“Eram outros tempos; o carteiro era tudo para as pessoas”. Olhar vivo, postura e voz irrepreensíveis desafiam os 83 anos de Fernando Silva. “Na terra ainda me chamam ‘senhor carteiro’”. Deixou de distribuir a correspondência há já mais de 20 anos, mas em Febres ainda é visto como o “mensageiro do povo”.

“Éramos o ‘deus do céu’ que aparecia na estrada, mais desejados do que a Guarda Republicana!”. A constatação surge risonha. A boa disposição marca, aliás, todo o discurso do antigo carteiro. Largou o ofício há mais de duas décadas, é certo, mas a cortesia de quem passou quase quarenta anos de porta em porta, distribuindo muito mais que cartas, entranhou-se-lhe no feitio. “Antigamente tínhamos regras para lidar com o povo. Ter respeito por todos e ajudar sem olhar a quem eram as nossas orientações”, recorda.

Fernando Silva entrou para os Correios tinha 24 anos. Uma grande conquista depois de anos com o coração dividido entre dois amores, a GNR e os CTT. “Concorri para os dois, iria para onde entrasse primeiro. Mas, se pudesse escolher, seriam os Correios”. Não foi preciso, a vida optou por ele, para sua felicidade. “Tive sorte”.Talvez porque ela protege os audazes e, desde tenra idade, Fernando Silva se habituara a ser arrojado.

“Tinha 12 anos e ia a Cantanhede, sozinho, num carro de cavalos, buscar mercadorias e tabaco. A carrada era tal que vinha lá no alto, empoleirado nos cigarros”. Era ainda catraio e já trabalhava, feito gente grande na “Casa Frota”, a maior loja de comércio de Febres e dos arredores. “Era ali, naquela casa onde hoje está a pastelaria ‘Charlot’”.

 

Mágoas que ficam

Toda a vida e memórias de Fernando se aconchegaram, aliás, muito perto do coração da vila. Vive ali ao lado, na rua Professor Doutor Fernando Serra Oliveira, enquanto, no seu tempo, a estação de Correios era onde está hoje a sede da Junta de Freguesia. “Nunca saí daqui a não ser para ir à tropa”. Cumpriu os 18 meses do serviço militar obrigatório em Mafra, “era então Ministro da Guerra o Santos Costa”.

Dono de uma memória invejável, Fernando Silva evidencia-se pelos detalhes. As mãos acompanham-lhe a retórica, em gestos delicados. Anos e anos a ser mensageiro, terá assimilado a suprema importância do modo como entrega a mensagem e não descura os pormenores, mesmo que o registo seja oral. Descansa as mãos a cada pergunta e quando responde com elas é para enfatizar sentimentos. “Na tropa tive um dos dias mais tristes, que nunca esqueço”.

Se não lhe “falha a memória” – apraz-lhe ser rigoroso –, “foi a 15 de Agosto de 1948”. Na terra, era inaugurada a nova (e actual) Igreja de Febres; na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, o recruta de Febres jurava bandeira. “Toda a gente tinha lá todo o mundo e o Fernando não tinha ninguém, por causa da festa”. A solenidade religiosa privara-o da presença dos familiares. “Fiquei muito triste, pois claro”.

Do desgosto de jovem recua para as mágoas de menino, nesse tempo em que, petiz, trabalhava já mais de 16 horas por dia. Não foram, contudo, a dureza ou a duração da jornada a deixar marcas, foi antes a tristeza de não poder estar nos bailes que, naquele tempo, animavam a noite de Febres, no 1.º andar da “Casa Frota”. Pelos vistos, estabelecimento animado naquela época, com serões até de madrugada.

“O baile era lá por cima, até às duas, três da manhã. Eu trabalhava no comércio desde as 08h00 até ao jantar e depois, à noite, no café, até os bailaricos terminarem. Também gostava de ter podido lá andar, mas estava sempre na labuta. E tenho pena”. A luz de uma tarde de Inverno ilumina a conversa mas as lentes “fotogray” escurecem, escondendo o olhar de Fernando (que antes vislumbráramos perscrutador) por detrás dos óculos.

“Foi sempre assim até ir para a tropa, depois vim e meti-me nos Correios e foi outra desgraça”, suspira. Por desgraça entenda-se não poder ir aos bailaricos no 1.º andar da “Casa Frota”. Já as razões porque considera tal impedimento tamanho infortúnio não as revela, habituado que está a guardar segredos…

 

Quilómetros a passo

“Tenho segredos que nunca revelei e que jamais irei divulgar!”, afiança. Ficaram-lhes dos 36 anos de ofício. Os que não chegou a entregar, guarda-os a todo o preço. Entrou para os Correios nos anos 50 do século passado e hoje, quando são poucas e cada vez menos as cartas manuscritas que resistem à “era digital”, Fernando Silva vive de memórias, somadas em voltas e giros.

