Não há memória de tempos assim. Nunca, como agora, houve tantos assaltos a ourivesarias nem com a violência que actualmente, quase sempre, os caracteriza. Nunca, como agora, foi tão fácil escoar ouro roubado, com este metal a atingir valores recorde. O sector da ourivesaria enfrenta o período mais dramático de sempre e há mesmo quem vaticine que o “ourives tradicional da Gândara vai desaparecer”.
“O panorama é negro. O ‘nosso’ ourives, que trabalhava de casa aberta ou com negócio estabelecido, vai acabar”. O lamento, em jeito de presságio, surge, mais uma vez, do Presidente da Associação Nacional de Ourives e Relojoeiros (ANOR), António Santos. “A forma como operavam, a maneira de trabalhar e as montras que faziam, não podem continuar”. O sector da ourivesaria e do comércio de ouro tem vindo a atravessar uma onda galopante de assaltos, deixando os profissionais do ramo num beco sem saída.
“Os (nossos) associados estão absolutamente desanimados, muitos vão abandonar a profissão”, garante. Criada em 2007 com o propósito de preservar o património, as memórias e as tradições da ourivesaria e relojoaria, a ANOR tem sede em Febres, vila de onde é originário um número significativo de ourives e relojoeiros espalhados pelo País e pelo mundo. Por cá, de norte a sul, os receios e temores dos que um dia partiram da Gândara para se estabelecerem num qualquer ponto do País chegam em surdina ao dirigente da Associação.
“Temos assaltos diariamente!”. O desalento alinha o discurso do Presidente, filho de ourives mas empresário noutro ramo que não o do ouro. “Muitos dos assaltos não vêm a lume nem são conhecidos porque as pessoas preferem não fazer queixa ou pedem às autoridades que não divulguem, mas temos assaltos todos, todos os dias”. O período que o sector atravessa é, por isso, já rotulado como o mais dramático de sempre.
Assaltos diários
António Santos admite os dados da Associação de Ourivesarias e Relojoaria de Portugal (AORP), congénere da ANOR, que no final do ano revelavam 53 assaltos a ourivesarias, entre 1 de Novembro e 6 de Dezembro. Contas feitas, chega-se a uma média de praticamente dois assaltos por dia. “O número de assaltos que houve num mês é o que há uns anos era registado num largo período de tempo, durante dois ou três anos”, compara.
No final de 2010, e em vésperas de Natal – altura em que as lojas reforçam stocks e compõem ainda mais as montras –, registou-se um aumento do número de ocorrências relativas a assaltos de ouro, mas a quadra festiva já lá vai e em 2011 mantém-se a vaga de ataques. Os últimos números, avançados esta semana pelo Correio da Manhã, apontam para “três assaltos a cada dois dias”, sendo os alvos “as ourivesarias, as casas de compra e venda de ouro usado e os ourives que vendem em feiras, assaltados à porta de casa”.
Crimes na maioria das vezes violentos, quase sempre com recurso a armas de fogo, o que deixa a Polícia Judiciária (PJ) – a quem cabe a condução das investigações – sem mãos a medir. Questionada sobre os números oficiais deste tipo de ocorrência, a Direcção Nacional da PJ remeteu eventuais esclarecimentos para o Secretário-Geral do Sistema de Segurança Interna (SG – SSI) que, contactado pelo AuriNegra, não nos apresentou quaisquer dados até ao fecho desta edição.
Já para a ANOR, com cerca de 100 sócios e cujo trabalho do dirigente é norteado pelo “amor à camisola”, as “estatísticas” resultam de um processo mais empírico: “Todos os dias falo com ourives da Gândara espalhados pelo País”. Uma voz amiga do outro lado da linha, quando os dias são de desconfiança máxima. Chega assim a números que poderão pecar no rigor mas sobram em representatividade: “De Julho de 2010 ao início de Janeiro houve 44 assaltos, só a ourives oriundos de Cantanhede e de Mira”.
