Maria de Deus Rueff de Saro Negrão nasceu a 1 de Junho de 1972 na Beira, uma cidade de Moçambique. Veio para Portugal ainda bebé, quando os pais viram, de repente, a vida interrompida pela independência das antigas colónias ultramarinas. Maria cresceu “num Portugal muito agreste, o tal País dos retornados”. Em Cantanhede, terra do pai, conseguiu refugiar-se, ainda menina e por algum tempo, de tal rótulo,e muitas das suas memórias da infância têm, afinal, raízes na capital da Gândara.
Maria Rueff diz ter nascido “fora do tempo”, quando os irmãos “tinham já 13, 18 ou 20 anos”. Por isso, cedo recorreu ao humor para entrar no mundo dos adultos. A fazer rir os irmãos, soube ganhar espaço na família, e facilmente fez o mesmo com o País, que a vê como um dos grandes nomes da comédia nacional.
Nasceu em 1972, no Dia Mundial da Criança, e hoje, quando não se esconde por detrás das muitas personagens cómicas com que foi, ao longo dos anos, pondo o País a rir, Maria Rueff é quase uma menina. Tímida e até envergonhada, fala-nos com ar sério. Comove-se quando evoca a família e tempos menos bons, como aqueles que a trouxeram – a ela, aos pais e aos seis irmãos – de volta a Portugal, à força da descolonização. “Cresci num Portugal muito agreste, o tal dos ‘retornados’, e isso marcou-me muito”.
Muitas vezes, a História magoa e a história de vida de Maria encerra algumas mágoas. Ainda sofre, sobretudo, à força do que supõe terem sofrido os pais: “É sempre uma mágoa enorme. Imagine o que é ter tudo montado e perder tudo, a casa que tinham comprado e tudo o que tinham”. Um regresso forçado de Moçambique, tal como aconteceu com mais de meio milhão de portugueses, obrigados a retornar à metrópole em virtude da independência das antigas colónias portuguesas no Ultramar.
“Os meus pais chegaram a Portugal com mil escudos no bolso e com seis filhos. Restou-lhes começarem do zero quando tinham já quase 50 anos”. É neste período de readaptação da família a um país desconhecido (que levou anos), que Maria, muito mais nova que as quatro irmãs e do que o João, o único rapaz, acaba por vir viver para Cantanhede. Aqui, na terra natal do pai, viveu com uma das irmãs, já que todas elas tinham quase idade para serem suas mães. E foram-no, de certa forma, e à vez. Tal como o irmão, João Rueff, acabou por ser um pai.
A maior vitória
“Dois dos meus irmãos estavam em Cantanhede, e eu aca-bei por viver cá algum tempo, com a Aninhas, na altura do ciclo”. Os pais só viveram na cidade já depois de reformados, mas foi aqui que, ainda pequena, Maria encontrou uma espécie de refúgio. “Para ter uma ideia, num infantário em Lisboa eu cheguei a ser proibida de brincar com os meninos brancos por ser retornada e, veja, a minha pele é branca”. Arregaça a manga da camisola, como se dúvidas houvesse. “Em Cantanhede isso não era tão visível, mas nos centros urbanos, sim. Eu e os meninos pretos éramos fechados numa sala por sermos retornados, imagine o que é uma criança crescer assim”.
Maria cresceu e deu a volta. Olhando para trás, garante que foi nessa batalha, travada a par com a família, que conquistou aquilo que desde sempre a move, na vida como na profissão: “Sermos honestos e estarmos bem com a nossa consciência. São esses os meus grandes valores, e aqueles que os meus pais me passaram”. Optou por dar valor ao outro lado da moeda. “Sou uma pessoa cheia de força por ter passado pela descolonização. Apesar de tudo, vencemos. Eu e os meus irmãos”.
Em momento nenhum da conversa Maria larga a família. “A minha vitória é mais pública, mas todos eles venceram, porque são seres humanos extraordinários, bem formados, muito queridos nas suas áreas. E isso é que foi um bofetão de luva branca. Isso é que importa, e sei que a minha mãe quando ‘partiu’ foi com a sensação de missão cumprida”.
O orgulho pelas conquistas somadas é assumido pela actriz. As revelações sobre memórias dolorosas surgiram, aliás, na conversa a propósito de outras sobre quem é Maria atrás dos papéis, quase sempre cómicos. “Sou uma mulher muito insegura e uma mãe muito preocupada”. A filha da humorista tem seis anos, e Maria só deseja fazer-lhe o que os pais lhe fizeram: “Dizer-lhe ‘segue o teu sonho’ que eu cá estarei para dar-te asas”.
