Com um currículo notável, José Tereso bem podia ser o homem dos sete ofícios. Admite ter vivido uma “juventude rebelde”, encontrando o seu caminho depois da tropa. Escapou por pouco ao palco de guerra nas antigas colónias, para vir a trocar Engenharia por Medicina. É, há décadas, o homem que zela pela saúde pública na Região Centro e o rosto da columbofilia, no País e no mundo.

O ano de 1947 chegava praticamente ao fim quando José Tereso nasceu, “numa altura em que começavam a ser plantadas as florestas da Tocha”. Não estudar e correr atrás da bola, no Largo da Tocha, eram as suas maiores preocupações de infância, período em que seguia os mais velhos, igualmente rebeldes. “Eram jovens que não estudavam, por causa das dificuldades, só pensavam no que não deviam e eu ia atrás deles”, recorda. “Foram muito poucos os que se salvaram”.

José Tereso foi um deles. Talvez porque a traquinice e a rebeldia de menino nunca abafaram uma das suas grandes características: a vontade de se dar aos outros. “Era um rebelde com queda para o associativismo”, admite, ao contar que desde garoto se envolveu nas colectividades da terra, nomeadamente na Associação Recreativa e Cultural 1.º de Maio. A vida difícil dos avós e dos pais, gente humilde que vivia do sector primário, é o que mais resiste nas suas memórias de criança. No avô paterno – “um grande cavaleiro e um caçador com galgos” – encontrou o seu ídolo, modelo que seguiria na vida.

“O meu avô era castrador e ferrador, tal como o foi o meu pai, e eu próprio tinha de ajudá-los ao fim-de-semana. Tive de tocar o fole da forja, de bater ferro, ferrar cavalos e de cortar unhas a vacas”, conta o médico, sem esconder as suas origens humildes. “A minha mãe diz que o meu primeiro berço foi um cesto de vime, onde me levava para o campo enquanto trabalhava na lavoura”. José Tereso tocou gado, andou de burro e de cavalo. “Tive uma juventude marcada pela ruralidade e pelas dificuldades”, revela.

Fala-nos de um amigo mais velho, Júlio Monteiro, conhecido na Tocha por Juca. “Foi o meu segundo ídolo, a par do meu avô, e meu amigo para a vida”. Recordar a meninice leva-o a falar de um outro companheiro, que diz ser o seu melhor amigo. Hoje como antigamente: “Era filho do doutor Santos Silva, um dos dois médicos da terra (que abriu o Rovisco Pais a mando do professor Bissaya Barreto) ”.

Entre dois mundos

Filho único e com o melhor amigo oriundo de outra classe social, acabou por crescer entre duas realidades: “Cresci no ambiente muito humilde da minha casa e no de um nível mais superior, que era a casa do meu amigo. Foi assim desde a primeira classe, já que ele, sendo de outro estrato social, vinha também para a minha casa, onde encontrava um modo de vida mais rural”. Um intercâmbio cultural na sua forma mais pura, onde se cimentou uma amizade que viria a ser muito mais do que isso. “Acabou por ser meu cunhado”. José Tereso caiu de amores pela irmã do melhor amigo e levou anos a conseguir conquistá-la.

“A minha mulher diz que a minha única virtude é a persistência”, brinca. “Conheceu-me na minha rebeldia, de ginjeira, e por isso demorei alguns anos a conseguir levá-la ao altar”. Lutar para conseguir o que realmente quer é, aliás, um dos traços vincados da sua personalidade. Ou não fosse gandarês: “O povo da Gândara teve de lutar muito e isso é o que mais admiro naquela terra”. Por isso, hoje como ontem, continua a dividir a sua vida entre Coimbra e a Tocha. “Não passo sem lá ir, está nos meus genes ser gandarês”.

Tinha 18 anos quando chegou a Coimbra, para estudar Engenharia Electrotécnica. “Por influência do casal que me acolheu na cidade – uns segundos pais – e também porque eu tinha muito jeito para inventar engenhocas e para arranjar, cirurgicamente, as coisas”. Manteve até hoje o gosto pelas inovações e tem ainda o hobby de reparar tudo o que se estraga. Pelo caminho viria a ficar a licenciatura em Engenharia, curso que acabou trocado pelo de Medicina, depois de José Tereso ter voltado, diferente, da tropa.

A guerra, outra escola

Com 20 e poucos anos, José Tereso era apenas mais um entre os milhares de jovens portugueses que, então, deixaram de ser rapazes para virarem soldados. Escapou, por um triz, à Guerra Colonial, mas não se salvou da tropa, em 1970. “Foi uma época muito difícil da minha vida, mas que me mostrou a realidade da vida e a dificuldade de quem é preparado para ir para a guerra”.

Ao ser um dos melhores na formação, a nível nacional, acabou por ficar a dar instrução em Portugal, escapando ao palco do conflito, nas antigas colónias portuguesas. “Fui preparado para a guerra, depois fiquei a preparar gente para o mesmo”, revive, com alguma mágoa. Passou pela Escola de Mafra, pela de Santarém e pela de Santa Margarida. “Em Santarém era o quartel-general do general Spínola e tive também o privilégio de privar com o capitão Salgueiro Maia”, recorda.

