Provocam ideias bizarras e fazem parte do imaginário de muitos, em particular dos mais pequenos. As plantas carnívoras reais estão muito longe dos monstros da ficção científica, a não ser, talvez, num pormenor: são escassas e difíceis de descobrir. Uma das espécies mais raras em Portugal existe, afinal, aqui perto. Em Mira foi fotografada uma “Utricularia australis”, o que deixa supor a existência de uma população na zona.
“Se foi encontrada uma, o mais certo é haver ali uma população”, admite Helena Freitas, Directora do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. A professora catedrática fala ao nosso Jornal a propósito do que pode ser considerado uma proeza, concretizada por João Petronilho, fotógrafo amador de Mira, que no Verão fotografou uma planta carnívora tida como uma das mais raras em Portugal.
“ ‘Apanhar’ uma flor destas é uma sorte. Supõe-se que praticamente não existam em território nacional e, sendo submersas, são muito raramente observadas”, admira-se Helena Freitas. Já João Petronilho, amante da fotografia e apaixonado pela Natureza – é guarda-florestal desde 1987 – descreve-nos a “descoberta” com relativa naturalidade. “Diz-se que esta planta existe nas lagoas de Quiaios, mas afinal foi em Mira que a encontrei!”.
Há mais de duas décadas que o fotógrafo – já com um currículo notável em matéria de fotografia de Natureza – vivia na expectativa de se cruzar com um destes espécimes. Sendo guarda-florestal há largos anos, actualmente como elemento do Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente da GNR, conhece bem a região, deslindando todos os dias particularidades da fauna e da flora locais. Mas foi em Julho do Verão passado, “num charco das Dunas de Mira”, que registou mais “um dia histórico”, diz, ao deparar-se com a fantástica “Utricularia australis”, que “apenas conhecia dos livros”.
Tal filho, Tal pai
Porque muitas vezes as grandes sensações e as maiores descobertas fazem mais sentido quando partilhadas, João Petronilho conhecia alguém que iria ficar igualmente agradado com o achado: Afonso Petronilho, de oito anos. O apelido não deixa dúvidas, o jeito para a arte também não surpreende, já a idade do pequeno autor da foto não deixa de causar algum espanto.
“Ele é ‘doido’ por plantas carnívoras, tinha de a fotografar”, explica-nos o pai. Doido porquê? “Gosta muito destas plantas, fazem parte do imaginário dele e encontrar uma ao vivo foi muito bom”. Tal filho, tal pai, igualmente o guarda-florestal não esquecerá o dia 19 de Julho de 2010. “Eu já lera muito sobre estas plantas, sei que se alimentam de pequenos seres, que são raras e que só florescem no Verão”, revela.
“Nunca vira nenhuma até aqui, nem sequer naquele local, que conheço bem. É uma planta muito bonita e quando voltar a fazer uma exposição pretendo apresentar as fotos”. As suas e as do filho Afonso, provavelmente. “Sugiro que registe o local e que proponha a criação de uma micro-reserva”, sugere, por seu turno, Helena Freitas.
“A Câmara Municipal ou a Junta de Freguesia podem ajudar nisso, porque se foi vista uma é porque há ali uma população, ainda que a sua extensão só possa ser analisada quando florir, no Verão”, defende a bióloga, acentuando a importância das micro-reservas (pequenas áreas protegidas) na conservação de espécies raras e ameaçadas da flora.
Natureza fantástica
Descobertas e referenciadas pela primeira vez no séc. XVIII, as plantas carnívoras têm a curiosa capacidade de conseguirem nutrientes através de animais, propriedade tida como exclusiva do reino animal. Em todo o mundo, serão conhecidas cerca de 600 espécies, enquanto por cá os dados se perdem na ausência de procedimentos essenciais que permitam falar com rigor.
“Em Portugal dizemos que são raras, mas continua a faltar uma monitorização adequada das espécies”, condena Helena Freitas. A responsável pelo Jardim Botânico de Coimbra vai mesmo mais longe nas críticas, e fala numa “falha grave” do País, que, desaprova, “não está a cumprir a Convenção para a Biodiversidade”. A inclusão das espécies ameaçadas “num Livro Vermelho”, é defendida pela bióloga como “uma medida essencial na conservação da flora portuguesa”.
Ora, sem pressupostos ou indicadores, e no que às plantas carnívoras diz respeito, Helena Freitas prefere falar em “fortes probabilidades”, admitindo que “este tipo de plantas está em retrocesso em Portugal e as que existem estão em risco”. A especialista destaca o facto de as plantas carnívoras “viverem em habitats muito particulares”, o que também concorre para a sua extinção, e faz notar que o seu lado carnívoro advém da dificuldade que têm em conseguirem obter azoto.
“Para assegurarem a sua sobrevivência, necessitam de completar o seu metabolismo com os aminoácidos resultantes da digestão de pequenos animais, o que ocorre nas folhas em zonas glandulares”, explica. “Tiveram de sobreviver e foram-se especializando, adaptando-se ao que tinham à sua volta, num processo evolutivo que terá demorado milhões de anos. É notável!”, complementa a bióloga.
No caso da “Utricularia australis”, as dificuldades são ainda maiores já que é uma espécie que vive em meio aquático. “Têm o prejuízo adicional da poluição, que mais rapidamente lhes destrói o habitat, e tiveram de se especializar em capturar pequenos seres na água, como as larvas de animais ou crustáceos minúsculos… A Natureza é fantástica”, remata. Não é? | APC
A “Utricularia australis”
Existem algumas espécies terrestres, mas esta planta carnívora é, quase sempre, aquática ou semi-aquática. Pelo facto de viverem total ou parcialmente submersas, acabam por ser mais desconhecidas, já que são difíceis de observar, excepto na época de floração, entre Junho e Setembro, altura em que as suas flores amarelas se elevam à superfície da água.
Sem raízes, têm um caule muito fino e nas folhas encontram-se pequenas vesículas – os utrículos – que se constituem como armadilhas altamente especializadas com que capturam as suas presas aquáticas. Funcionando como pequenos sacos, com uma única abertura, os utrículos têm pêlos sensitivos que detectam a presa, aspirando-a em milésimos de segundo, absorvendo, assim, os nutrientes de que a planta precisa.



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