Nuno Pedro Domingos Pedreiro nasceu na Lentisqueira, uma pequena aldeia de Mira, no ano em que, por cá, seriam realizadas as primeiras eleições do “pós” 25 de Abril. Estávamos a 14 de Janeiro de 1976 e na Gândara nascia um artista que, mais tarde, havia de levar longe o nome da terra. Nuno tem hoje 36 anos e para trás deixou um caminho feito de sonhos e de perseverança, trilhado com talento.

Enquanto fala, mantém um olhar de espanto e a conversa dá-se a um ritmo apressado, entrecortada por risos e frases inacabadas. As reviravoltas são a grande constante no percurso do artista plástico, que actualmente divide os dias entre a Lentisqueira e o trabalho com figuras mediáticas, da televisão e do futebol. Os famosos chamam-lhe “Picasso”. Nuno Pedreiro acredita ter nascido com um dom…

“Tive sorte, a vida deu-me tudo o que sonhei”. A observação acaba por mencionar a letra de uma das cantigas mais populares do seu amigo Tony Carreira. Nuno Pedreiro admite admirar o cantor, com quem priva regularmente, e revela que em pequeno achava que seria na música que viria a fazer carreira. “Gostava, e gosto, de cantar, fui até DJ e animador de karaoke, mas o desenho e a pintura falaram mais alto”. Sem presunções, diz ter nascido “com o bichinho das artes plásticas” e conta que, ainda pequeno, já se sentia fascinado pela pintura.

Nascido na Lentisqueira, concelho de Mira, Nuno tinha apenas três anos quando partiu com os pais, trabalhadores da lavoura, rumo à Venezuela. Naquele país latino-americano, a família do artista lutou por uma vida melhor, enquanto Nuno acabou por ser menino numa terra em que tudo era diferente. “As pessoas são mais alegres e coloridas, com muitas festas e tradições”.

Nas ruas de Caracas, Nuno viu soltar-se e crescer o tal “bichinho” que nascera com ele: “Lembro-me que ficava deslumbrado quando via aqueles artistas na rua a desenharem e a pintarem, sobretudo caras e rostos. Chegava a casa e tentava imitá-los”. Ainda gaiato, e já seduzido pela arte, começou por pintar o que via na televisão. “Fazia a Minnie e o Mickey e depois comecei a fazer rostos”.

 

Entre a Venezuela e a Lentisqueira

Descortinamos um qualquer sotaque nas palavras de Nuno, que saem apressadas. Ri-se constantemente, mesmo quando se emociona e as lágrimas lhe assomam aos olhos, sempre inquietos. Frequentava a escola na capital venezuelana quando um tiroteio junto ao estabelecimento levou os pais a optarem por mandá-lo de novo para Portugal. “Foi o pior que podiam ter feito”, constata. Regressou à Lentisqueira, a cuidado de quatro tias-avós, de quem se tornou admirador. “Andei meio perdido, a escola era muito diferente”.

Indigna-se com as recordações da “cana-da-índia e das reguadas”, utilizadas pela professora Maria do Céu. “Era do Céu mas eu ia para o inferno…”. As mãos de Nuno, irrequietas, nunca se largam e a sua postura desenha uma espécie de ponto de interrogação. “O ensino cá era diferente e eu tinha jeito para outras coisas… ressenti-me muito”.

Assemelha-se a um menino grande, atrevemo-nos a dizer, apesar do sucesso somado e dos 16 anos de carreira, assinalados em Outubro passado com o lançamento de um livro. “Fiquei chocado com a escola de cá. As crianças são cruéis e punham um miúdo mais velho a tomar conta dos outros, já se sabe, há humilhações”. Justifica assim o desencanto com a escola, algo que não passou despercebido aos pais.

“A minha vida é feita de reviravoltas”, constata, num trejeito risonho. Um ano e meio por cá e Nuno regressaria à Venezuela, para aí crescer e ser adolescente. “Felizmente, voltei. Tenho as melhores recordações”. A mestria dos seus desenhos e pintura e o jeito para as artes plásticas dão nas vistas por lá e é na Venezuela que dá os primeiros passos no sonho. “Viram que eu tinha um dom e aproveitaram o que eu tinha de melhor. Talvez não fosse tão apurado como hoje, mas as raízes estavam lá”.

 

“Fome” de artista

Tinha 15 anos quando os pais regressaram definitivamente à Gândara. “Voltei e caí na mesma realidade: é impossível estudar neste País”. As palavras de Nuno carregam um sentimento inquietante. “Nunca valorizaram o que eu gostava e sabia fazer. Tentei estudar, andei na Secundária de Mira [Drª. Maria Cândida], e um dia desisti”. Deu aí a maior desilusão ao pai.

“Sei que o decepcionei. Sou pai e sei que deve ser difícil ouvir um filho dizer-nos que quer ser artista, ainda por cima num meio tão pequeno como este”. É nesta parte da conversa que Nuno Pedreiro assume que os sonhos lhe têm comandado a vida. “A loucura falou mais alto. Deixei tudo para ir atrás de um sonho”. O pai perguntara-lhe então do que ia viver. “Da arte”, conta, assumindo hoje quão longe estava de saber como isso seria difícil.

Com o 9.º ano por concluir e frustradas as tentativas de o terminar – “passei a vida a fugir da escola”, regista –, Nuno apostou na pintura e nas exposições. “Estava na minha fase maluca, na loucura dos abstractos. Quando se começa, queremos mostrar o que sentimos e o que não sentimos e não correu muito bem”. Ri-se dele próprio. “Só mais tarde percebi que tudo tem um tempo e um sítio certos”.

