Está prestes a entrar em funcionamento a nova Unidade de Cuidados Continuados de Convalescença do Rovisco Pais, pioneira na Região e no País. Doentes a recuperarem de acidentes vasculares cerebrais (AVC) ou a convalescerem de cirurgias ao aparelho locomotor são os utentes desta Unidade, com capacidade para 60 pessoas.
O sonho surgiu em 2008 e a sua concretização começou no ano seguinte, com o inicio das obras, em Outubro de 2009. A nova Unidade de Cuidados Continuados de Convalescença do Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais (CMRRC – RP), na Tocha, está concluída, podendo começar a funcionar a qualquer momento. “Espero começar ainda em Fevereiro ou então no início de Março”, confirmou ao AuriNegra o Presidente do Conselho de Administração (CA) e Director Clínico do Centro, Manuel Teixeira Veríssimo.
As últimas semanas têm sido dedicadas a limpezas e à montagem de mobílias e de outros equipamentos, enquanto decorrem, em sintonia com a tutela, os trâmites normais com vista ao provimento do quadro de pessoal. Ao todo, são precisos 60 profissionais para a nova Unidade, desde médicos e enfermeiros a terapeutas (de várias áreas) e auxiliares. Igualmente com a tutela será definida, a muito breve trecho, a data do arranque e da inauguração oficial.
Instalada num dos pavilhões do Centro, totalmente rea-bilitado e requalificado, a nova Unidade, única a nível nacional, pretende ser a resposta “para doentes com características especiais”, como explica Manuel Teixeira Veríssimo, no caso, “doen-tes que tenham tido um AVC ou que tenham feito cirurgias ao aparelho locomotor”.
Sendo já uma referência na área da reabilitação, o Rovisco Pais pretende, no fundo, aproveitar todo o seu “know-how” para oferecer cuidados específicos nesta área, mas especialmente vocacionados para estas duas patologias, prevendo-se que cada utente fique internado cerca de um mês, o tempo estimado para a recuperação.
Reflexos
do “saber fazer”
“Existem cuidados continuados de convalescença, por exemplo, em Cantanhede, mas é uma oferta geral e não especializada. Aqui será [especializada] e, concretamente, para estes dois tipos de doenças, o que ainda não acontece no País”, reforça o Director Clínico.
O Presidente do CMRRC – RP, que é também o “pai do projecto”, sublinha “as condições especiais do Rovisco Pais, enquanto hospital de reabilitação” e o muito que tem para oferecer quando comparado, por exemplo, com os generalistas. “Contamos com a muita experiência de profissionais de alta especialização e com muitos conhecimentos nesta área”, insiste, satisfeito, o responsável.
Com capacidade para 60 camas – na soma das duas valências – o projecto custou quase quatro milhões de euros e servirá todos os utentes do Sistema Nacional de Saúde (SNS) que para aqui sejam encaminhados. “É um serviço completamente aberto, destinado a toda a população, em especial da Região Centro, e há, certamente, muitas pessoas que vão beneficiar dele”, prognostica Manuel Teixeira Veríssimo, ou não fosse cada vez maior o número de doentes afectados por AVC e por intervenções no aparelho locomotor.
A curta duração dos internamentos, que se estima à volta de um mês, é também acentuada por Manuel Teixeira Veríssimo, ele que há cerca de três anos gere a Instituição. Sendo certo que “cada caso é um caso” e que todos serão avaliados em função dos cuidados necessários, é igualmente garantido que esta Unidade permitirá retirar, mais cedo, os doentes dos hospitais dos agudos.
“Os cuidados continuados implicam um apoio mas não exigem um internamento num hospital altamente diferenciado, como acontece”, defende, numa altura em que muitas enfermarias continuam lotadas com doentes cuja situação não implicaria um internamento tão intenso nem prolongado. “Em vez de se estarem a consumir recursos muito mais caros e até a ocupar lugares precisos para outros, esses doentes, que necessitam sobretudo de apoio enquanto recuperam, terão aqui uma resposta”.
Sempre a crescer
“Nem todos serão recuperados num mês, mas, feita a avaliação, os que não puderem ter alta clínica serão devidamente encaminhados, por exemplo, para o centro diferenciado do Centro”, prevê o médico e gestor. Desde finais de 2007 à frente do Rovisco Pais, Manuel Teixeira Veríssimo tem vindo, paulatinamente, a aumentar a capacidade de resposta da Instituição, bem como a diversificar o tipo de serviços diferenciados que o Centro disponibiliza desde 2002.
Com um conjunto de respostas nas áreas da Saúde, do Ensino e da Investigação, o CMRRC – RP tem como missão primordial responder às necessidades de cuidados de Medicina Física e de Reabilitação nos distritos da Região Centro, recebendo, no entanto, doentes de todo o País.
