João Carlos Vidaurre Pais de Moura nasceu em Cantanhede a 1 de Novembro de 1957, o mesmo dia em que, em Coimbra, nasceu Carlos Paião, cantor e compositor português. Cresceu em Febres, onde brincou, jogou à bola e estudou, numa infância e juventude felizes, despreocupadas. Cursou Farmácia na Universidade de Coimbra e foi docente da Universidade do Minho durante duas décadas, funções que se encontram actualmente suspensas. É, desde 2005, Presidente da Câmara Municipal de Cantanhede.

O cargo político que ocupa trouxe-lhe visibilidade, e é por ser o Presidente da Câmara Municipal de Cantanhede que muitos o conhecem. No entanto, João Moura abraçou a política há relativamente pouco tempo. Os dias que agora são dedicados ao Município e às suas gentes, já foram ocupados com a docência universitária e o dedilhar das cordas de uma guitarra.

É num gabinete espaçoso, arejado e bem iluminado, no edifício dos Paços do Concelho de Cantanhede, que somos recebidos por João Moura. Para nós o dia estava apenas a começar, para o autarca já tinha começado há algum tempo e sabe-se lá quantas decisões importantes, inadiáveis e com impacto directo na vida dos munícipes já teria tomado.

É assim o quotidiano de quem ocupa um cargo público, pelo menos quem pretende estar à altura do desafio. O dia começa cedo e acaba, muitas vezes, tarde. Os pedidos são mais que muitos, por isso há que saber organizar o tempo. Todos os minutos contam, e entre reuniões, inaugurações e demais solicitações, também nós tivemos direito a “tempo de antena”.

Começamos pelo início, pe-los primeiros anos, aqueles que marcam a sério e que nos moldam a personalidade e o carácter. Esses anos, João Moura passou-os em Febres. “Vim nascer a Cantanhede, o meu pai era médico no Hospital, e voltei logo para Febres, onde estive até aos 18 anos, momento em que os meus pais vieram viver para Cantanhede e que coincidiu com o momento em que fui caloiro em Coimbra, em 1976”.

Desse tempo guarda muitas, e boas, recordações: “Talvez pela vida tão agitada que temos hoje, e pela infância que tivemos em que não nos preocupávamos com nada, apenas estudar quando estudávamos, brincar, jogar à bola, ir para as lagoas pescar. Era uma vida muito diferente, de maneira que tudo isso que nos faz recuar no tempo recordamos, não direi com muita saudade – obviamente que os tempos, hoje, são outros –, mas foi uma experiência de vida a todos os níveis marcante”.

A infância e as brincadeiras de menino, tão diferentes das que vivem os meninos do século XXI, deixaram marcas, mas também a terra que lhes serviu de cenário não era a mesma dos nossos dias: “Era uma realidade diferente. Lembro-me de frequentar a Escola Primária e de a grande maioria dos meus colegas chegar à escola descalços. Hoje falamos de uma realidade totalmente diferente, e aquilo que nos trouxe o 25 de Abril de 1974, uma modificação profunda na vida, não só de uma então aldeia como Febres, mas por todo o País. Houve uma mudança para melhor, estamos noutro estádio de desenvolvimento que há 40 anos não tínhamos”.

 

Cravos vermelhos na Gândara

Tinha 16 anos quando, em Portugal, os cravos protagonizaram uma revolução sem sangue. Recorda-se bem daquela quinta-feira de 1974, um dia atípico para o então jovem estudante: “Nesse dia não houve aulas no Liceu de Cantanhede. Passámos todo o dia sentados na escadaria, sem fazer literalmente nada. Com 16 anos, se pudéssemos não ter aulas e estar a divertir-nos, a jogar à bola, a conversar, a namorar, o que fazía-mos por essa altura, era um dia em cheio”.

E assim foi. Um dia sem lições, cadernos e professores, ao sabor das conversas com os amigos, enquanto em Lisboa, tão perto e tão longe, uma nova página era escrita no livro da História de Portugal, esta ao sabor da liberdade e da esperança. “Tínhamos consciência do que se passava. Recordo que logo a seguir, no dia 1 de Maio de 1974, houve um movimento em Febres, não lhe chamaria uma manifestação. Lembro-me de estarmos em casa do saudoso Reinaldo Branco a gravar a ‘Grândola Vila Morena’ para depois ser passada nos altifalantes, nesse dia”.

