No centro de Coimbra, paredes meias com a Praça da República, habita uma colónia de anfíbios muito especiais. A população de sapos-parteiros do campo de futebol do Parque de Santa Cruz foi visitada, no dia 17 de Outubro, domingo, por 40 pessoas, das mais variadas idades, que partilhavam um objectivo comum: saber mais sobre estas peculiares criaturas.

Não atingem mais de cinco centímetros mas são a prova de que também os sapos “não se medem aos palmos”. São caso único na Natureza por alguns padrões de comportamento especiais, sendo o mais distintivo de todos eles o seu original processo de reprodução.

José Miguel Oliveira, biólogo e guia do Programa “Trilhos”, promovido pelo Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, explica que os sapos-parteiros “apresentam um conjunto de características únicas no Reino Animal. São os pais que tomam conta da sua prole, durante cerca de um mês, ao contrário da maior parte das espécies, em que há um cuidado mais da parte da mãe. No caso dos anfíbios é mais raro ainda porque nem sequer há cuidados parentais, as fêmeas libertam os ovos na água e os machos fecundam-nos, deixando-os abandonados à sua sorte”.

Outra característica invulgar do pequeno anfíbio é o ruído que emite, totalmente diferente do habitual coa-xar, e que se assemelha a um assobio. As fêmeas respondem ao chamamento do macho, com o seu próprio assobio, o que também é pouco comum nos restantes indivíduos desta classe. Além do mais, o sapo-parteiro reproduz-se em meio terrestre, onde o macho recolhe os ovos após a fecundação, transportando-os junto das patas posteriores até ao iminente nascimento dos girinos, momento em que liberta o seu “tesouro” na água.

Sapos, girinos, e um convidado inesperado

Este “Passeio com os Sapos-parteiros”, que inicialmente estava previsto para 20 pessoas, superou amplamente as expectativas da organização, já que contou com o dobro dos participantes, de todas as faixas etárias, com especial destaque para as crianças que convenceram os pais a passar um final de manhã de domingo diferente. O tempo ajudou, com o sol a brilhar e nem vestígios de nuvens.

Cláudia Duarte, de Coimbra, foi uma das mães que decidiu participar na iniciativa, juntamente com as duas filhas, Inês, de sete anos, e Raquel, de quatro. A curiosidade das pequenas juntou-se ao interesse da progenitora, que considera “o tema engraçado para as crianças. Elas acharam piada ao nome do sapo e à fotografia em que o viram com os ovinhos, e é uma excelente oportunidade para que lhes seja transmitida alguma informação científica a que se junta um programa em família, na Natureza”.

Inês, a mais velha das duas irmãs, queria “ver os ovos do sapo” mas, ao contrário do que tinha dito José Oliveira na palestra de apresentação do animal, não os acha “nada bonitos, até são um bocadinho feios”, apesar de “fazerem um som engraçado”. No campo de futebol do Parque de Santa Cruz, por alguns conhecido como Jardim da Sereia, miúdos e graúdos deliravam com os girinos, os pequenos sapos e alguns convidados inesperados que decidiram dar um “ar da sua graça”: salamandras de vários tamanhos.

Para o biólogo e guia deste encontro com o sapo-parteiro, esta é uma iniciativa que “permite divulgar informação sobre a espécie e dar a conhecer este anfíbio. Geralmente as pessoas não são fãs destes animais, há uma série de mitos associados a eles que acabam por prejudicá-los. Assim, aproveitamos para melhorar um pouco a imagem deles, explicando a sua ecologia e biologia, já que muitas das ideias que temos sobre estes animais são erradas”.

Esta é uma espécie que se encontra protegida, sendo a população do campo de Santa Cruz talvez a única no País em ambiente urbano. O Projecto Alytes, vencedor da edição de 2001 dos Prémios Ford para a Conservação da Natureza, pretende preservar essa colónia de sapos “adeptos do futebol”, que ocupam há várias décadas aquele espaço. Dada a elevada adesão a este “Trilho”, o Museu da Ciência irá organizar novas visitas, uma por mês, em Novembro e Dezembro.  | FC