José Jerónimo, “Zé Padre” como era apelidado pelos conterrâneos, foi encontrado sem vida três meses após a data provável da morte. Augusta Duarte Martinho jazia morta há perto de nove anos, no chão da cozinha, quando foi encontrada. Estes são nomes e números sintomáticos da solidão e do abandono em que vivem milhares de idosos neste País.
Era pouco sociável e dado a períodos relativamente longos de isolamento. José Jerónimo, 71 anos, reformado do Exército, foi encontrado sem vida na passada sexta-feira, 11 de Fevereiro. Vivia sozinho no n.º 7 da Rua Vasco Viriato, em Balsas, concelho de Cantanhede. A mulher e o filho estariam a residir em Lisboa. “Não sei precisar o tempo mas talvez há uns seis ou sete anos que não vejo cá o filho dele”, confessa Alice Rua, vizinha de “Zé Padre”.
“Era muito metido com ele próprio, só quando bebia é que ficava mais conversador, vinha para a rua”, revela Alice, o olhar posto do outro lado da rua, onde a escassos três ou quatro metros se erguem as paredes que esconderam o corpo do seu vizinho durante alguns meses. “Não era novidade ele ficar sem aparecer. Há uns anos fechou-se durante dois ou três meses. Às vezes íamos lá ver como estava mas muitas vezes tratava mal as pessoas. Desta vez pensámos que fosse o mesmo, nunca me passou pela cabeça que pudesse ter acontecido isto”, confessa Alice Rua, resignada.
Morreu só, tal como havia vivido os últimos anos da sua vida. Três meses depois foi encontrado “deitado sobre a cama mas com os pés a tocar no chão”, relatou ao AuriNegra o 2.º Comandante do Destacamento Territorial de Cantanhede da Guarda Nacional Republicana (GNR), Tenente Cláudio Lopes. O cheiro era nauseabundo e “o corpo encontrava-se em avançado estado de putrefacção”. O alerta foi dado por uma vizinha, “uma senhora que teria visto a notícia da idosa que foi encontrada morta em casa” e decidiu ligar para a Guarda, já que não via José Jerónimo há vários dias. Sem família por perto, vale, muitas vezes, a atenção dos vizinhos. Foi assim em Balsas, Febres, e poderia ter sido assim no caso de Augusta Duarte Martinho.
Foi encontrada há um punhado de dias, em Sintra, supostamente mais de oito anos após ter morrido, mas podia ter sido diferente. Podia se as suspeitas e a desconfiança da vizinha que alertou as autoridades, corria o ano de 2002, tivessem chegado a bom porto. Não foi o caso, e nem os milhares de euros em dívida à EDP ou a caixa de correio atafulhada de correspondência fizeram antecipar este desfecho. Foi preciso que a sua casa fosse vendida e que fosse necessária a substituição da fechadura para que pudesse ser entregue aos novos donos.
No chão da cozinha há mais de oito anos estava Augusta Martinho. Morreu só. Teve, agora, os seus “quinze minutos de fama” e é uma dolorosa prova da indiferença e do egocentrismo do ser humano, de como um ser social pode, afinal, ter tão pouco respeito e cuidado pelo próximo, salvo as raras excepções de alguns vizinhos zelosos.
Pessoas abandonadas
A Igreja Católica já veio a público condenar estes acontecimentos lamentáveis, considerando que são “a prova acabada de uma desumanidade da sociedade”. Foram nove os idosos encontrados mortos em casa, sós, num curto espaço de tempo. Nas nove situações o alerta partiu de vizinhos e não de familiares. “Estes casos só vêm evidenciar e incomodar quem, por acaso, tivesse a consciência adormecida e não reparasse quantas pessoas, sobretudo nas cidades, são abandonadas e isoladas pela família”, disse, em declarações à agência Lusa, o bispo responsável pela Pastoral Social, Carlos Azevedo.
Esta é apenas uma das várias facetas daquela que é uma crise da família, do seu conceito tradicional enquanto núcleo de pessoas unidas por laços de sangue e não só, que cuidam e se preocupam umas com as outras. A família deixou de ser uma estrutura social forte e duradoura, tendo-se vindo a fragmentar e a deixar “órfãos” um pouco por todo o País. Os idosos são, invariavelmente, os mais desprotegidos nesta situação. Para o bispo é “necessária humanidade e que as pessoas não tenham apenas critério de utilidade funcional, não tenham apenas o pragmatismo de quem é útil, e que não estejam a pôr as pessoas defuntas antes delas morreram”.
O problema tende a agudizar-se nos grandes centros urbanos, já que se torna mais difícil manter relações de proximidade com os vizinhos ou conhecer-lhes os hábitos e as rotinas. O crescente envelhecimento da população em Portugal é outra das tendências que importa tentar inverter, já que com o número de idosos a aumentar este tipo de casos tem tendência a crescer em proporção. Manuel Villaverde Cabral, sociólogo, lamenta mesmo que “tenha de haver casos trágicos como estes para que a opinião pública tome consciência, através da comunicação social, do problema cada vez mais frequente do isolamento em que vive uma grande parte dos idosos”.
Já dizia Will Durant, escritor, historiador e filósofo norte-americano, que “a solidão não constitui alimento, apenas jejum”. Cabe à sociedade portuguesa, a todos nós, evitar que mais idosos “morram de fome”. | FC