Miguel de Sá e Sousa Castelo-Branco nasceu a 10 de Fevereiro de 1967 em Coimbra mas foi na então vila de Cantanhede, onde residia, e na aldeia de Covões, terra de origem do seu pai, que passou os primeiros anos e cresceu feliz.
Talvez por isso, não se considera de Coimbra: “Apesar de ser um tempo um pouco distante, Cantanhede é uma terra de que gosto muito e onde vou muitas vezes. Afinal, foi lá que estudei, tinha lá os meus colegas”. Alemanha e Holanda também já foram a sua “casa”, mas é na zona onde Gândara e Bairrada se fundem que deixou o seu coração.
Miguel Castelo-Branco concluiu aquele que é considerado o curso superior mais exigente em Portugal mas não arrumou os livros. Seguiram-se o doutoramento, ao abrigo de um programa da Fundação Calouste Gulbenkian, e um pós-doutoramento, no estrangeiro. Médico, investigador e docente, tem dedicado os últimos anos ao Instituto Biomédico de Investigação da Luz e Imagem (IBILI), onde tenta desvendar os segredos do “cérebro que vê”.
Coimbra foi a cidade que viu Miguel Castelo-Branco nascer, mas foram Cantanhede e Covões as localidades que cedo conquistaram o seu coração. “Residia em Cantanhede e visitava os Covões praticamente todos os fins-de-semana. O meu pai é de lá, por isso, desde cedo, soube o que era viver no campo, contactar com a Natureza”.
Uma infância diferente da que possibilitam os tempos modernos, pautada pelo convívio salutar entre amigos e colegas, pelas brincadeiras a céu aberto e por um sentimento dominante de segurança e liberdade, num tempo em que as assimetrias sociais não pesavam na hora de conviver: “Era um convívio muito diferente daquele que é possível em meio urbano. Muito mais horizontal em termos sociais, permitiu-me adquirir uma certa simplicidade na maneira de estar. São ambientes mais pequenos, em que há mais solidariedade. São estas as boas recordações que guardo desses tempos, sobretudo a amizade entre todos”.
Ainda hoje recorda com nitidez os passeios pela floresta, o andar sozinho desde muito pequeno: “É uma imagem de liberdade, se calhar ingénua, porque nessa altura também já deveriam existir perigos. Ainda assim, não havia medo. As nossas idas para a escola, com cinco, seis anos, eram autênticas romarias. Lembro-me de fazer muitas coisas que, nos dias que correm, deixar um filho fazer é muito complicado”. Essa foi a realidade que conheceu até completar o 11.º ano de escolaridade, em Cantanhede. Depois, a sua vida mudou de rumo, fazendo-o regressar à cidade onde nasceu, a fim de completar o ensino secundário e ingressar na Universidade.
Em cada esquina um amigo
Ao longo da conversa, há um tema a que Castelo-Branco regressa com alguma frequência. Os amigos que foi fazendo ao longo da vida, primeiro em Cantanhede, depois em Coimbra, anos mais tarde no estrangeiro, são, claramente, peças importantes no puzzle que vem sendo montado pelo investigador.
“Foram muitas as amizades criadas desde a escola primária ao 11.º ano. Mesmo estando muito tempo sem ver os colegas, estabelece-se uma ligação. Infelizmente não mantenho contacto com todos, em grande parte por ter estado seis anos no estrangeiro, e também porque se vão criando outras amizades. É estranho, já que quando somos jovens acreditamos que os amigos desses tempos vão ficar para a vida, mas na verdade vamos acumulando camadas de amigos. Actualmente mantenho maior proximidade com alguns colegas de faculdade, apesar de não saber explicar a razão, até porque alguns deles estão longe”.
A meia dúzia de anos que passou na Alemanha e na Holanda foi suficiente para acumular mais algumas “camadas” de amigos, colegas cientistas que hoje vai encontrando pelo mundo fora, sobretudo em congressos, acontecimentos em que aproveita para juntar o útil ao agradável, até porque “não deixa de ser curioso que a nossa disponibilidade se reduz à medida que a vida avança, e isto não tem nada que ver com o facto de valorizarmos mais ou menos as amizades. A vida moderna é complicada. Hoje, e na minha área profissional, ter disponibilidade para além do núcleo familiar é complicado”.
Os amigos que fez ao longo do curso de Medicina são os que estão mais presentes na vida de Miguel Castelo-Branco, talvez por terem enveredado por um percurso profissional semelhante e por sofrerem os mesmos constrangimentos temporais no que ao cultivo das amizades diz respeito. Recordando os anos de estudante em Coimbra, confessa não ter encontrado diferenças significativas entre este meio e aquele de onde vinha, uma grande vila a caminho de ser uma pequena cidade.
“Confesso que notava maiores diferenças entre o meio rural dos Covões e a vila de Cantanhede, do que propriamente entre Cantanhede e Coimbra. Hoje, provavelmente, a diferença ainda é menor, porque há que reconhecer que Cantanhede se desenvolveu bastante, houve um trabalho bastante meritório de sucessivas Câmaras Municipais. Hoje noto uma diferença enorme em termos de desenvolvimento, embora já houvesse grande potencial. Entretanto surgiram estruturas que reforçaram essa ideia, como o Biocant Park”.