Eram, afinal, a sua geração e as vindouras que mais teriam a ganhar com a Revolução dos Cravos, dia em que foi devolvida a liberdade ao povo português, e João Moura sabia-o. “Eu tinha a experiência de ter em casa um pai, médico em Febres, cuja consciência política eu me ia apercebendo, sobretudo através de algumas conversas. Reinaldo Branco foi Presidente da Junta de Febres antes do 25 de Abril, conseguiu ir contra a lista do Regime, e o meu pai era apoiante da sua lista. Acompanhava, à distância, algumas conversas e movimentações, são sinais que tenho na minha memória que me fazem recordar esses dias”.

Por esses dias de grande agitação política, houve outra novidade a agitar Febres. “Em 1973 ou 1974 foi o primeiro ano das camadas jovens do Febres Sport Clube, os juvenis e juniores. O meu primeiro ano de futebol federado foi nos Marialvas, no ano anterior. Depois acabei por passar de Cantanhede para Febres”. O futebol não durou muito, até porque vieram os 18 anos e a Universidade de Coimbra, onde entrou em 1976, em Engenharia Civil.

 

Nas cordas de uma guitarra

“Em 1976 havia, já, alguns problemas de empregabilidade dos jovens. Entrei em Engenharia Civil mas pouco tempo depois houve um ‘clique’ e eu percebi que não estava bem ali. De um momento para o outro tomei uma decisão e mudei para Farmácia”. A escolha não foi aleatória nem surpreendente, já que a sua mãe seguira a mesma área. “Obviamente que houve aqui muito da minha mãe. Já tinha equacionado a área da saúde, com o meu pai médico, por isso encarava bem esta realidade. Hoje não sei se teria ido para Farmácia, mas foi o que fiz e foi um curso de que gostei”.

Seguiram-se alguns estágios nos Hospitais da Universidade de Coimbra e no Hospital dos Covões. Mas o rumo a seguir teve o seu destino a Norte, até porque então já havia mais uma boca para alimentar: “Eram estágios voluntários, não remunerados, e na altura, com a minha filhota mais nova acabada de nascer, era impensável continuar. Concorri para a carreira docente universitária, em Coimbra e no Minho. Acabei por ser seleccionado para Braga [Universidade do Minho], onde permaneci durante 20 anos”. É, actualmente, Professor Associado de Nomeação Definitiva da Universidade do Minho, Departamento de Química, com funções suspensas desde 2004.

Os anos passados enquanto estudante em Coimbra foram marcados pelo empenhamento de João Moura, o jovem “caloiro”, em aprender a tocar guitarra portuguesa, e em participar activamente na vida associativa e no retomar das tradições académicas, perdidas com a crise estudantil de finais da década de sessenta do século XX. “Para mim a boémia durou até ao 3.º ano, depois casei. Considero que fui um activista do movimento de restauração das tradições académicas, estive envolvido no seu ressurgimento”.

Uma das intervenções de que certamente se orgulha foi a criação da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra, hoje uma das mais emblemáticas da Academia. “Fui monitor de guitarra e, não cantando nada, até de canto tive que ser monitor, enfim, tínhamos que ser ‘pau para toda a colher’. O meu pai ‘arranhava’ a guitarra clássica, portanto haveria já aí algo quase hereditário. A verdade é que eu já ia para Coimbra focalizado em aprender guitarra portuguesa. Comecei na Associação Cristã da Mocidade [ACM], com o mestre Jorge Gomes, e depois no Edifício do Chiado”. Entre 1980 e 1984 teve como mestres Pinho Brojo (Professor na Faculdade de Farmácia) e António Portugal, nomes maiores da guitarra de Coimbra.

 

Por Cantanhede

Depois de 20 anos enquanto professor universitário e do doutoramento obtido em 1994, da regência de diversas disciplinas, da direcção de cursos de mestrado e da integração de várias comissões académicas, da publicação de perto de uma centena de trabalhos e artigos e da introdução, em 2003, da terapia fotodinâmica enquanto tecnologia inovadora no tratamento do cancro de pele, no Hospital de S. Marcos, em Braga, João Moura regressou a Cantanhede.

Foi muito o que deixou para trás, mais ainda o que mudou na sua vida e aquilo de que teve de abdicar. Ainda assim, não aceita falar em sacrifícios: “Eu não entendo isto como um sacrifício. Aquilo que faço na vida, faço com prazer. Não me arrependi de um dia ter tomado esta decisão, sei que sou compensado com aquilo que é para mim uma missão de serviço público. É uma actividade absorvente, nem damos por ela quando é de manhã à noite. Não é um sacrifício é, acima de tudo, ter a consciência daquilo que implica”.

