Blog AuriNegra

Querer bem sem olhar a quem

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Albino Jorge Maricato Valente nasceu a 28 de Maio de 1919 na Caniceira, freguesia de Tocha, concelho de Cantanhede. Veio ao mundo em casa, pelas mãos de uma parteira, numa época em que tudo era diferente. “Hoje vai tudo nascer a Coimbra, quando não nascem a caminho”. Guardou ovelhas e vacas bravas, trabalhou na lavoura perto de casa mas também longe, na margem sul do Tejo. Conheceu a Praia da Tocha no tempo em que os palheiros sarapintavam a areia e de há trinta anos para cá que se dedica ao fabrico artesanal de abanos.
“Ti” Albino dos abanos não é artesão desde que se entende mas aprendeu a arte bem cedo. Fez de tudo um pouco antes de descobrir no fabrico de abanos uma paixão e um entretém, já lá vão mais de três décadas. Das penas de gaivota, matéria-prima que manipula habilmente, às da vida, que o destino lhe atirou pelo caminho e que teimam em lhe apertar o coração. Hoje, vai combatendo a solidão e o frio de uma casa vazia com a companhia dos amigos, no café, e os passeios de bicicleta por terras da Gândara.
Albino Maricato tem uma daquelas posturas simples, naturais, que nos desarmam. Vai avisando que aos (quase) 92 a memória já não é o que era: “Já são muitos anos, há coisas que se esquecem” diz, tamborilando a fronte, quiçá pretendendo acordar as memórias que pensa já ter perdido. Em jeito de teste rumamos à sua infância, ali mesmo, na Caniceira, a escassos quilómetros da Tocha. “Fui aqui criado de pequeno, e de pequeno fui à escola”. Não era, no entanto, na escola que estava o seu futuro e já então havia que trabalhar: “Guardei ovelhas e depois vacas bravas, daquelas das touradas. O meu pai tinha algumas e outras havia que vinham do campo, dali da zona de Tentúgal e Montemor, por aí”.
Ajudava a família como podia, à semelhança de outras crianças, numa época em que a vida era difícil e o pouco que se conseguia juntar era arrancado a ferros à custa de muito trabalho e suor. Depois das vacas havia que cuidar da terra e também Albino arregaçou as mangas: “Era preciso fazer a sementeira, cuidar das areias. Hoje, as areias são nossas mas o fruto pertence a outros… o terreno é da freguesia mas as árvores não. Foi um acordo que foi feito há muitos anos com a autoridade florestal”.
Estávamos nos anos 30, o regime ditatorial conhecido por Estado Novo havia sido instituído em Portugal há um punhado de anos. Uma das obrigações dos jovens rapazes de então era servir o País, cumprindo o serviço militar. Albino Maricato e outros rapazes da terra foram mobilizados e forçados a partir, cada um enfrentando o seu próprio destino: “Fartei-me de ‘passear’! Daqui fui para Mafra, de lá voltei cá para cima, para Aveiro, depois rumo à Figueira da Foz. Um mesito que estive em Lisboa e regressei à Figueira, onde me aguentei um ano e tal. Depois fui para os Açores, onde estive 28 meses. Fui cabo, chefe superior de um paiol de pólvora e materiais de guerra e depois no quartel fui cabo de refeitório. Andei quatro anos menos 15 dias nessa vida”. Parece que, afinal, a memória do “Ti” Albino está bem e recomenda-se.

