até há milhões de anos atrás, quando os dinossáurios ainda dominavam a Terra e Cantanhede era uma região marinha e tropical, semelhante às actuais zonas equatoriais. A Biodiversidade no Jurássico promete agradar a miúdos e graúdos.

Foi há mais de 170 milhões de anos, no Jurássico Médio, que se começaram a formar os primeiros calcários da Região, rocha sedimentar que se encontra em grande quantidade em Cantanhede e cujo tipo mais notório é a denominada Pedra de Ançã, “mais macia e fácil de trabalhar pelos escultores, muito utilizada sobretudo no século XVI por mestres como Nicolau de Chanterenne e João de Ruão”, segundo explicou ao AuriNegra Maria Carlos, Directora do Museu da Pedra, em Cantanhede.

O calcário é a pedra por excelência da região de Cantanhede, sendo o protagonista do Museu que agora acolhe uma exposição temporária que recria o ambiente e a biodiversidade de há milhões de anos, no Jurássico, quando os dinossáurios ainda passeavam pela Terra e, também, pelo local que é hoje a cidade de Cantanhede. Carlos Gregório, técnico do Museu, descreveu o cenário com que os cantanhedenses se iriam deparar: “Em Cantanhede iríamos encontrar um ambiente marinho e tropical, semelhante ao das regiões equatoriais, de águas quentes e não muito profundas”, em que os sedimentos arenosos se misturavam com os restos de animais – biogenéticos, acabando por formar, por exemplo, os calcários.

A biodiversidade foi um dos temas que motivou esta exposição, biodiversidade que já estava presente no Jurássico, quer em termos de fauna, quer de flora. A fauna marinha era dominada pelo celacanto, “um peixe que pela sua antiguidade é considerado um fóssil vivo, já que ainda hoje existe” e pela amonite, criatura marinha que se podia agrupar em cardumes e cujo fóssil é hoje encontrado com alguma frequência, muito utilizada para auxiliar no processo de datação dos calcários.

Também o Ictiossáurio, o Mystriosaurius (uma espécie de crocodilo marinho), as belemnites, seres semelhantes a lulas, e o Liopleurodon, um réptil marinho e “o maior animal que alguma vez terá existido, podendo atingir 150 toneladas e cuja cabeça [replicada na exposição] mede 1,70 metros”, eram habitantes das águas quentes do Jurássico. Esta recriação dos ambientes marinhos é feita através de painéis que se complementam de uma sala para a outra, sendo pouco usual em exposições deste género, já que os ambientes terrestres tendem a dominar, pois é neles que se movimentavam alguns dos mais “mediáticos” dinossáurios, como o temível Tyrannossaurus Rex.

Parceiros para a diversidade

Os painéis e ilustrações que constituem a exposição representam animais e plantas, a fauna e a flora que proliferava no Planeta há aproximadamente 200 milhões de anos, e são complementados com fósseis e algumas réplicas de esqueletos dos animais ilustrados. No ambiente terrestre dominam os grandes herbívoros, como o monumental Braquiossauro, os perigosos carnívoros e aquela que terá sido a primeira de todas as aves, o Arqueoptérix.

A flora não foi esquecida, estando representadas as grandes coníferas, como as sequóias, as cycas e os fetos, também eles considerados fósseis vivos, e o gingko biloba, que além de ser um fóssil vivo é uma árvore com muita simbologia [ver caixa]. A exposição reparte-se por três salas do Museu da Pedra de Cantanhede, a que se junta o espaço onde é projectado um filme documentário sobre o período Jurássico que complementa a experiência. Até ao dia 30 de Abril, os dinossáurios serão os anfitriões de todos os visitantes deste espaço museológico, prometendo entreter pais e filhos, miúdos e graúdos.

Esta é a mais recente das exposições temporárias acolhidas, tendo resultado de uma parceria com o Museu Nacional de História Natural, mostras que são renovadas com frequência a fim de “assegurar a divulgação das colecções e reforçar a aproximação a outras instituições”, frisou Maria Carlos. Os temas têm sido diversificados, para que possa ser promovida a interdisciplinaridade. Daí a colaboração com artífices – ourives, joalheiros e outros – com o Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, e com o já mencionado Museu Nacional de História Natural, em Lisboa.