O cérebro, esse desconhecido
Apesar de sempre ter sentido propensão para a área da Ciência, ser médico foi uma ideia que amadureceu à medida que Miguel foi ganhando conhecimento de si mesmo, uma ideia que deu frutos, colhidos a seu tempo. “Sempre gostei muito de ciências, mas também de humanísticas e letras. Quando era mais novo senti-me inclinado para a área do Direito, talvez por influência familiar. Depois tornou-se muito claro para mim que o que gostava mesmo era de ser cientista, a parte humanística era mais lúdica”, uma área a que ainda hoje dedica algum do seu tempo, alimentando a sua paixão pelo Teatro, pelo Cinema, pela Arte e pela Literatura.
Gostava muito de ciências exactas, como a Matemática, mas no 12.º ano acabou por optar por Medicina, interessado que estava no ser humano, apesar de, na altura, acreditar que não teria grande vocação para ver doentes, algo que mais tarde veio a descobrir não corresponder à verdade. “Ao longo do curso sempre gostei mais de disciplinas como Neurologia, Psicologia, tudo o que estivesse ligado ao cérebro e ao comportamento, e estava determinado a ser um clínico”.
Mas não era esse o futuro que lhe estava reservado. Concluído o Internato Geral e enquanto se preparava para o exame de Especialidade em Neurologia (que viria a realizar com uma marca notável, a melhor a nível nacional), toma conhecimento de um novo programa de doutoramento da Fundação Calouste Gulbenkian: “Naquele tempo não era muito vulgar um Interno fazer um doutoramento, ainda assim sempre me senti atraído pela investigação. Aquele foi o primeiro programa doutoral do género em Portugal, nas áreas da Biologia e da Medicina, e eu sempre quis ter uma oportunidade daquelas, fiquei fascinado”.
À possibilidade de aprender com os melhores, juntava-se o desafio de conhecer outras realidades, de investigar em qualquer ponto do mundo. “As oportunidades que existiam não eram assim tantas, por isso pensei ‘é agora ou nunca!’”. Não foi uma escolha fácil, já que teve que abdicar, por assim dizer, da Medicina, ou pelo menos da sua vertente mais usual, mas foi o enfrentar de um desafio que acabou por trazer ao jovem de Coimbra grande realização profissional e um percurso singular na área da investigação.
Charlie Chaplin, ou “Charlot”, conhecido actor e humorista britânico, dizia que o cérebro era o melhor brinquedo alguma vez criado, e Miguel Castelo-Branco, qual criança, decidiu dedicar a sua vida profissional à desconstrução dos mecanismos que o fazem funcionar e o tornam, em simultâneo, uma área tão cativante mas com tanto por desvendar.
Alemanha, Holanda e o regresso “à base”
O programa de doutoramento que frequentou implicava a permanência, durante um determinado período, num local de acolhimento no estrangeiro. O Instituto Max Planck, em Frankfurt, Alemanha, uma das unidades de investigação científica não-universitária mais conceituadas do mundo, foi o destino escolhido pelo cientista, que aí desenvolveu a sua tese, investigando o cérebro, orientado por dois grandes nomes da área: Wolf Singer e Cunha Vaz. Terminado o Doutoramento e a investigação na Alemanha, foi convidado para leccionar na Holanda, na área das Neurociências Cognitivas.
“Estive lá um, ano até ao momento em que decidi voltar a Portugal por uma conjugação de diversos factores, incluindo motivos pessoais. Fala-se em mobilidade mas num país pequeno como o nosso é difícil encontrar oportunidades, por isso fixei-me em Coimbra. Curiosamente, a área em que me doutorei estava ligada à visão, uma área emblemática em Coimbra em termos de investigação a nível nacional”. Um regresso a casa que foi, também, um regresso às suas raízes, à família e à Universidade de Coimbra, onde lecciona e exerce as funções de investigador.
Estas são, aliás, duas áreas que acredita deverem ser complementares: “Um professor deve ministrar conhecimentos e competências actualizados. É importante transmitirmos aos alunos aquilo que aprendemos no dia-a-dia através da actividade de investigação, actividade essa que prevê uma validação constante de conhecimentos. Se incentivarmos o espírito científico e crítico, ajudamos os futuros médicos a tomar decisões informadas”.
Quanto à área de investigação a que se dedica, associa o cérebro à visão, já que esta é uma “boa janela para o cérebro. Tem a característica particular de ser o sentido que permite captar imagens, enquanto com os outros órgãos não é tão fácil. Na verdade, podemos estudar a visão de uma forma objectiva, o que nos permite criar âncoras a fim de contornar a subjectividade do cérebro”. Um universo fascinante, do qual o cientista fala com inegável entusiasmo e o tal “brilhozinho nos olhos”. “Já sabemos muitíssimo sobre o cérebro mas a questão prende-se com a complexidade da informação que recolhemos, e não com a quantidade. Não sabemos menos do que em relação a outros órgãos, sabemos muito e com aplicação prática, mas se calhar ainda não chegámos ao cerne da questão”.
Talvez no limite do conhecimento, o homem venha a ser capaz de contornar mais uma das grandes questões metafísicas, conseguindo, finalmente, dotar de sentimentos as máquinas. Aí, filmes como “Blade Runner – Perigo Iminente” ou “Inteligência Artificial” deixarão de ser pura ficção científica. Até lá, Miguel Castelo-Branco deixa as águas bem separadas: “Imitar sim, reproduzir, dotar de emoções, é outra questão. Há que distinguir o cérebro da mente e da consciência”.
É, assumidamente, um homem da ciência, que não deixa de “piscar o olho” à arte. Gosta de pintar e de escrever e é apologista do mote “mente sã em corpo são”. A breve trecho, gostaria de regressar à prática das danças de salão, um passatempo muito apreciado por toda a família.
Filipa do Carmo


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