“A vida é uma tômbola”
Viver um dia de cada vez, é o lema da humorista que, modestamente, admite ter percebido precocemente que a vida dá muitas voltas. “Vidas complicadas são as daquelas mulheres que acordam às seis da manhã e que ainda têm de fazer comida para os filhos e para os maridos, colocá-la numa marmita e ir trabalhar o dia todo. Eu não posso queixar-me, faço o que gosto, tenho uma filha linda com saúde e um amor”.
A sinceridade de Maria desarma, enquanto as confissões quase surpreendem. “Tenho muito medo do futuro e penso nisso. Esta profissão, mesmo sendo mais reconhecida é de uma profunda instabilidade. Sei que isto depende de modas e há imensos colegas meus que já estão esquecidos”. Maria volta ao passado para explicar-nos convicções: “Cresci com a noção exacta de que a vida é uma tômbola. Que hoje temos tudo e que amanhã o destino puxa-nos o tapete e, aí, o que mais conta são os valores, ter coluna, ter amigos e ser generoso”.
Diz ser uma privilegiada por nunca ter estado sem trabalhar, mas alerta que na sua área pode-se estar dois anos, ou mais, parado. “Mas a vida não pára! Não pára a renda, a comida, a escola das crianças…”. A humorista parece angustiar-se. Sem dramas, mas o discurso é cruelmente real. “Há sempre um ‘plano B’, como aprendi com os meus pais, e eu tenho isto: hoje estou bem, como bife, amanhã se tiver de ser atum, será. Hoje sou isto, amanhã se tiver de ir lavar escadas, vou com o maior orgulho e o máximo de profissionalismo, porque o que mais conta é ser-se honesto”.
Memórias da Gândara
Regressando aos tempos de menina, a actriz revisita, incontornavelmente, Cantanhede, cidade onde estão muitas das suas memórias de infância. “Vivi lá dois anos, na altura do ciclo antigo, tinha 11, 12 anitos… E depois vinha sempre, no Natal, nas férias… sempre tive muita ligação à terra”. Define como “genuíno e verdadeiro” o vínculo a estas paragens, terra onde garante ter passado muito bons momentos. Aqui aprendeu, por exemplo, a andar de bicicleta e deu os primeiros passos – se não os únicos – em matéria de folclore.
“O meu avô [Carlos Saro Negrão] fundou os ‘Esticadinhos’ [Rancho Regional “Os Esticadinhos” de Cantanhede] e lembro-me muito bem do Rancho”. Ri-se com as lembranças desse tempo. “As minhas primas e a minha irmã dançavam lá e eu, miúda, andava lá no meio delas e dos pares. Ainda hoje sei as músicas e os passos de algumas danças”.
Entrar no mundo dos “grandes” sempre foi o remédio da actriz. Dos pais, de quem tanto fala, Maria Rueff tem uma diferença de idades considerável, bem como dos irmãos. Contas feitas, a mãe teve-a aos 42 anos. “Nasci fora de tempo”, brinca. “Os meus irmãos tinham já 13, 18 ou 20 anos e a pequenita arranjou forma de se evidenciar ao pé deles”. Fazendo-os rir, entenda-se.
“Comecei a imitar o primo, a prima, o tio e a tia, como se falava aqui e ali… A minha mãe era de S. Pedro do Sul e isso trouxe-me os ‘axins’.. Portanto, pequenita, mas já fazia rir toda a gente, o bichinho estava lá”. Um bichinho e um sonho que só mais tarde Maria Rueff acabou por encarar.| Ana Paula Cardoso
A Direito, rumo ao sucesso
Maria Rueff assinala ter crescido “num tempo em que se acreditava que o ‘canudo’ é que dava segurança”. Por uma décima não entrou na Faculdade de Direito de Lisboa, curso para o qual já estava formatada, e não quis ficar um ano parada até voltar a tentar. “Inscrevi-me no Conservatório, depois havia de voltar ao Direito, mas por lá fiquei e nunca mais voltei para trás”.
Uma décima bastou, assim, para que a actriz abraçasse o seu sonho. “Era, desde sempre a minha grande opção, de amor e de coração, mas eu não tinha coragem e havia muito medo. Actualmente, está na moda ser actor, até por causa destas coisas dos ‘Morangos com Açúcar’, mas na altura era muito difícil viver do Teatro”. Maria tinha 18 anos quando ingressou na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, tirando o curso de actriz e enfrentando receios com o apoio dos pais.
