E se, de repente, à sua caixa do correio chegar uma missiva cujo remetente se intitula como sendo um alto quadro do governo de determinado país, ou familiar de um antigo dignitário de uma qualquer nação, propondo-lhe um negócio altamente rentável, com milhões à mistura, não hesite: ignore e não ceda à tentação de responder.


“O melhor é nem ler duas vezes e até rasgar a carta”, adverte o Coordenador de Investigação Criminal da Directoria de Coimbra da Polícia Judiciária (PJ), Carlos Dias, em declarações ao AuriNegra, a propósito daquela que é uma das mais conhecidas fraudes, aplicada de diferentes formas, sempre com novas versões e designada na gíria policial por “Cartas da Nigéria”.
O nome e morada correctos do destinatário, o tom algo caloroso da mensagem – redigida quase sempre num inglês deficiente mas farta em pormenores e detalhes – e o selo e o carimbo oficiais do País de onde é expedida, podem fazer vacilar os mais incautos. Mas não há dúvidas: independentemente das variantes que foi assumindo, este tipo de cartas mais não é que a tentativa de um crime de burla.
Em plena “era digital”, o recurso ao correio electrónico vulgarizou este tipo de actuação e a maioria dos utilizadores da Internet já terá recebido pelo menos um e-mail, remetido por alguém que promete transferências de quantias avultadas à troca de “pequenas ajudas” ou de procedimentos simples. Online, este esquema fraudulento foi ganhando novos contornos e adquirindo popularidade o que, simultaneamente, concorreu também para que fosse deixando de funcionar.
Certo é que, por carta ou por correio electrónico, e algumas vezes até por fax, esta correspondência continua a circular massivamente e a merecer a atenção das autoridades, em Portugal e no mundo, não deixando de fazer vítimas, apesar de ser um esquema já demasiado conhecido.
“Quando a esmola é grande o santo desconfia”, diz-se, mas muitos ainda se deixam tentar pela promessa de dinheiro fácil. “Há sempre uns tantos que ainda alinham”, confirma o investigador. E depois de “alinhar” não há praticamente retorno e o preço pago é quase sempre demasiado elevado.
Segundo Carlos Dias, “os destinatários são escolhidos de forma aleatória, muitas vezes com base em registos informáticos. Mas são quase sempre dirigidas [as cartas] a pessoas com posição de destaque no meio empresarial ou em sectores influentes da sociedade”. O Coordenador da PJ fala ao nosso jornal numa altura em que uma destas cartas chegou a uma caixa de correio da Região.

A proposta milionária


“Sabemos que quando há a recepção de uma carta numa determinada zona isso significa que foram expedidas centenas ou milhares para a mesma área”. No caso, o remetente apresenta-se como sendo Charles Taylor (Júnior), filho do ex-Presidente da Libéria, que está a ser julgado por alegados crimes de guerra. “O meu pai é um bom homem que tentou fazer tudo pelo povo liberiano”, escreve.
Depois, o alegado filho de Charles Taylor esclarece que o contacto do destinatário lhe foi dado pelo progenitor e apresenta a proposta “que beneficiará ambas as partes”. Uma mensagem com mais de seis parágrafos, redigidos em Inglês grosseiro, que, resumidamente, pede ajuda para transferir para o nosso País qualquer coisa como 177 milhões de dólares, montante que o ex-governante tem numa conta e que não pode ser publicamente associado aos Taylor, daí ter de recorrer a um anónimo de outro estado, fora de África, que se limitará a facultar uma conta bancária para o depósito da fortuna.
“Prometo dar-lhe 30 por cento do montante total e dez por cento dos lucros com os juros, livres de impostos, durante cinco anos”, é garantido pelo dito Taylor Júnior, que faz saber inclusivamente que se encontra “num campo de refugiados na Tanzânia”, ficando (mesmo assim!) a aguardar os documentos e os dados para a transferência. Os números de fax e de telefone são igualmente facultados na carta que termina com uma nota: “Assim que receber as informações, enviarei mais detalhes para concluir a transacção”.
“Policialmente, chamamos-lhes ‘Cartas da Nigéria’, apesar de, nalgumas coisas, variarem de umas para as outras”, informa Carlos Dias sobre este esquema, que começou nos anos 90 do século passado. “Isto começou na Nigéria mas acabou por estender-se a todos os países de África e a alguns da Europa para onde emigraram muitos indivíduos”. Por carta e sobretudo por e-mail, são aos milhares as mensagens que todos os dias circulam a provocarem os mais imprudentes. | APC

Sem retorno
Para o investigador da PJ, a instigação ao lucro fácil aliada à cobiça dos destinatários acaba sempre por fazer vítimas. “As pessoas começam a fazer contas e no meio de tantos números – milhões de dólares – ‘perdem-se’ e acham que vale a pena”, exemplifica, baseando-se na experiência de casos que lhe passaram pelas mãos.
“As pessoas podem até nem facultar o número da conta bancária mas entram em contacto com os burlões e eles dão-lhes ‘a volta’. Por exemplo, dizem que precisam de mil euros para despesas e que depois iniciam o processo. Posteriormente, pedem mais mil para taxas alfandegárias… e a vítima, quando cai em si, já entregou muito dinheiro”.
A PJ lembra que há casos em que os lesados chegaram mesmo a pagar viagens aos burlões, adiantando dinheiro para custear despesas, ou se deslocaram, a expensas próprias, a África e a outros países para supostamente se encontrarem com os burlões.
O esquema das “Cartas da Nigéria”, cujo modus operandi acontece por todo o mundo, preocupa a PJ e o Portal da Justiça do Governo português alerta para esta encenação, numa página de conselhos sobre segurança. INTERPOL e EUROPOL também acompanham o fenómeno e até as autoridades nigerianas lançam frequentemente avisos sobre esta fraude.
Não responder às mensagens nem facultar quaisquer tipos de elementos é a melhor defesa, segundo a Polícia Judiciária, que, objectivamente, pouco pode fazer para combater este tipo de crime. “Mesmo que tenhamos indícios, e apesar da colaboração internacional que existe, temos de nos limitar à nossa área de actuação”, confirma Carlos Dias. O que, na prática, não produz resultados.
Juridicamente, as “Cartas da Nigéria” são “um crime de burla na forma tentada, que depende de queixa, e só há burla (logo, crime) se a pessoa se deixar enganar”, elucida o Coordenador, ou seja, se houver entrega de dinheiro. “Perante a queixa, investigamos sempre, mas dificilmente há detenções”. Muito menos adiantará aos lesados “correr atrás do prejuízo”, já que o dinheiro entregue nunca será reavido.

 

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