Um número que em apenas dois dias aumentou para 47, no caso, entre 3 e 5 de Janeiro, com assaltos em Arraiolos (Alentejo), em Coimbra e na Pampilhosa do Botão (Mealhada). “Dois ourives eram da Pedreira e um de Febres”, revela. E se na cidade de Évora e na dos estudantes os assaltos foram perpetrados durante a madrugada, através de arrombamento, pior sorte teve o proprietário da loja da Pampilhosa.
Gangs violentos e organizados
Munidos de caçadeiras de canos serrados, dois encapuzados entraram na ourivesaria, roubando quase todo o recheio da ourivesaria, localizada no centro da localidade, ameaçando e agredindo, com uma arma de fogo, o proprietário, que teve mesmo de receber tratamento hospitalar. Enquanto isso, um terceiro elemento aguardava na rua, numa viatura de alta cilindrada. Consumado o assalto – as montras ficaram estilhaçadas e vazias – encetaram a fuga, numa manobra rápida.
“Os ourives estão amedrontados, não é só o prejuízo mas também a violência crescente dos assaltos”, testemunha António Santos. Conhece e é confidente de vários casos em que as vítimas nunca mais tiveram descanso. “Perdem tudo e vivem o resto da vida em sobressalto”.
Ao compasso do aumento desenfreado das ocorrências relatam-se “modi operandi” também cada vez mais organizados, executados por ladrões proporcionalmente mais violentos, que actuam muitas vezes armados, vestidos de negro, de cara tapada e com gorros e luvas, apetrechos que dificultam um eventual reconhecimento das autoridades, ludibriando as câmaras de videovigilância, quando as há, e evitando deixar vestígios, como impressões digitais.
Seja nas lojas mais pequenas ou nas grandes cidades, nos estabelecimentos mais vigiados ou nos centros menos frequentados, o cintilar amarelo do metal precioso parece atrair, sem grandes diferenças, o cada vez maior destemor dos assaltantes. Um fenómeno que nada, nem ninguém, parece conseguir travar, malgrado os esforços das autoridades. “A PJ é espectacular, o problema é a fase seguinte”, diagnostica António Santos.
A PJ e o “resto”
“Como se diz, ‘temos polícia’, mas as leis e o sistema judicial, depois, complicam tudo”. O dirigente aponta o dedo à Justiça e aos tribunais portugueses. “A ideia que passa é que isto anda tudo ao ‘Deus dará’. A PJ até se esforça, caça-os, mas depois o juiz mete-os cá fora novamente”. Todas as queixas são permeadas por casos concretos: “Há dias, no Algarve, um casal foi detido por assaltos a ourivesarias. Foi ao juiz e ficou com TIR (Termo de Identidade e Residência). De dia iam apresentar-se à GNR e durante a noite continuavam a assaltar lojas. Foi assim meses a fio!”.
No caso da Pampilhosa do Botão, a Judiciária de Aveiro acabou por deter três indivíduos suspeitos do assalto, dois dias depois, atribuindo-lhes a eventual autoria de uma série de roubos e furtos qualificados um pouco por toda a região. Com idades a rondar os 30 anos e residentes na área de Vila Nova de Gaia, há indícios do seu envolvimento em ataques a diversos estabelecimentos, praticados com violência ou por método de carjacking. Presentes a interrogatório judicial, dois deles viram ser-lhes decretada a prisão preventiva, enquanto um terceiro foi restituído à liberdade, com obrigação de apresentações periódicas na autoridade policial.
“São vidas desfeitas, de repente tudo acaba”. A constatação do líder da ANOR soa a sentença. O cenário negro agudiza-se com a impraticabilidade dos seguros que obriga as vítimas a terem de arcar com todo o prejuízo. “O preço dos prémios é tão elevado e as exigências são tantas que é incomportável tamanho esforço financeiro. É impossível uma casa de bairro pagar seis ou sete mil euros por mês de seguro e as seguradoras encontram sempre forma de não pagarem”, explica.