“Eles foram o meu oposto, disseram-me ‘Segue o teu sonho’”. Movida pela paixão, Maria Rueff não se fez rogada e abraçou a representação, sendo hoje uma das actrizes mais queridas e reconhecidas do público português, sobretudo no registo da comédia. Graças a um dom mas também a muito trabalho. “Nasceu comigo o jeito para a comédia e para imitar. Acho que isso é comum a todos os humoristas do mundo. Mas, para além de se ter essa capacidade, depois é preciso muito trabalho”.
Não é a brincar
Em 1991, Maria Rueff estreia-se profissionalmente e, pouco depois, é descoberta por Herman José e por Ana Bola numa série de cafés-teatro que fazia com João Baião, nas noites da capital, e que já então, nota, “davam muito que falar”. E nunca mais parou. “Os Bonecos da Bola” e “A Mulher do Senhor Ministro” ajudaram a popularizar a actriz, que rapidamente passou a integrar os elencos de diversos programas de Herman José.
São quase duas décadas de sucesso e a criar figuras bem conhecidas do grande público como, por exemplo, o “Zé Manel Taxista” ou “Idália”. Em 2001, estreou-se a solo no “O programa de Maria”, ajudando a revelar novos talentos, uma geração de actores, sublinha, “ainda desconhecida”. Teatro, programas e rábulas, rubricas e até cinema são, há perto de 20 anos, a vida da humorista, que confessa “trabalhar imenso”.
“Esta profissão é quase um sacerdócio, implica muito estudo, implica escola”, sublinha, alertando consciên-cias: “Isto não é uma brincadeira, é uma profissão dolorosíssima, implica não ter natais, feriados, ter muito trabalho. A ideia que tenho é que as novas gerações não pensam assim, passam por isso um bocadinho levianamente, acham que basta dizer as coisas e aparecer na televisão e não é assim”.
A título de exemplo, a actriz revela que gravar um “sketch” de cinco minutos pode demorar dois dias. Para além disso há o estudo todo de casa. “Se eu tiver uma imitação tenho de andar uma semana a estudar os tiques todos da pessoa, tirar-lhe as características com mais piada, e por aí fora. O jeito é inato, mas depois falta a técnica, e essa é que dá muito trabalho e muito suor”.
“O público alimenta-me”
Na reacção do público encontrou o seu maior prazer. “Sobretudo quando se faz comédia há a necessidade de ser uma comunhão com as pessoas todas. Fazer rir é uma catarse”. Actriz de mão cheia, sente-se bem em todos os cenários, ou não fosse a sua vida a representação. Contudo, a sua praia é a comédia com público. Mesmo os programas que fez em televisão sempre tiveram, à excepção de um ou dois, público ao vivo, sem ser pago para rir. “O público alimenta-me”, manifesta.
Uma proximidade que a leva a pensar que prefere o teatro, para logo a seguir admitir que a televisão também espreita no que às tentações diz respeito. “Adoro a rapidez da televisão, gosto daquela urgência. O cinema demora mais tempo e eu sou mais nervosa, quiçá, preciso dessa rapidez, sou mais instantânea”.
E precisamente depois do sucesso conseguido na televisão, ao lado de Ana Bola e dando corpo à dupla Denise e Maria Delfina, as duas “manicuras” andam agora em tournée, com a peça “VIP Manicure: A crise”. Uma digressão que surgiu depois de o programa ter acabado, “sem grandes explicações”, contrariando o grande impacto que granjeara. “As pessoas vinham ter connosco na rua e decidimos trazer de novo ao teatro estas personagens que, aliás, nasceram, há seis anos, no São Luiz”.
Também em palco, a VIP Manicure é um caso de sucesso. Foi o que aconteceu em Coimbra, na passada semana, quando, no Teatro Académico Gil Vicente, a peça teve casa cheia: “Termos 700 pessoas a rir connosco é um momento especial na vida”. Um espectáculo que vai continuar a percorrer o País, garante, “enquanto houver teatros que nos queiram”. Incontornavelmente, a crise não falta nos textos de Ana Bola, e Maria Rueff constata: “A malta anda com mais vontade de rir, porque nas grandes crises é o que a malta quer”.|APC


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