Licínio Mendes Oliveira nasceu a 27 de Janeiro de 1961 na pequena localidade de Arneiro Tecelão, freguesia de Arazede, concelho de Montemor-o-Velho. Ali cresceu, entre as areias da Gândara e o mar da Praia da Tocha, mar que ainda hoje admira e contempla, em busca de tranquilidade. Há quase 30 anos ao serviço da GNR, encontra no artesanato a evasão para as dificuldades do quotidiano.


Neto de artesão, Licínio aprendeu a fazer os seus próprios brinquedos bem cedo. O gosto pela arte nunca se perdeu mas havia de ser um dos seus filhos a motivá-lo para voltar a deixar o artesanato ser parte da sua vida. Hoje, vai dividindo os seus dias entre o trabalho no posto da GNR, em Cantanhede, o fabrico de barcos e palheiros típicos da Tocha e o cultivo da terra, o seu cantinho dedicado à agricultura biológica.

É com um sorriso e braços abertos que somos recebidos por Licínio Oliveira. Se os quase 30 anos ao serviço da Guarda Nacional Republicana (GNR) lhe endureceram os modos, reserva essa postura para as horas de serviço. Ali, em sua casa, no seu pátio, é um homem afável e comunicativo. Irrequieto, vai-nos mostrando alguns trabalhos, dá-nos a conhecer o espaço onde costumava dedicar horas ao artesanato. Costumava porque teve que ceder as “instalações” aos filhos: “Criaram aqui uma espécie de ginásio e eu tive que me mudar”.

Quando fala nos filhos, o amor e a dedicação são quase palpáveis. O mesmo sentimento que transmite quando nos mostra as suas peças; barcos, palheiros, quadros, até colheres de pau. O seu primeiro contacto com o artesanato veio pela mão do avô, era ainda menino numa pequena aldeia: “Fui um privilegiado. Os brinquedos com que me entretinha em pequeno, foi o meu avô paterno, que era artesão, que me ensinou a fazer. Levava-os para a escola e os meus colegas queriam todos ser meus amigos, brincar com o meu carrinho de rolamentos”.

Os tempos eram outros e as dificuldades por que passavam algumas famílias determinavam que não havia dinheiro para gastar com brincadeiras. Era fabricar os próprios brinquedos ou prescindir de os ter. O pequeno Licínio optou por deitar mãos à obra: “Fazia comboios com quatro ou cinco latas de conserva, gruas com carrinhos de linha e carretos para empurrar. Hoje as crianças têm acesso a tudo, há informática a mais. Nós criávamos os nossos brinquedos e éramos felizes”.

As mesmas dificuldades que o obrigaram a ser criativo e projectar os seus próprios brinquedos ditaram o fim dos estudos no segundo ano do Ciclo e o início de uma vida de trabalho. Era apenas uma criança mas depressa teve que se fazer homem: “Aos 11 anos fui trabalhar para a Tocha, para as obras. Era normal naquele tempo… veja que dos meus colegas de escola só três é que seguiram os estudos”. Licínio Oliveira confessa ter tido uma infância difícil, agravada por alguns “azares”. “Quando tinha 11 anos a minha mãe caiu de um carro de bois, partiu três vértebras, ficou inválida. Depois aos 19 o meu pai apanhou uma gangrena, tiveram que lhe amputar uma perna. Fiquei com duas irmãs prestes a casar, tive que trabalhar para a casa”.

O destino que muitos considerariam duro não chega para ensombrar o rosto do militar. Com 11 anos conheceu trabalho duro, a fazer blocos de cimento e a tirar areia da beira-mar na maré baixa, mas conheceu também uma paixão que ainda hoje faz brilharem os seus olhos: “A Praia da Tocha é incrível. Fizemos lá coisas que ainda hoje me fazem pensar. Uma vez nadei quase trezentos metros para ir ao pé de uma traineira que passava buscar uma raia. Trouxe-a num saco e foi o nosso almoço”.

A Tocha ainda não tinha a dimensão que hoje se lhe conhece e era visitada sobretudo pelas gentes dos lugares vizinhos. “Eram 60 ou 70 palheiros e umas duas casas de pessoas mais ricas. A função dos palheiros era guardar as redes dos pescadores e eram erguidos sobre estacas para que o vento e a areia pudessem passar por baixo no Inverno”. Aos 17 anos deixou para trás o areal mas guarda a Tocha no coração até hoje: “Aprecio muito o barulho do mar à noite. Faz-nos esquecer tudo, tudo o que existe de mau”. Seguiu-se a tropa, cumprida na Figueira da Foz, e o ingresso na Guarda.