Lembranças que não amenizam a dureza das memórias que sobraram. “Perdi muitos colegas e muitos amigos morreram. Um deles, da Figueira da Foz, acabou morto pelas sentinelas do aquartelamento”. Um problema de saúde foi o seu passaporte para a vida normal, em Outubro desse ano. “Foi um percurso curto mas muito intenso. Foi uma grande escola que me fez ver que, afinal, o meu velho [o pai] tinha razão”. Começava então a vida nova de José Tereso. “Alterei a minha vida significativamente. Percebi que tinha de estudar e de trabalhar”.

No coração da revolução

“Voltei e assumi que não tinha tempo a perder”. Foi então que escolheu seguir Medicina, também por ter em si “uma vontade enorme de servir os outros”. Coimbra e a Academia viviam ainda no rescaldo do ponto alto da “crise académica” iniciada 17 de Abril de 1969, dia do grito de revolta dos estudantes amordaçados pelo poder, na inauguração do edifício das Matemáticas. “Assisti, mas estava lá por acaso, não como activista”, esclarece José Tereso.

“Era um jovem no coração da revolução. Em Coimbra vivi o Maio de 68 de Paris e, depois, o Abril de 69, na cidade, mas sempre de forma quase inconsciente. Não tinha noção do que estava a acontecer e a única regra que me impunham era que estudasse, por isso não tinha como incorporar a agitação estudantil”. Um pragmatismo que se acentuou ao regressar da tropa. “Sou idealista e sonhador mas também muito pragmático. Ou seja, se entrara em Medicina era para ir às aulas, não tinha que me preocupar com política”. Por isso, nos quatro anos de luto académico, optou por lutar pela sua independência. “Apenas queria seguir o meu caminho”. E foi o que fez.

Viveu, depois, o 25 de Abril de maneira igualmente prática. “Foi muito importante e fiquei muito feliz, mas fiquei sobretudo à espera que viessem melhores dias, na esperança de que não morresse mais gente inocente numa guerra”. O ano de 1974 marcou-o sobretudo porque, em Setembro, veio a casar com a mulher amada, a irmã do melhor amigo. “Casei no dia 7, tinha 27 anos”, precisa, a sorrir.| Ana Paula Cardoso

 

 

O arrulhar de uma paixão

Como fundador ou Presidente, sendo membro ou sócio, são dezenas as entidades e associações a que José Tereso está ligado, em particular nas áreas desportiva e social. “A minha preocupação extra-profissional é sempre comunitária”, assevera. Uma dedicação que tem expressão máxima na columbofilia, a grande paixão da sua vida.

Columbófilo desde pequeno, altura em que o facto de ser óptimo velocista o levou a ajudar o tio na modalidade, alimenta, desde menino, um imenso amor pela Natureza, pelos animais e, particularmente, pelas aves. “Ser-se columbófilo é ter uma paixão por uma ave que é o ser vivo mais fiel à família”, explica. “O cão é o animal mais fiel ao Homem, o pombo-correio é-o à família. Volta sempre a casa, ao pombal, mesmo deixado a mais de mil quilómetros de distância”.

A resistência, a velocidade e o sentido de orientação destas aves, que chegam a conseguir atingir os 120 quilómetros por hora, são características destacadas por José Tereso, presidente das Federações Nacional (FPC) e Internacional (FIC) de Columbofilia. “São características instintivas que, depois, são treinadas para a competição”, ensina o columbófilo, com um pombal na Tocha. “Tenho 150 pombos-correio e conheço cada um deles”.

Ser um bom seleccionador, saber treinar e cuidar das aves são requisitos de alguém que queira seguir este desporto, que a nível nacional envolve mais de 13.000 famílias. Ser columbófilo, entendendo nisso a arte de criar e cuidar dos pombos-correio, implica “saber alimentar, tratar, vacinar, dar banho, desparasitar e tantas outras coisas…”. É, como qualquer paixão, uma espécie de vício, num misto de alegria e ansiedade, alimentado pelo arrulhar incessante das aves.

Mira, capital mundial da columbofilia

Ligado à Federação “desde o ‘25 de Abril da Columbofilia’, em 1986, ano em que se trouxe a Federação de Lisboa para Coimbra”, José Tereso tem procurado dar uma vertente social à modalidade, introduzindo-a em escolas, infantários e em centros de tratamento de toxicodependências. “O primeiro pombal num infantário foi no dos SASUC [Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra], graças ao Luzio Vaz. Foi um sucesso, com os meninos a comunicar uns com os outros através dos pombos”, exemplifica, na certeza de que cuidar destas aves pode ajudar a ocupar, saudavelmente, o tempo e a mente.

Já como Presidente da Federação Internacional, pretende “torná-la num desporto cada vez mais moderno, numa espécie de ‘columbismo’, como o atletismo ou o hipismo”. Para já, José Tereso já conseguiu transformar Mira na capital mundial da modalidade: “Mais de 700 mil famílias de columbófilos, no mundo, sabem o que é Mira. Quando me vêem, é a primeira palavra que dizem e não Portugal”, graceja. Em Julho do próximo ano, a vila vai acolher o Campeonato Mundial de Columbofilia 2011.|APC