Do abstracto passaria então para o figurativo. Não por gosto mas por necessidade. “Caí na realidade: um artista tem de comer”. Para “ganhar algum”, dedicou-se a pintar a Gândara e a essência da terra que ama. Na tela pôs a aldeia que foi o seu berço, traçou a vida das gentes desta zona e imortalizou o mar e a labuta dos homens da Praia de Mira. Ao pintar as suas raízes e os costumes deste povo, as tradições e usos gandareses, Nuno Pedreiro, lançava – e talvez não o soubesse – as bases do seu futuro.

 

A Gândara a pincel

“Foi aí que comecei a fazer os quadros dos bois, hoje famosos e dos quais não abdico. Representam o mar, a arte xávega e esta terra, mas acima de tudo representam aquilo que eu sou”, explica. Assumidamente humilde – “nunca esqueço as minhas origens”, reforça – confessa-se apaixonado pela Gândara: “Esta terra é a minha essência”.

E se com os quadros figurativos o artista pôde comer, com o retrato o artista não perdeu o Norte. “O único que nunca me abandonou foi o retrato; é ele que me acompanha desde criança, nas ruas da Venezuela, até ao dia em que me ensinou que seria a pintura o meu futuro. Ao longo da minha carreira, foi o retrato que me abriu as portas ao mundo”.

Um mundo que há cerca de uma década cintila com as luzes da ribalta, depois de vários acasos que culminaram com o artista a entrar no meio do futebol e da televisão e a trabalhar, essencialmente, com figuras públicas. “Foi uma reviravolta”. Recorre mais uma vez às voltas que a vida dá para justificar o rumo que a sua tomou.

Primeiro, conheceu “Tino de Rans”, o calceteiro da Câmara do Porto que em tempos dirigiu uma Junta de Freguesia de Penafiel e já foi vedeta de televisão, e mais tarde Fernando Mendes, actor e apresentador de televisão. Ambos encontraram em Nuno um talento singular e não hesitaram em abrir-lhe as portas dos seus mundos.

 

“Picasso”

Com “Tino de Rãs”, Nuno viria a conquistar o Norte, já depois de ter conhecido os jogadores do Futebol Clube do Porto. Estávamos em plena “era Mourinho” e o artista de Mira fora ao Clube com o novo amigo para granjear autógrafos. Acabou a ser apelidado de “Picasso” e a retratar jogadores. “Entrei lá para os meus ídolos me assinarem uns esboços que fizera e de repente era eu o ídolo deles”, diz, de brilho nos olhos.

Trabalhos somados e solicitações repetidas, não houve no plantel quem não lhe fizesse encomendas. Mais uma vez, mudava a vida de Nuno. “E era só o princípio”, nota. “Houve um dia em que o Mourinho veio ter comigo e disse-me: ‘Amigo, você tem um talento incrível’”. Aqui, o artista não contém as lágrimas. “‘Será que estou a sonhar?’ – perguntei a mim próprio, quando cheguei a casa…”.

Não estava, e a segunda parte da utopia viria depois, já pela mão do apresentador do popular programa televisivo “O Preço Certo”. O encontro deu-se nas tradicionais festas do concelho de Mira, certame que conta anualmente com a presença do artista local. Fernando Mendes veio à vila, conheceu Nuno e acabou por lhe abrir a porta que definitivamente o catapultou para a televisão.

Desta vez a Sul, e tal como fizera com os do Dragão, Nuno Pedreira conquistou os homens do Benfica, primeiro, os do Sporting, a seguir, e começou a ser presença assídua em muitos programas televisivos. Ainda na televisão, é actualmente responsável por alguns cenários e os seus quadros integram muitos dos prémios atribuídos no concurso da RTP.

Dez anos depois, Nuno Pedreira trata por tu grandes nomes do meio mediático, mas garante não ter perdido a essência. “Sou grato à vida e às pessoas que se cruzaram comigo. Lutei pelos meus sonhos e as coisas acabaram por acontecer no momento certo”, analisa. A Gândara, da qual se considera um embaixador, vai continuar a ser a sua casa, a capital e a “invicta” as cidades onde, por certo, poderá fazer chegar mais longe a sua arte.

Numa espécie de limbo entre a humildade e a gratidão, Nuno Pedreiro declara ter “uma estrelinha”. As suas palavras voltam a evocar as letras de Tony Carreira: “A vida deu-me o que eu pedi”. E conclui: “Para além de se ter talento é preciso ter sorte. Sei que há até gente com muito mais talento, mas eu, sem dúvida, tenho uma estrela…”..

Pintar é viver

Pintor por vocação, é com pinceladas, traços de carvão ou golpes de espátula que Nuno Pedreiro conta as suas histórias. Sem nunca ter frequentado aulas de pintura, é acima de tudo um autodidacta que nunca largou o retrato, centrando todo o seu percurso “no ser vivo. Comecei a pintar bonecos, depois rostos e foi assim que evoluí”, diz-nos.

O olhar é o que mais gosta de pintar e o que, de imediato, identifica nas pessoas. “É como o sorrir, mostra a alma”. No artista, será o sorriso o espelho da sua alma. “Pinto aquilo que vejo e sinto”, confessa. E assim quer continuar. “Quando penso no futuro apenas desejo continuar a fazer aquilo que gosto”. Para ele o que mais importa, revela, “é o momento da criação”. Aí, “tudo o que está à minha volta deixa de existir. Desligo a ficha e essa é a parte melhor dos meus dias: conseguir que da tela branca nasça movimento, luz e cor”.

 

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