Desalentado, António Santos não vislumbra melhorias para o sector: “Como Associação, estamos de pés e mãos atados. Tem de haver mudanças, sobretudo ao nível da Justiça. Mexer em ouro é cada vez mais um risco enorme. Queremos ter esperança, mas os dias são dramáticos”.| Ana Paula Cardoso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Sem rasto no mercado negro
A vaga de assaltos ao ouro começou há cerca de dois anos e, desde então, tem-se intensificado. Para António Santos, são vários os motivos: “A crise, a falta de segurança e de uma Justiça eficaz, o preço que o ouro atingiu e o facto de ser um produto apetecível, fácil de escoar e de transformar em dinheiro vivo”. E se da crise económica, da segurança ou da Justiça já muito se tem dito, o Presidente da ANOR levanta o véu sobre algumas questões um tanto nebulosas neste reluzente mundo do ouro.
“Não há assaltos gratuitos. Quando vão assaltar, os ladrões já têm quem compre o ouro. Vendem-no a receptadores previamente definidos”, diz. Por cá, há um mercado negro? “Não comento”, reage. Parece haver, e dos circuitos dessas transacções sombrias perde-se o rasto, mas, porque quem comercializa compra e vende, será admissível que haja proprietários de ourivesarias a comprar ouro roubado. “Há coisas que não se percebem muito bem”, desabafa.
Sangria do ouro nacional
Cuidadoso, o responsável da Associação sempre vai comparando, confrontado com a proliferação de casas especializadas em compra e venda de ouro: “O ourives quando compra ouro usado tem de o manifestar em documento à PJ e não o pode transaccionar, nem derreter, durante 20 dias”. E essas casas? “Acredito que sim, mas é tudo muito estranho”. E mais não diz. Fala antes da convicção de que parte do material roubado não fica apenas em território nacional, acabando muito dele por aparecer no estrangeiro.
“É colocado à venda nas ourivesarias da Roménia, muitas vezes com as etiquetas portuguesas. Viram-no e contaram-mo na primeira pessoa. Ou então vai parar a Espanha e logo desaparece”. Exige que alguém ponha cobro a isto. “As nossas fronteiras deviam ser controladas, ciclicamente fiscalizadas. É fácil entrar cá, roubar, e voltar a sair, no mesmo dia”.
António Santos suspeita de bandos “altamente organizados, estrangeiros” e não hesita em anunciar que o metal precioso do nosso País – que sempre teve uma forte “cultura do ouro” – está a ser sugado para o exterior. Será uma sangria do ouro nacional, o das ourivesarias e o dos particulares. “Não se compreende como num País da União Europeia não se faz uma investigação além fronteiras”, acusa.

Casas de ouro também não escapam
No passado dia 14, quinta-feira, houve três ataques em apenas três horas, no Centro e Norte do País. Enquanto um ourives foi assaltado à porta de casa, em Gondomar, por cá, duas lojas de comércio de ouro da cadeia “Valores” foram assaltadas em Coimbra e em Cantanhede.
Na cidade da Gândara, o assalto aconteceu cerca das cinco e meia da tarde, tendo sido executado por dois indivíduos, na casa dos 20 e poucos anos, que entraram encapuzados na loja, em plena Praça Marquês Marialva. “Foi muito rápido, não tive noção do que acontecia. De repente, pediram tudo, disseram à funcionária para abrir o cofre e levaram o que puderam”, disse ao AuriNegra Lúcia Vaz, a única cliente àquela hora. Ia avaliar uma gargantilha e um alfinete, ficou sem ambos.
“Baza!” foi o grito do jovem que acabou por afugentar os ladrões. Álvaro Marques, funcionário no Centro Comercial Rossio, espreitou para a loja no exacto momento do assalto e não pensou duas vezes. Entrou e gritou, assustando os assaltantes que se puseram em fuga. Na corrida, deixaram cair um telemóvel e um telefone, que haviam furtado da loja, não sem antes um deles cair à custa de uma rasteira pregada por um dos populares. Conseguiram fugir, alegadamente com a ajuda de uma terceira pessoa que os aguardava numa viatura. Os prejuízos não foram revelados.