Só na área do internamento, o Rovisco Pais disponibiliza serviços de reabilitação geral, de vértebro-medulares e de ex-hansenianos, numa capacidade de internamento de 100 camas. Dispõe ainda de um regime de ambulatório, com consultas externas e consequentes tratamentos em múltiplas áreas, não deixando de investir activamente na reintegração das pessoas com deficiência.
No País, há três centros deste tipo, mas o da Tocha é o único que pertence ao SNS. Está visto que uma das apostas da equipa liderada por Manuel Teixeira Veríssimo tem sido aumentar as ofertas, nos tratamentos e serviços, até porque o médico acredita que “aumentando a escala, aumenta a rentabilidade e a auto-sustentabilidade”. Por outro lado, com esta nova Unidade, diz, “conseguiu–se recuperar um espaço muito interessante, um edifício em ruínas e que estava desaproveitado”.
Por estes dias, o médico assume o seu orgulho na concretização de mais um sonho, definindo o projecto como “um exemplo e um modelo do que devem ser cuidados continuados com qualidade”. Admite que “venham a surgir réplicas da Unidade no País”, sobretudo porque sustenta que “faz sentido uma cada vez maior especialização no contexto dos cuidados continuados”.
Uma linha de orientação que continua a ser seguida pelo CMRRC, ou não quisesse o seu Presidente fazer do Rovisco Pais uma espécie de “‘campus’ da Saúde”. Um Centro de Estágios para Desporto Adaptado de referência, a criação de um lar residencial para jovens deficientes motores e uma oficina de próteses são alguns dos projectos na calha para uma Instituição que já foi a maior leprosaria de Portugal e uma das maiores da Europa e que agora se destaca na área da reabilitação.
“É um complexo muito complexo…”. O trocadilho, auspicioso, é de Manuel Teixeira Veríssimo, que confessa ter uma mão cheia de sonhos ainda para concretizar. | Ana Paula Cardoso
Contra
o “princípio do fim”
A ausência de respostas, nas áreas para que surge vocacionada esta nova Unidade, é tanto mais premente quanto se tem em linha de conta o envelhecimento, crescente, da nossa sociedade. Para além do aumento de factores de risco, como a hipertensão, a diabetes ou a obesidade, “a população envelhece cada vez mais e os acidentes vasculares cerebrais (AVC) são mais frequentes à medida que envelhecemos”, constata Manuel Teixeira Veríssimo, especialista em Medicina Interna.
E o mesmo acontece com as intervenções ao aparelho locomotor: “Muitas pessoas, especialmente idosas, são intervencionadas por causa de fracturas do colo do fémur”. Em ambos os casos, a palavra de ordem que se impõe é sempre “reabilitação”. Adequada e cabal, de preferência. O que, normalmente, não acontece, como confirma o especialista.
“As intervenções decorrem em hospitais com serviços de excelência mas, depois disso, não há respostas de reabilitação e essas pessoas, sendo idosas, nunca mais voltam andar, com todas as complicações que daí advêm (infecções, úlceras, etc)”, ilustra, a propósito das cirurgias ao colo do fémur. “Muitas vezes, é o princípio do fim, mas não tem de ser assim”, garante o médico, que nos últimos anos tem acompanhado intensamente a área da geriatria.
“Com esta Unidade podemos melhorar significativamente a condição de vida dos nossos idosos”, frisa. “Devemos ter pessoas idosas mas com qualidade de vida e este projecto é para isso”. E também para os doentes que recuperam de um AVC. “Não temos, no País, uma resposta de reabilitação para conseguir que quem teve um acidente vascular cerebral possa usufruir do resto que lhe ficou, das capacidades que sobraram”, critica.
Mais uma vez, contraria a ideia de que seja incontornavelmente o fim: “Quando se tem um AVC há uma parte do cérebro que foi danificada e que não mais vai ser recuperada. Mas há muitas outras funcionalidades que ficam e o mais importante é tentar aproveitá-las ao máximo. Se não forem estimuladas nem treinadas, não poderão ser usadas, e é nessa reabilitação que o País e a Região Centro estão muito carentes”. Agora, certamente, um pouco menos…



1 comentário
Comments feed for this article
Março 21, 2012 às 1:04
Mário Correia
Boa noite.
Tenho a minha esposa actualmente internada neste hospital. Veio dos HUC depois de ter sofrido uma infecção cerebral provocada por uma sinusite a qual lhe originou uma paralisação lateral direita dos membros e fala. Está há apenas duas semanas neste hospital e já vi melhorias significativas e visiveis em tão pouco tempo e espero que assim continue.
Quero essencialmente salientar que estou muito satisfeito com o trabalho desenvolvido pelos profissionais que lá trabalham sendo que são de uma simpatia e profissionalismo que, a meu ver e até agora, foram inexcediveis.
Parabéns e continuem o bom trabalho.
Vocês são um exemplo de perseverança e dedicação.
O meu mais sincero Obrigado!