Cavar em terra alheia
Regressou à Caniceira com 25 anos, solteiro e viajado, em suma, um bom partido. “Voltei para casa e tentei casar-me. Com 25 anos já não era nenhum menino e tinha que governar a minha vida”, graceja. “Depois de me casar fui para os Serviços Florestais onde estive uns seis anos. Era capataz, estava encarregado de uma turma de mulheres ou homens”. Por essa altura, uma das maiores preocupações dos Serviços era a arborização das dunas do litoral. Nas areias junto à Praia da Tocha o trabalho ia sendo feito debaixo do olhar atento de Albino Maricato.
“Primeiro vinha uma junta de bois carregada de mato para as dunas, para tapar a areia com montinhos que eram colocados lado a lado. Depois, um riscador traçava uma linha na areia, com o pé, e vinha a seguir a junta outra vez, com um arado, abrir o rego. No fim de aberto, havia uma mulher que tinha as sementes no avental. Mato, tojo, austrália, mimosa, pinho manso e pinho bravo eram deitados no rego, depois era tudo coberto para o vento não as levar”, explica, ao mesmo tempo que exemplifica através de gestos e vai recriando a cena com os dedos riscando sulcos invisíveis sobre o tampo da mesa.
O desafio seguinte também implicava lavrar a terra mas o cenário era bem distinto. As migrações sazonais para as terras do vale do Tejo eram frequentes, sobretudo para os pescadores, mas havia também muita procura de mãos para o trabalho agrícola. “Ganhava-se mais do que aqui e a gente lá ia, trabalhar de sol a sol. Costa da Caparica, Cova da Piedade, Trafaria, Cruz de Pau, todas essas terras corri eu, de enxada na mão. Aqui ganhava dez ou 15 escudos e ia para lá ganhar 20. Via os outros a fazer aos 800 escudos por mês e eu olhe… fui para essas quintas onde os patrões pagavam melhor”.
O recrutamento, esse, era feito ao estilo dos filmes americanos, daqueles em que se juntavam dezenas de trabalhadores numa praça à espera que viesse alguém em busca de mão-de-obra, procura que por norma era sempre muito inferior à oferta. “Quando não tínhamos patrão íamos à praça, no Monte de Caparica, ao sábado e ao domingo. Eles apareciam e diziam quantos precisavam, dois, três, meia dúzia, e lá ia eu. Encontrava lá gente daqui, pessoal que ia para as quintas, como eu, ou então que iam para os ranchos, aos 20 e 30 de cada vez”.

“Hoje é tudo rico”
Era muito o trabalho mas também se faziam pausas e, por altura do S. João da Tocha, já todos os migrantes queriam estar de volta à terra. “Trabalhava-se de Janeiro ao S. João. Todos gostávamos de vir às festas por isso queríamos estar cá no dia 24 de Junho. Se não fosse o S. João da Tocha era o S. Pedro no Palheirão”. Quando tentamos perceber o motivo do fascínio que esses arraiais exerciam sobre a gente da Tocha e arredores, somos brindados com um sorriso maroto nos lábios do artesão: “Não havia lá nada de especial no S. João… Nós vínhamos para a família, passávamos muitos meses sem ver ninguém”.
A diversão das festas populares era afinal a recompensa, merecida, por dias a fio de trabalho árduo longe de casa e dos seus: “Era a manta de um por baixo, a de outro por cima e lá se dormia qualquer coisa. A cabeceira, muitas vezes, era um fardo de palha. Era muito difícil mas acredite que hoje ainda é pior. Antes havia respeito. Hoje é tudo rico, não vejo ninguém passar as misérias daquele tempo. Íamos cavar para Lemede e Ourentã e íamos a pé! Hoje, para ir daqui ali, vai-se de carro, pois então”, ironiza o nonagenário, o tom de voz uns decibéis acima do normal.
Caminhadas de quilómetros feitas ainda antes do sol raiar, rumo às aldeias e vilas em que havia precisão de trabalhadores, ou já depois dele se ter posto, no regresso à Caniceira. Caminhadas que, ainda assim, não fazem esmorecer a convicção de Albino Maricato de que naquele tempo é que valia a pena viver: “Era uma vida muito sadia, não tínhamos as distracções que hoje há. Era trabalhar de manhã à noite e todos se davam bem uns com os outros. Bocaditos que houvesse eram passados a comer milho e a beber um copito na casa de algum amigo. Hoje, na vossa mocidade, não há aquela lealdade que havia. Quando era preciso ajuda vinha sempre alguém”.