Não é, portanto, o volume de trabalho e de solicitações que tem afastado algumas pessoas da vida política. Para João Moura, é uma questão muito mais profunda: “A nossa Democracia está doente e somos nós que lhe temos feito muito mal. Isto faz com que cada vez mais pessoas com qualidade se afastem, quando lhes é proposto que abracem um destes cargos elas pensam duas vezes”. O tom é crítico e a gravidade do problema impõe uma resolução breve, enquanto ainda há tempo e discernimento no seio da classe política. João Moura fala com a paixão dos “recém-casados”, afinal, a sua ligação ao poder é recente, tem pouco mais de dez anos.

“Nunca fiz parte de juventudes partidárias. A minha participação ao nível dos movimentos associativos da Academia de Coimbra nunca foi ligada a listas partidárias. Fiz o meu percurso normal sem nunca ter deixado de ter a minha opinião, de ler. A entrada no Partido [Social Democrata] ocorreu pela mão do Dr. Jorge Catarino em 2000. Sou novato e obviamente que o fiz com consciência”. Em 2005 recebeu, pela primeira vez, o voto de confiança dos cantanhedenses, voto que se repetiu em 2009.

“Fui motivado por Cantanhede, pelos projectos que se estavam a desenvolver, nomeadamente o Parque Tecnológico, que eu via quase como uma extensão da minha carreira académica. Foi uma decisão pensada e amadurecida mas no momento de assumir o coração falou, e o coração é Cantanhede”. Assume gostar da terra onde nasceu, não sendo bairrista, até porque importante é o contributo que cada um pode dar ao País.

João Moura não se esconde no gabinete, nem se escuda por detrás dos óculos escuros qual vedeta fingindo fugir da fama que um dia procurou: “Estes lugares devem ser exercidos com proximidade. É mau quando nos escondemos ou tentamos evitar as pessoas. É uma das virtudes do municipalismo, é a relação entre o eleitor e o eleito. Isto leva-nos a um outro tema, o da credibilidade dos políticos neste momento. Este regime precisa de um ‘renascer das cinzas’, quase que de uma implosão. É preciso um novo 25 de Abril”. Até que os portugueses decidam gritar “Basta!” e pegar, novamente, nos cravos, a vida vai seguindo o seu curso, dia após dia, sem sobressaltos nem atropelos. Quanto ao futuro, resta esperar: “Não me pergunte o dia de amanhã que não lhe sei responder. O que lhe respondo é do dia de hoje, e o dia de hoje começou às oito e meia da manhã e é levado como se fosse o último da minha vida, a duzentos por cento”.

Coimbra das Repúblicas e das guitarradas

João Moura foi um dos fundadores da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra (AAC), no final da década de setenta. Por esses dias, deposto que estava o Antigo Regime, fervilhava um pouco por toda a cidade o desejo de ver regressar as tradições académicas, sacrificadas perto de uma década antes como forma de protesto contra a ditadura instituída. “A Secção de Fado era procurada por muitos estudantes. Logo nos primeiros anos deparámo-nos com dezenas de estudantes a inscreverem-se, uns porque queriam cantar fado apesar de não terem jeito, outros queriam aprender guitarra. Dos 60 ou 70 iniciais restavam três ou quatro no final do ano, nem todos tinham capacidade”.

Ainda assim, os que não tivessem a voz de Zeca Afonso ou os dedos mágicos de Carlos Paredes poderiam servir para outras músicas: “A Secção teve que se expandir e arranjar outros grupos. Retomámos a Pitagórica, por exemplo, que já tinha existido antes mas havia cessado actividade, era para onde drenávamos muitos colegas que não tinham jeito para nada”. Importante mesmo era fazer parte da “malta”, nem que o único instrumento tocado fosse uma tampa de sanita, um autoclismo, um sinal de trânsito ou um chapéu-de-chuva. Quando chegou a hora de trocar a cidade do Mondego pela dos Arcebispos, João Moura levou consigo a guitarra e a paixão por dedilhar-lhe as cordas.

Hoje, vão sendo menos os momentos que dedica a essa companheira de outros tempos, mas conta na bagagem com quatro discos editados, o último, de 2005, com a colaboração de Luiz Goes, e a participação em oito outros trabalhos. Além de tocar e ensinar, João Moura conseguiu, ainda, encontrar nas 12 cordas da sua guitarra os sons que lhe permitiram compor quase duas dezenas de melodias instrumentais e de fados. “Hoje não consigo disponibilizar-me mentalmente para tocar guitarra. Para tocar em público é preciso praticar todos os dias, e em tempos era isso que eu fazia. A guitarra para mim era quase como um sedativo, uma forma de evasão”. Para já, Cantanhede vai perdendo um guitarrista, mas ganhou um Presidente da Câmara.