Não tem pretensões de chegar a Primeiro-Ministro nem de ser eleito Secretário-Geral do PS, confidencia. Mas porque “mais do que o mensageiro, importa a mensagem”, acredita Cândido Ferreira, o médico e escritor natural de Febres vai candidatar-se à liderança do partido, nas directas do próximo mês.

“Quero que este País se altere e que a política se torne decente!”, dispara, sem hesitações, o médico, em declarações ao AuriNegra e a propósito da sua candidatura à liderança do Partido Socialista (PS). Cândido Ferreira, de 61 anos, é natural de Febres (Cantanhede) e é-lhe (re)conhecida uma intensa actividade política, que começou na oposição ao regime fascista e lhe valeu mesmo a prisão antes do 25 de Abril.

Médico de profissão, é especialista em nefrologia e responsável por um dos maiores centros privados de hemo-diá-lise do País, em Leiria, onde se estabeleceu há quase três décadas. Foi, entre outros, Presidente da Federação Distrital de Leiria do PS, Director de Campanha de Jorge Sampaio e membro da Comissão Nacional daquele Partido (até 2004).

Antes disso, chegou a candidatar-se à liderança da autarquia leiriense, corria o ano de 1989, conseguindo triplicar o número de votos no PS. Agora, na véspera dos 37 anos da Revolução dos Cravos e depois de sempre ter optado por não enveredar por uma carreira política, Cândido Ferreira, que é também escritor, decidiu candidatar-se à liderança do PS e ir a votos, nas eleições directas que estão marcadas para os dias 25 e 26 de Março.

Empurrado por Febres

A candidatura foi oficializada no passado dia 25 de Janeiro e já no início desta semana (na segunda-feira, dia 31) Cândido Ferreira entregou o seu manifesto eleitoral a Almeida Santos, Presidente do PS, que recebeu o candidato, acompanhado de outros militantes, na sede do Partido, no Largo do Rato, em Lisboa. O mesmo local onde, aliás, semanas antes e já no contexto da sua decisão (de se candidatar), fora “impedido de entrar por colegas do aparelho do partido”, segundo disse ao AuriNegra, momentos depois do encontro com o histórico socialista.

“É preciso que este processo decorra com elevação, que se evitem ataques pessoais e que haja respeito pela vontade dos militantes, mesmo por aqueles que querem mudar o actual estado de coisas”, considerou, numa alusão quer à “barricada” na sede do partido, em Dezembro passado, quer às eleições para a Federação conimbricense do PS, disputadas por Mário Ruivo e Victor Baptista, em Outubro de 2010, e marcadas pela polémica (e cujo resultado o vencido – Victor Baptista, por dois votos – impugnou, sem que houvesse, no entanto, repetição do sufrágio como decidiu o Conselho Nacional de Jurisdição).

“Não queremos deitar o Governo abaixo nem esmagar Sócrates mas queremos que este partido olhe menos para a barriga dos políticos e mais para os portugueses”, explica. Fala na primeira pessoa do plural porque com ele estão outros militantes de base, pessoas que se constituíram num grupo de reflexão denominado “Portugal – Sim”. Entre gargalhadas determinadas, o médico diz que “a culpa [da candidatura] é dos amigos de Febres”. Da zona de Cantanhede, e ao lado do candidato, estão nomes como Rui Crisóstomo e Cidalino Madaleno.

Regenerar a política

A tendência “Portugal – Sim” já elaborou um manifesto, com Cândido Ferreira como primeiro subscritor, intitulado “Por um futuro decente, num Portugal novo”, documento que, aliás, Cândido Ferreira pretende apresentar, como moção, no congresso dos socialistas, marcado para 8, 9 e 10 de Abril. “Não podem continuar as reformas milionárias enquanto cortam nos abonos de família”, reclamou, sintetizando, assim, as principais linhas de orientação política do grupo que encabeça.

“Não pode continuar a haver uma ‘catrefada’ de boys e de assessores enquanto se cortam as isenções de propinas e as bolsas aos estudantes. Por cá, a política vai dar sempre ao mesmo, está refém de uma teia de interesses que só acaba quando o Estado emagrecer”, considerou. E como mudar as coisas? “Isto muda quando acabarem os ‘tachos’”, responde-nos.

Por isso, “a diminuição do número de deputados, o fim dos governos civis, a fusão das empresas públicas que dão prejuízo e a integração das empresas municipais nas autarquias” são defendidas por Cândido Ferreira, que considera que “a democracia engordou demais e agora manda os cidadãos apertarem o cinto”. E insiste: “É preciso que a política se torne decente. O mal de que enferma o PS afecta todos os partidos”.

Chega mesmo às directas, em Março? Ri-se ruidosamente, sabe que não tem alternativa: “Já me chamaram D. Quixote de La Gândara!”. Refere-se ao epíteto atribuído pelo conterrâneo febreense, o médico e também escritor Fernando Santos. “Há quem perca ganhando e quem ganhe perdendo, sabe?”.

Cândido Ferreira quer, acima de tudo, lançar o debate para uma mudança de políticas e fá-lo, diz, opondo-se a José Sócrates, que já anunciou a sua recandidatura ao cargo. “Posso perder, mas sairei honrado”. | APC


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