Fernando Santos Preguiça, 59 anos, natural da Pedreira, Febres, viu desaparecerem em escassos minutos anos de trabalho, de uma vida dedicada à relojoaria e à ourivesaria. O estabelecimento de que é proprietário há trinta anos, em Arraiolos, Alentejo, não escapou à impiedosa vaga de assaltos que tem varrido o País de norte a sul.

O telemóvel tocou por volta da 1h20 da madrugada do dia 3, segunda-feira. Ensonado, Fernando Santos Preguiça atende e recebe a má notícia de que o seu estabelecimento comercial, uma ourivesaria e relojoaria, acabara de ser assaltado. “O alarme não foi accionado porque eles entraram pela janela”. O alerta foi dado pelos vizinhos que terão ouvido o ruído provocado pelo arrombamento, tendo de imediato contactado as autoridades locais. “Diz que a GNR não terá demorado mais de cinco minutos a chegar ao local”.

Ainda assim, tempo mais que suficiente para que os três delinquentes, encapuzados, conseguissem furtar do interior da loja milhares de euros em ouro e jóias: “Desapareceu tudo o que era ouro amarelo, só sobraram umas poucas de peças que eles devem ter deixado cair ao fugir. Levaram uns 90 ou 100 relógios, pulseiras de prata de homem e de mulher e mesmo aquilo que deixaram estava tudo remexido e atirado ao chão”, revela ao AuriNegra o ourives, o desalento perceptível na voz.

Há trinta anos que Fernando Preguiça se estabeleceu por conta própria na vila de Arraiolos, distrito de Évora, apesar de ter deixado Febres e a Gândara há muito mais tempo. “Comecei a aprender a arte de relojoaria em Febres, em 1962, e em 1966 decidi sair para o Alentejo. Ainda passei por Lisboa mas acabei por me fixar em Arraiolos, onde abri o meu próprio negócio em 1980”. A Ourivesaria Fernando nunca tinha sido alvo de um assalto deste tipo, o máximo que já tinha acontecido “foi um roubo em plena luz do dia, há uns dez anos, em que uns romenos me roubaram 14 pulseiras de homem mesmo debaixo do meu nariz”.

Sem violência nem ameaças, apenas com um truque, qual “passe de mágica”. Desta vez não foi assim. As vitrinas ficaram vazias, o chão coberto de destroços e estilhaços dos anos de trabalho usurpados, na calada da noite. Apesar da onda de crimes semelhantes que tem varrido Portugal, em Arraiolos não é uma ocorrência habitual: “Esta é uma zona pacífica, mas a verdade é que o País, de há uns tempos para cá, está cada vez pior. Antes havia segurança mas desde o 25 de Abril que não sei que raio de liberdade é esta. Não há respeito”, queixa-se o febreense notoriamente revoltado.

Desde que foi vítima dos assaltantes que confessa ter “ficado nervoso”. Mais, que ainda neste momento se sente nervoso. As palavras faltam-lhe quando tenta explicar ao AuriNegra o que sentiu: “É muito difícil, tudo ali espalhado, fiquei sem palavras. Penso que deve ser como perder uma pessoa querida, não há-de ser muito diferente. A diferença é que a pessoa não volta”.

Atira acusações mas, apesar do início de ano conturbado, confessa que não vai desistir: “Veja a minha idade, não posso abandonar isto, tenho que continuar. Se não tiver tanto, terei menos, como quando comecei. O que importa é que dê para mim e para a família. Agora é um dia de cada vez, é aquilo que podemos e não o que queremos”. Baixar os braços é que não. Afinal, ainda agora o ano está a começar. Quem sabe se não trará algumas surpresas agradáveis?  | FC