Carlos Alberto dos Reis Ribeiro nasceu em Ourentã, Cantanhede, “na longínqua data de 15 de Dezembro de 1959”. Desde cedo soube que haveria de ser médico, nunca se tendo imaginado a fazer outra coisa. Outra certeza que o tem acompanhado ao longo da vida é a impossibilidade de viver sem a Ourentã e Cantanhede, terra amada que assume ser parte integrante de si.
Dos seus tempos de menino, passados em Ourentã, guarda as melhores recordações. Assume ser aí, nesse pequeno lugar que o viu nascer, ser criança, crescer e fazer-se um homem, que radicam algumas das suas memórias mais felizes. “Eram tempos agradáveis, passados em jogos constantes com os amigos, com muita amizade e alegria, com um à-vontade enorme. Fazíamos tudo com uma naturalidade e tranquilidade formidáveis, fosse dia ou noite, sem quaisquer receios ou preocupações”, recorda.
Apesar das horas gastas entre livros e cadernos, ou entre jogos de futebol e passeios de bicicleta, sobrava sempre tempo para ajudar em casa, na lavoura, até porque os tempos eram outros, difíceis, em que muitos tiravam da terra e da enxada o seu sustento: “Estamos a falar de uma zona rural, a agricultura tinha uma grande expressão. Era preciso trabalhar muito no campo e os recursos das famílias eram bastante limitados, de modo que havia o hábito de aproveitar aquilo que hoje poderia ser chamado de trabalho infantil. Eram tarefas que fazíamos com agrado, com divertimento, até”.
Ficaram as memórias mas também a experiência, pois que ainda hoje se diz capaz de cuidar da videira, “desde a poda até à empa, incluindo a sulfatação e a cura. São coisas que hoje, olhando para trás, penso terem constituído uma mais-valia na minha educação. Por um lado, porque me desenvolveram a noção do que é o trabalho, um sentido de responsabilidade, por outro faz-nos respeitar o trabalho, nosso e dos outros”.
Da aldeia para a cidade
Com catorze anos, então a frequentar o quarto ano do Liceu, ocorreu um acontecimento atípico. Saiu de casa como se de mais um dia de escola se tratasse, mas o 25 de Abril de 1974 não haveria de ser apenas mais um dia, foi o dia da Revolução, dia que marcou o início de um período de mudança em Portugal. “Fomos para a escola e penso que ainda tivemos a primeira aula da manhã. Então surgiu um rumor muito grande, estava a acontecer algo em Lisboa que não se sabia muito bem o que era. Dizia-se que envolvia militares, portanto foram dadas instruções para que regressássemos a casa e permanecêssemos junto das nossas famílias. Houve muito receio de que pudesse estar a acontecer algo semelhante a uma guerra civil, havia um desconhecimento quase total do que se estava a passar, se era algo bom ou mau. Até que viemos a saber que era o 25 de Abril, com toda a alegria e esperança que trouxe”.
A Revolução trouxe liberdade de escolha a muitos, a outros tantos deu a oportunidade de sonhar com outros voos, mais altos. Para Carlos Ribeiro, o ampliar do leque de opções quanto ao futuro a seguir não fez qualquer diferença, desde cedo sabia que o seu destino era ser médico. “A Medicina é a história da minha vida, sempre quis ser médico. Não sei porquê, não encontro explicação para uma paixão tão intensa e tão precoce. Relaciono com um episódio que aconteceu tinha eu seis anitos e que me valeu umas palmadas da minha mãe. Andava com uns amigos a brincar com um móvel que decidimos fazer de ambulância. Naturalmente o móvel não ficou em muito bom estado e fui repreendido por isso. É uma recordação que guardo até hoje com ternura”.