A conservação e divulgação do património escultórico e artístico que se encontra espalhado pelos diversos templos religiosos do concelho de Cantanhede é outra das preocupações do Museu da Pedra, que em estreita colaboração com as autoridades religiosas tem vindo a exibir sucessivas exposições de imagens de pedra, muitas delas de grande beleza e valor artístico. A responsável considera que este “é um projecto de grande interesse patrimonial e pedagógico”, a que se junta a necessidade de educar para a preservação destas obras, que não devem, por exemplo, estar em contacto com flores e velas, elementos com que frequentemente dividem o mesmo espaço.

Museu vivo e premiado

O Museu da Pedra é “um espaço de referência identitária e um lugar privilegiado de aprendizagem, que promove várias actividades destinadas a públicos de origens culturais diferenciadas”, esclareceu Maria Carlos. De portas abertas desde o dia 20 de Outubro de 2001, o espaço foi galardoado no mesmo ano com a Menção Honrosa de Melhor Museu Português, para o triénio 1999/2001, pela Associação Portuguesa de Museologia. Mais recentemente conquistou o Prémio Nacional de Geoconservação 2006, atribuído pela ProGEO – Associação Europeia para a Preservação do Património Geológico.

Os prémios distinguem um espaço agradável, arejado e luminoso, em que tem lugar de destaque a Pedra de Ançã, a sua extracção, o processo e as ferramentas utilizados para lhe dar forma e a caracterização geológica do Concelho. Aos aspectos geológicos e arqueológicos juntam-se as marcas “antropológicas, culturais e artísticas, cujo indiscutível valor patrimonial importa perpetuar”.

Foi nesse sentido que o Município de Cantanhede criou o Museu da Pedra, um espaço que “pretende constituir um acervo representativo dos testemunhos paleontológicos e das obras de arte que, desde há muitos séculos, utilizam o famoso calcário da região, genericamente conhecido por Pedra de Ançã”. A este aspecto junta-se o empenhamento em “manter vivos os mesteres artísticos e ofícios tradicionais que estão na sua origem”.

Porque o aprender e o fazer andam, frequentemente, de mãos dadas, o Museu conta com um espaço denominado “museu vivo”, uma espécie de oficina que dispões de auditório e onde acontecem ateliês de artes plásticas, nomeadamente escultura, em que os mais pequenos podem “deitar mãos à obra” e ser artistas por algumas horas. Estas actividades de carácter lúdico e pedagógico são dirigidas especialmente às escolas. Destaque, ainda, para as visitas guiadas para invisuais, realizadas em estreita colaboração com a ACAPO – Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal.

O Museu da Pedra de Cantanhede oferece ainda outro tipo de iniciativas culturais, como concertos, palestras, colóquios e oficinas de restauro, dispões de um auditório e de um espaço internet e tem entrada livre. Funciona todos os dias excepto às segundas-feiras e aos feriados.

Ginkgo biloba, símbolo de paz

A árvore Ginkgo biloba, também conhecida por nogueira-do-Japão, é considerada pelos cientistas um fóssil vivo, tendo chegado a julgar-se extinta, e é um exemplar único no mundo vegetal, não tendo “parentes” próximos. É uma árvore de folha caduca (perde a folhagem no Inverno) que pode ser encontrada nos diversos Continentes, e pode mesmo ser apreciada bem perto de nós. Em Cantanhede existem dois exemplares na Rua dos Bombeiros Voluntários, facilmente identificáveis pelo formato e cor amarela das folhas.

Contudo, a particularidade pela qual esta planta se tornou um símbolo de paz e longevidade internacional foi o facto de num dos mais negros episódios da história da Humanidade, a 2.ª Guerra Mundial, mais concretamente o bombardeamento atómico à cidade de Hiroshima, Japão, esta espécie vegetal ter sobrevivido à radiação nuclear que dizimou todos os vestígios de vida à sua passagem. Do solo devastado e fustigado brotou vida e, por isso, Ginkgo biloba é sinónimo de longevidade e paz, e transmite uma mensagem de esperança. Hoje, são-lhe reconhecidas capacidades terapêuticas, nomeadamente no combate aos radicais livres e em diversos produtos das indústrias farmacêutica e cosmética. | FC