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Atletismo, paixão de uma vida

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Manuel Oliveira Gomes nasceu a 25 de Fevereiro de 1946, poucos meses depois do fim da 2.ª Guerra Mundial, na Tocha, concelho de Cantanhede. Praticou desporto desde cedo e com 17 anos apaixonou-se pelo atletismo, amor de adolescência que, afinal, dura até hoje. Aos 64 anos viu a sua dedicação à modalidade distinguida na IV Gala do Desporto de Coimbra (realizada no passado mês de Novembro), naquela que foi uma homenagem merecida a quem desde que começou a correr não mais parou.

Manuel Oliveira Gomes descobriu o atletismo com 17 anos, enquanto praticante de futebol. O seu talento não passou despercebido ao Sporting Clube de Portugal, um dos maiores emblemas do País no que ao atletismo diz respeito. O sonho foi-se cumprindo, primeiro em Lisboa, depois em Angola, mais tarde novamente em Portugal. Hoje, quase 50 anos depois, continua a fazer do atletismo a sua vida.

 

Nasceu na Tocha a 25 de Fevereiro de 1946 e foi dividindo a sua infância e juventude por Mira, Cantanhede e a vila onde viu o mundo pela primeira vez. Aos 17 anos deixa o atletismo entrar na sua vida, provavelmente desconhecendo que a modalidade acabaria por não mais sair. “Jogava futebol na equipa principal da União Desportiva da Tocha mas gostava muito de correr, e normalmente ganhava em corrida aos meus adversários. Essa foi a minha motivação inicial para experimentar”, recorda Oliveira Gomes.

Estávamos em 1963 e o jovem desportista decidiu participar no Torneio Primeiro Passo, iniciativa organizada pelo Sporting que é hoje conhecida por Olímpico Jovem, tendo passado a sua organização para as mãos das entidades oficiais do atletismo nacional. Foram os primeiros passos vitoriosos de uma carreira que já leva mais de quatro décadas: “Primeiro ganhei a fase eliminatória do torneio e depois conquistei também a prova final. Foi assim que entrei para o Sporting”.

Com Lisboa no horizonte deixa a Tocha para trás e segue em busca de um sonho. Durante dois anos integrou a equipa de atletismo de um dos mais representativos clubes de Portugal na modalidade: “No atletismo o Sporting foi sempre uma marca de referência. Lá, fui campeão nacional de juvenis e vice-campeão nacional de juniores”. Corrida após corrida, o percurso de Oliveira Gomes ia ganhando forma. Apesar de estar a representar “um grande”, decidiu mudar de cenário. Malas feitas segue-se Luanda, na então colónia portuguesa de Angola.

 

Dez anos e um filho em África

“Tive sempre uma grande vontade de independência em mim”. É assim que o meio-fundista explica a decisão de rumar a África. Continuou a participar em provas e a aperfeiçoar o seu desempenho nas disciplinas de 1500 e 3000 metros, as distâncias em que Oliveira Gomes se destacou, tecnicamente denominadas meio-fundo curto.

Do par de anos em que passou pelo emblema de Lisboa, recorda o contacto com um outro Manuel Oliveira, “o primeiro grande atleta português, quarto classificado nos Jogos Olímpicos de Tóquio [1964]. Na Península Ibérica não tinha rival e era um dos expoentes máximos na Europa. Foi recordista nacional dos 1000 aos 10.000 metros. Ainda hoje somos amigos”.

Sportinguista de alma e coração confessa, entre risos, ter “muitos amigos no Benfica”. Até porque não é sectário e não punha de parte envergar o emblema das “águias”: “Nos anos sessenta vivia-se muito mais a camisola do que hoje. Ainda assim, se o Benfica me tivesse convidado, quem sabe… É possível ser sportinguista e vestir a camisola do Benfica com dignidade, apesar de o contrário também poder ser verdade”.

Bem-humorado, vai folhean-do as páginas do livro das suas memórias. Detém-se numa recordação especial, ainda dos dez anos passados em África, primeiro em Luanda, depois em Benguela, onde acabaria por nascer o seu filho. “É uma terra que me encanta. Foi lá que comecei a treinar atletas, muito rapidamente. Aliás, eu próprio só tive um treinador, Moniz Pereira. Normalmente era eu que me treinava a mim próprio, porque lia e estudava e ia aprendendo”.