Para que o seu destino se cumprisse, cursou Medicina na Universidade de Coimbra. O seu sonho estava mais perto mas a Ourentã, o seu refúgio da infância, ficava agora mais longe. “Nos meus verdes anos de chegada a Coimbra experimentei uma mudança muito grande. Vinha de um meio pequenino que é a Ourentã, de um meio pequeno que é Cantanhede, e de repente caí numa grande cidade, enfim, senti esse choque mas que ultrapassei com grande alegria e com a companhia dos colegas. Coimbra é uma cidade única para receber estudantes”.
A beleza dos primeiros sons
Quando lhe eram exigidos sacrifícios e esforços suplementares nos estudos, os inevitáveis períodos de clausura que antecedem os exames, submeteu-se de bom grado, sem nunca perder de vista “a luz ao fundo do túnel”, neste caso a concretização do seu desígnio de ser médico. No entanto não rejeitou oportunidades de se divertir quando estas se lhe apresentaram: “Cedo descobri que há tempo para fazer tudo desde que cada coisa seja feita a seu tempo. Quando era para estudar, estudava de alma e coração. Quando era para a farra, também ia para a farra de alma e coração! Por vezes, o desencontro entre o objectivo pretendido e o objectivo alcançado resulta da incapacidade de perceber, desde logo, que há tempo para o trabalho e tempo para a diversão”.
Terminado o internato geral do curso de Medicina, segue-se a escolha da especialidade. A Otorrinolaringologia já se havia configurado na mente do jovem médico como o caminho a seguir: “Sentia uma grande atracção por uma especialidade cirúrgica, nomeadamente em que houvesse a componente da microcirurgia. Fazer cirurgia é muito bonito, fazer cirurgia ao microscópio é ainda mais bonito. Dentre as poucas hipóteses que se me afiguravam, a otorrinolaringologia era do meu especial agrado”.
Há mais de vinte anos que exerce no Hospital dos Covões, actualmente integrado no Centro Hospitalar de Coimbra, sendo, de há três anos a esta parte, Director de Serviço de Otorrinolaringologia, um dos mais conceituados do País e pioneiro na área dos implantes cocleares. “Este Serviço foi pioneiro em Portugal na introdução desta tecnologia, que foi feita pela mão dos drs. Manuel Filipe Rodrigues e Fernando Rodrigues. Foram estabelecidos vários patamares, vários marcos históricos no domínio do implante, o mais recente deles a implantação coclear em crianças com menos de um ano, em Julho deste ano. Não podia, em circunstância alguma, falar de implantes cocleares sem referir estes dois verdadeiros pioneiros e heróis desta saga”.
Restituir o sentido de audição a quem se viu privado dele, permitir que quem nunca ouviu e experimentou a sensação sonora conheça o riso dos seus entes queridos, oiça a música tocada por uma orquestra ou, simplesmente, o chilrear dos pássaros na Primavera. Para Carlos Ribeiro “o implante coclear é o ‘25 de Abril da otorrinolaringologia’, é uma revolução. São muitas as analogias com essa data histórica, que trouxe uma noção de movimento, espaço e liberdade às pessoas. É exactamente o que lhes dá o implante. A liberdade de ouvir, espaço para comunicar e a melhoria na capacidade de se movimentar. Quem não ouve está emparedado no seu próprio silêncio”. Vinte e cinco anos depois, confessa que continua a emocionar-se com os resultados.
No futuro, gostava de ver nascer um centro de implantes cocleares, que permitisse levar mais longe a ajuda prestada aos deficientes auditivos. Para já, dividem-se os dias entre Coimbra, Cantanhede, e a Ourentã. À pergunta “conseguia viver sem ir às suas origens?”, desenganem-se os que esperavam a resposta “conseguia, mas não era a mesma coisa”. “Não vivia. Ourentã e Cantanhede são, para mim, terras de paixão. Se o destino me tivesse encaminhado para terras longínquas, o meu sonho de todos os dias seria regressar à terra natal. O corpo humano é constituído por 65 a 70 por cento de água e eu sou 90 por cento de Cantanhede”.| FC



Deixe um comentário
Comments feed for this article