Pela Lei e pelo artesanato

Em 1983 envergou a farda pela primeira vez, e quatro anos depois fixou-se no Destacamento Territorial de Cantanhede. “Pela Lei e pela Grei” tem sido o seu lema desde então, apesar de assumir que hoje é muito difícil pertencer à GNR: “Antes havia muito mais respeito pelas autoridades. Quando eu era criança e víamos um guarda desatávamos a fugir, mesmo que não estivéssemos a fazer mal nenhum. Hoje falta o respeito e falta também humildade e os princípios. Com humildade chegamos a todo o lado”.

Admirador confesso de Jorge Catarino, um “homem de sangue e alma gandaresa”, tem vindo a recolher tudo o que consegue sobre a arte e as tradições da Gândara. Foi por este amor declarado ao que é da terra, às suas gentes e aos seus costumes, que decidiu dedicar-se à arte de fabricar barcos e palheiros em madeira. “O meu filho começou a fazer coisas cedo, fez os primeiros barcos e palheiros com oito anos. Por força da vida que leva agora, teve que deixar a arte e como ele era o único do concelho de Cantanhede a fazer isto, eu decidi continuar”.

Reza a história que normalmente os ofícios passam de pais para filhos, mas neste caso foi o pai quem aprendeu com o filho. Aos palheiros e barcos seguiram-se os quadros com cenas e paisagens típicas da Praia da Tocha, mas as ideias não ficam por aqui: “Quero muito fazer a típica casa gandaresa e gostava de fazer uma maqueta de toda a Praia da Tocha nos anos 40. Mas isso só quando deixar o serviço”. Porque valoriza os ofícios e as artes tradicionais da Gândara, o artesão gostaria de transmitir aos alunos das escolas da Região um pouco do seu saber, para que também eles aprendessem a ter gosto pelas singularidades da sua terra e não as deixassem morrer. Hoje o artesanato é mais que uma distracção, é uma paixão e uma fuga para os problemas do dia-a-dia.

Um barco médio chega a levar três dias de trabalho a ser feito e apesar de ser a peça mais difícil é a que Licínio mais gosta de fazer. Confessa–nos que não gosta de vender o fruto do seu trabalho, pois sente estar a vender um pouco de si. “Quem tem amor à arte é assim que sente”. Talvez por isso prefere oferecer as peças a quem as estima em vez de as vender a quem não lhes dá valor. “Quando as pessoas gostam de uma peça de artesanato, os seus olhos como que brilham para a peça”. A criatividade é uma das características do artesão, que ultimamente tem vindo a experimentar gravar imagens em espelhos, e que até já criou uma colher de pau personalizada, com menos linhas curvas e mais linhas rectas, para não deixar restos no fundo do tacho.

Com 28 anos de “casa” já não lhe falta tudo para a reforma, altura em que se irá dedicar a cem por cento ao artesanato e em que dará asas à imaginação, não só na oficina mas também na estufa, onde tem cultivado beterraba, alface, couve, batata, cebola, fava e feijão verde. Ao artesanato e à agricultura junta o gosto pela cozinha, mais concretamente pelo forno a lenha, onde assa leitão e prepara cabrito estonado, especialidade típica de Oleiros. Nada arreigado aos bens materiais, vai repetindo os valores por que se rege e que tem incutido nos dois filhos: humildade, muita, e trabalho.

Tragédia em Febres

As quase três décadas na GNR não chegam para o fazer esquecer um dos episódios mais tristes que viveu em serviço. “Foi o rebentamento de uma granada no Zodíaco, em Febres, em 1988 ou 1989”. Licínio Oliveira estava no posto e começou a aperceber-se de um movimento incomum de ambulâncias. Segue-se a chamada que mudou uma noite tranquila para um verdadeiro pesadelo. “Quando chegámos ao local deparei-me com um mar de sangue”. Era Carnaval e no Zodíaco acontecia um baile de mascarados. Um folião em particular, disfarçado de árabe, munido de duas granadas no cinto, não foi a Febres para se divertir. “Era um indivíduo da zona de Oliveira do Bairro que tinha estado na Guerra do Ultramar e pertencia aos Comandos. Morreram três pessoas e ficaram feridas outras 89”. Foi o momento mais difícil da carreira de Licínio Oliveira: “Mexe connosco ver os bombeiros a querem salvar pessoas e não conseguirem, vermos uma quantidade assustadora de sangue, pessoas em sofrimento. São coisas que marcam muito”. A pacata vila de Febres viveu, nessa noite, um dos mais trágicos episódios da sua história. | FC