Na sua passagem por Angola fundou um clube de atletismo em Benguela. Apesar de assumir que as condições de trabalho não eram tão boas quanto na “metrópole”, ressalva a abertura e o progressismo da sociedade que lá encontrou. “Benguela era uma cidade com grande tradição desportiva e havia, realmente, uma juventude muito pujante e com grande vontade de fazer coisas”. O 25 de Abril, dia de liberdade para muitos, acabaria por ditar o regresso do atleta e treinador à terra natal. “Em Setembro de 1975 vi-me forçado a regressar, já não havia condições para ficar. Voltei à Tocha e comecei a trabalhar em Coimbra, na Direcção Geral de Desportos”.

Um amigo especial

No regresso a casa, Oliveira Gomes encontrou o atletismo em franco crescimento, “era uma modalidade que estava muito massificada, havia um boom também no número de praticantes. Eu era monitor da Direcção Geral de Desportos e cheguei a dar aulas em Mira, em Cantanhede e também na Tocha, nas escolas”. Das escolas aos clubes, com passagens pelo Olivais, ACM e a Gira Sol, de Febres, entre outros, com a formação de camadas jovens sempre em primeiro plano: “Eu gosto mesmo é de ensinar. Enquanto atleta acabei por me dedicar mais a outros do que a mim próprio”.

O bichinho de ensinar e formar outros desportistas esteve sempre lá, sobretudo no que aos mais novos diz respeito: “Os miú-dos fascinam-me. Penso que é muito importante a valorização dos jovens e o atletismo é uma modalidade que contribui muito para a melhoria de cada um enquanto pessoa”. Nem sempre o melhor atleta é aquele que apresenta a melhor condição física, não raras vezes a componente psicológica assume um papel determinante: “Em Portugal há alguns casos paradigmáticos nesse sentido”.

Carlos Lopes, um dos grandes nomes do atletismo nacional, é o exemplo acabado disso mesmo: “Conhecia-o do Sporting e fui seu cicerone uns anos mais tarde em Angola. Na altura ele estava a despontar e eu escrevi no ‘Comércio de Luanda’ que em pouco tempo ele poderia vir a ser um dos melhores do mundo, o que se veio a confirmar. Ele tinha boas condições físicas para isso mas o que foi fundamental foi o seu ‘querer’, a sua vontade”.

Pai de dois filhos, tenta compatibilizar atletismo e família, apesar de assumir que, grande parte das vezes, a vida dele tem sido “condicionada pelo desporto, um condicionalismo que eu gosto e que me dá prazer. O atletismo absorve grande parte da minha vida”. Respeito, valorização pessoal e muita vontade de fazer mais e melhor. Para Oliveira Gomes, não há dúvida de que “o atletismo é uma escola de virtudes”. Uma escola em que, com quase 50 anos de “aulas”, Manuel Oliveira Gomes é mestre.

 

Homem de princípios

Oliveira Gomes já anda nos meandros do atletismo nacional há muitos anos. Pelo menos os suficientes para saber que, em algumas ocasiões, há injustiças. Há injustiças quando, por exemplo, nem todos os atletas estão em pé de igualdade e alguns têm que mostrar o dobro do valor para conseguirem vingar na modalidade. Envergar as cores da selecção nacional depende, nalguns casos, mais do local onde se treina, ou por quem se é treinado, do que dos resultados desportivos obtidos.

“Já tive uma discussão grave com o Director Técnico nacional. São palavras vãs que caem em saco roto, a situação é esta. Já ando aqui há algum tempo, isto é um País adiado”. Quantos às tais decisões que tanto o indignam, nem conspirações nem enredos muito complexos: “Na dúvida, vai um atleta de Lisboa”.

A forma directa, “sem espinhas”, como aborda esta e outras questões sensíveis, indicam, já, uma maneira de estar e de ser de Oliveira Gomes: “Temos que ser coerentes e verticais. Para mim, os princípios da lisura e da competência são básicos, são ensinamentos que colhi do meu pai, que já morreu. Um homem que nunca foi à escola mas sabia estar, ainda que de enxada na mão, pois era agricultor. Tinha lições de vida e dava-as, ensinava as pessoas a serem correctas, a terem princípios e a serem éticas. Não há nada que nos faça mais felizes do que contribuirmos, de alguma forma, para uma melhor sociedade”.

 

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