Blog AuriNegra

Tremoço “biotecnológico”

Anúncios

Fiel companheiro da cerveja e conhecido como “marisco dos pobres”, o tremoço foi conquistando estatuto de alimento saudável graças à sua riqueza nutricional. Mas o tradicional petisco não pára de surpreender, já que, sabe-se agora, tem também propriedades fungicidas que vão ser exploradas por uma empresa de biotecnologia, prestes a instalar-se em Cantanhede. O investimento é de 20 milhões de euros.

Cerca de 40 mil metros quadrados na Zona Industrial de Cantanhede vão acolher uma unidade de produção de um novo fungicida amigo do ambiente, feito a partir do tremoço. O produto tem vindo a ser produzido, em fase-piloto, pela CEV – Consumo em Verde Biotecnologia das Plantas S. A., depois de investigadores portugueses terem descoberto que o tremoço tem uma proteína de alto valor nutritivo com propriedades fungicidas, de toxicidade zero para os humanos.

Para dar continuidade ao projecto, que numa primeira fase se tem centrado na realização de testes de campo e em clientes-piloto para novas culturas e fungos, a CEV escolheu Cantanhede como o local ideal para estabelecer a empresa, como confirmou ao AuriNegra Mário Pinto, um dos administradores. “Estamos a ultimar pormenores com a autarquia, mas a nossa sede será em Cantanhede, onde vamos desenvolver todo o nosso trabalho nos próximos anos. Até a maioria dos nossos colaboradores e funcionários vão para a cidade”, explicou o responsável, dando conta de um investimento na ordem dos “20 milhões de euros”.

Segundo Mário Pinto, “a localização de Cantanhede, a proximidade com o Biocant Park e com as universidades” pesaram na decisão de instalar a empresa de biotecnologia no concelho, prevendo-se que a unidade de produção esteja pronta a funcionar dentro de alguns meses. Ao todo, serão criados “35 postos de trabalho, todos altamente qualificados”.

Um investimento certamente bem-vindo, com a autarquia a considerá-lo “uma mais-valia” para Cantanhede. O executivo camarário já aprovou, inclusivamente, por unanimidade, a disponibilização do terreno por um preço relativamente baixo, cedendo “40 mil metros quadrados por 240 mil euros, ao preço de seis euros cada”, lê-se na acta relativa à reunião camarária de 16 de Novembro.

 

O projecto

Situada no Parque Industrial do Seixal, a CEV foi a primeira empresa a participar na segunda fase do programa COHiTEC, que tem como principal objectivo estimular a criação de empresas de base tecnológica a partir do conhecimento gerado nas universidades nacionais. Ora, ao abrigo do COHiTEC (promovido pela COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação), a empresa obteve financiamento de um grupo de investidores privados, num investimento superior a 12,4 milhões de euros e que foi assegurado por um consórcio de empresas portuguesas que incluem a Change Partners, a COFIHOLD e a Promotor.

“A CEV foi criada com o objectivo de produzir este novo produto, depois de patenteada a descoberta da capacidade antifúngica do tremoço”, esclareceu Mário Pinto, dando conta de que “o ingrediente activo deste fungicida é uma proteína que foi descoberta por um grupo de investigadores, do Departamento de Botânica e Engenharia Biológica do Instituto Superior de Agronomia e do Instituto de Tecnologia Química e Biológica e que são os promotores do projecto”.

Para além da grande capacidade de resistência ao calor e aos raios ultravioleta, o novo fungicida tem elevada eficácia e um largo espectro de acção. Não contamina os lençóis freá-ticos nem provoca danos à saúde humana, podendo ser a solução, por exemplo, para o tratamento de campos de relva (como estádios de futebol e campos de golfe), contribuindo, em paralelo, para revitalizar a cultura do tremoço em Portugal e (por que não?) na região.

Por esta altura, estão a ser produzidas apenas as quantidades necessárias para testes em clientes-piloto bem como para demonstrar a não toxicidade e a eficácia do produto que, sendo um fitofarmacêutico, necessita de certificação na Europa e nos Estados Unidos da América (EUA). “Já temos a patente autorizada em vários países e contamos que a certificação aconteça na Europa e nos EUA em 2012”, avançou Mário Pinto ao AuriNegra.

Com a nova unidade de Cantanhede, a empresa efectuará o “scale-up” do processo produtivo e preparará a comercialização nos mercados-alvo de entrada. “Contamos chegar ao mercado global, mas este é um negócio muito regulado”, elucidou ainda o responsável, que admite poderem vir a ser necessárias cerca de “600 toneladas de tremoço por ano”. | APC

 

O grande pequeno bago

Da família das favas e das ervilhas, o tremoço é uma leguminosa muito rica em termos nutricionais, possuindo, por exemplo, três vezes mais proteínas e duas vezes mais fósforo do que o leite de vaca. Em regra, a sua composição nutricional é entre 36 e 52 por cento de proteína, entre cinco e 20 por cento de gordura e entre 30 a 40 por cento de fibra alimentar.

Muitas vezes chamado o “marisco do povo”, está visto que é muito mais do que um apreciado petisco. No que à alimentação diz respeito, por exemplo, o seu consumo tem sobretudo vantagens, sendo apenas recomendados cuidados aos diabéticos: “É uma leguminosa muito rica em açúcares complexos, que são absorvidos de forma lenta, o que mantém os níveis de glicose estáveis”, aclara Helena Saldanha, nutricionista.

“O tremoço tem uma enzima capaz de baixar o açúcar no sangue, por isso os diabéticos têm de ter cuidado, por haver o risco de hipoglicemia, mas todas as outras pessoas o podem comer, sobretudo se forem fazer um esforço intelectual intenso”, aconselha a nutricionista. Indicado para quem sofre de problemas ósseos, o tremoço ajuda a reduzir o apetite, para além de ter propriedades emolientes (que amolecem ou abrandam as zonas inflamadas), diuréticas e cicatrizantes, favorecendo a renovação das células.

Já do prato para o campo, não faltam utilizações diversas para o pequeno bago amarelo, que pode ser utilizado, por exemplo, para farinha de tremoço (utilizada na produção de bolachas, pão, biscoitos, massas e alimentação para animais), na indústria farmacêutica e no melhoramento dos solos (é mesmo denominado “adubo verde” pois evita a utilização de adubos convencionais, preparando os solos). Agora, descobertas que estão as suas propriedades fungicidas, o tremoço está prestes a ser, também, um antifúngico amigo do ambiente, a trazer investimento para o concelho… e com Cadima, “capital do tremoço”, ali tão perto!

 

Anúncios

Anúncios