Os carteiros à moda antiga, como ele foi, já não existem. Tem pena por isso e, sobretudo, saudades. “Adorei. Se voltasse atrás não escolhia outra vida”. Houve, claro, dias bons e maus. “Muitas vezes debaixo de frio e neve, mas tinha de ser”. Desde as sete ou oito da manhã até o dia se perder na noite, palmilhava, diariamente, “cerca de 30 quilómetros”. Sabe-o e volta a ser rigoroso no cálculo: “Muitas vezes, vinham os senhores de Coimbra medir, com os pedómetros [instrumento para medir os passos], as distâncias que fazíamos”.

Os percursos dos vários giros de Fernando – sempre na zona de Febres – eram feitos a pé, apesar de o carteiro recorrer à bicicleta sempre que podia. “Nunca andei de motorizada na distribuição, era a pé e mais tarde comecei a ir de bicicleta”. Certamente nos dias em que os “senhores do pedómetro” se dedicavam a outros passos, noutras paragens…

“De manhã cedo, sete e tal, chegavam as malas de Coimbra com a correspondência. Distribuía-se o correio e cada um tomava o seu giro”, pormenoriza. Às costas, 30 ou 40 quilos de cartas, na mão a corneta dourada, no corpo o fato a rigor, disponibilizado pelos CTT e obrigatório a cada jornada. “Era uma farda de cotim [tecido forte de algodão ou de linho], castanha, que tanto dava para o Verão como para o Inverno”.

O castanho foi, mais tarde, substituído pelo preto do fato (calça e casaco) e o azul da camisa onde caía a gravata preta, a condizer. “Tínhamos de andar sempre afinadinhos”, realça. Quis Fernando acompanhar o progresso da indumentária pelo que também a corneta – que usava para se anunciar – era, pontualmente, substituída por uma buzina, de borracha laranja, provavelmente não tão primorosa como a antecessora mas igualmente eficaz e a poupar-lhe algum fôlego que havia de dar jeito para a volta.

 

Aerogramas,

cartas do céu

“Por dia, entregava 300 ou 400 cartas, por mês seriam milhares. Era muito papel”. E se já era muito, muito mais viria a ser com o início da Guerra do Ultramar. “Ui, foi muito complicado”, evoca. “O exército arranjou os aerogramas, num papel muito fininho, que eram de borla. Por dia, eram sacadas e sacadas, tantos que entreguei!”.

Refere-se àquele que foi um dos maiores “elos de ligação” (muitas vezes o único) entre os militares destacados para as ex-colónias, distantes e perigosas, e aqueles que os soldados por cá deixavam, em território nacional. Sem necessidade de sobrescrito, os aerogramas eram dobrados sobre si próprios, guardando sonhos e medos, e transportados por via aérea, “entre as províncias ultramarinas e a metrópole”.

Amarelos e azuis (con-soan-te chegassem ou fossem), deixaram Fernando Silva sem mãos a medir durante os anos que durou o conflito. “Medi a Guerra pelos aerogramas que entreguei”. Viu muitas mães chorarem, muitas raparigas viúvas antes mesmo de casarem. Viu também sorrisos e alegria. “Tudo nos passava pelas mãos, as mensagens boas e as más. Eu tinha de entregar tudo sempre com a mesma cara: a sorrir”.

Foi muitas vezes o ombro amigo e um confidente, vivendo, por vezes, ao ritmo das notícias que entregava. Antes e depois da Guerra Colonial. “Lágrimas faziam-me sentir triste, um sorriso deixava-me feliz”. No fundo, insiste, “ri com eles e chorei com eles, todos os dias”. E foi assim durante 36 anos, já que na altura em que se reformou, garante, “ainda havia muita correspondência, hoje é que não”.

Exerceu num tempo em que muitas pessoas ainda não sabiam ler nem escrever, por isso admite – e apenas porque a reforma leva já mais de 20 anos – ter transgredido algumas vezes. “Os carteiros não podiam ler a correspondência”, ressalva, mas o sentimento falou mais alto, quantas vezes. “Eu lia, quando me pediam muito. E também escrevi algumas”. Partilhou namoros, segredos e confidências. “Ficam comigo”, reforça.

Aos 83 anos, Fernando Silva ocupa agora os dias na pescaria à linha, algures entre Mira e a Figueira, ou na pequena horta de que cuida no quintal. “Há sempre umas ervinhas para arrancar”. A vida não pára, apenas segue noutro compasso, longe dos giros de outrora. Olha para trás, volta a assumir a saudade da agitação e das voltas daquele tempo. E fica-lhe a certeza que nem uma carta ficou por entregar.| Ana Paula Cardoso


 

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