Uma outra Praia
Depois das aventuras além-Tejo, segue-se a praia da Tocha, mas não a que hoje conhecemos. Uma outra, de há umas décadas, mais deserta e selvagem, a dos pescadores, dos palheiros e dos verões pouco diferentes dos invernos. “A minha mulher era doente e eu mandei fazer uma casa na Praia. Depois fomos para lá mas e habituá-la? Só lá havia guardas-fiscais, não havia mais ninguém. Eu tinha o meu entretém, ia apanhando as penas que a maré trazia. Depois lá fez amizade com as mulheres de uns dos guardas e foi-se entretendo”.
O Verão das filas de trânsito e do areal a abarrotar de gente, de perto e de longe, é coisa com pouco tempo. Há três ou quatro décadas eram outros os veraneantes: “Era sobretudo o pessoal da pesca, pois nessa altura é que o mar estava bom para eles. Depois lá para Outubro iam grupos de agricultores, ficavam oito ou quinze dias, lá se matava o porquito, levavam umas febras e eram as férias do pessoal”.
A casa de férias por excelência, e uma vez que o betão não era para todos, era o típico palheiro, construção que hoje escasseia e ganhou honras de atracção turística: “Os palheiros eram de madeira, com uma lareira cercada com telhas e areia onde se fazia a comida. Casa de banho não havia”. As acomodações não eram de luxo mas enchiam as medidas de todos quantos passavam os restantes dias do ano agarrados à terra e à enxada. Eram as “férias” possíveis, havia que aproveitá-las.

Penas que ficam
Aprendeu com o pai, ainda miúdo, a arte dos abanos, mas só muitos anos mais tarde viria a fazer seu esse ofício. Foi há perto de quatro décadas que “Ti” Albino Maricato começou a dar os primeiros passos “oficiais” na arte que o transformaria em “Ti” Albino dos abanos. “Via o meu pai fazer e ia aprendendo, ia arriscando por minha conta. Anos e anos em que nunca fiz nada daquilo mas há uns trinta e muitos comecei a fazer na brincadeira”.
A brincadeira passou a caso sério e a fama de um dos poucos fazedores de abanos da Região, naquele tempo, foi-se espalhando. É, por isso, com evidente orgulho que recorda quando, já lá vão mais de 20 anos, foi convidado para participar na primeira edição daquele que é o maior evento local e (por que não?) um dos maiores nacionais no seu estilo: “Fui convidado para ir mostrar para a Expofacic logo na primeira vez que houve, há 20 anos. Hoje, do grupo de cinco artesãos que lá estivemos e a quem o Dr. Albano Pais de Sousa ofereceu umas medalhas de bronze, devem ser poucos os que ainda cá andam. Se calhar até sou mesmo o único”.
Pequenos, grandes e médios, por três, quatro e cinco euros. Primeiro faz-se o cabo em madeira, pinho de Flandres, depois constrói-se a restante estrutura e só no final é que entram as penas: “De gaivina, gaivota e alcatraz. São pássaros que rondam aqui a beira e as penas vêm na maré, apanho-as na areia. De Outubro a Janeiro é quando se apanha e tem que ser na maré baixa, se não o mar trá-las e leva-as de volta. As da gaivina é que aparecem mais no mês de Agosto”. Já quanto ao destino dos abanos que faz, a “exportação” leva vantagem: “Ainda hoje vão muitos para o estrangeiro, bem mais do que os que se vendem para os de cá”.
Ao olhar para trás, Albino Maricato recorda como em tantos anos de vida, depois de alguns cargos em que tinha que mandar esperando que os outros quisessem obedecer, nunca se viu confrontado com situações de disputa ou violência: “Nunca dei nem levei um estalo em toda a minha vida e também nunca tive que me impor a ninguém. Ou eu os convencia, ou eram eles que me davam a volta!”.
Das penas dos abanos às outras, da vida, que no caso do “Ti” Albino foram severas e teimam em magoar: “Com a diferença de dois meses perdi o meu neto, o único a quem tinha ensinado a minha arte, e depois a mãe dele, a minha filha”. Mais que as vidas que o cancro lhe ceifou, dói-lhe a solidão e a aleatoriedade da doença que bateu duas vezes à mesma porta: “Sempre fui feliz, mas depois veio aquele azar…”, pela primeira vez ao longo da conversa, as palavras não chegam e aquilo que não diz mas vai sentindo é por demais evidente nos seus olhos, cristalinos e agora húmidos. “A vida tem de continuar”. Hoje, passeios de bicicleta e a pé e os momentos de convívio “com este e com aquele” vão ajudando a fazer passar os dias mais difíceis, aqueles em que, como confessa, se vai sentindo cada vez mais só.| Filipa do Carmo


 

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