Fernando de Jesus Regateiro nasceu no lugar de Ermida, Mira, a 25 de Julho de 1952. Da Gândara recorda uma infância doce e feliz, recheada de brincadeiras com os amigos e do carinho dos pais e avós. Hoje, depois de uma passagem pela Administração Regional de Saúde do Centro, dedica-se, entre inúmeras outras coisas, à docência (é Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra) e aos Hospitais da Universidade de Coimbra, instituição a que preside desde 2007.

Foi no seio da Gândara que Fernando Regateiro passou os seus tempos de meninice e juventude, no lugar de Ermida, concelho de Mira. Quando lhe pedimos que evoque as memórias dessa época, os quadros que nos pinta são vivos e nítidos, como se de fotografias se tratassem: “Recordo o espaço paradisíaco que era a casa dos meus avós e dos meus pais, com um quintal enorme nas traseiras, seguido de um pinhal onde eu podia correr, brincar, saltar. Lembro o muro que me separava do meu vizinho, e que tinha que saltar para ir jogar ao ‘cheto’, brincadeira em que atirávamos uma moeda contra uma parede e ela tinha que cair dentro de um buraco, ou o mais perto possível”.

Como os tostões para brincar ao “cheto” não abundavam, entravam em jogo os botões, com as consequências previsíveis para o vestuário dos intervenientes: “Os botões não são infinitos… por vezes tinha que se arrancar um das calças. Imagine o que significava em termos de castigo, chegar a casa com botões a menos na roupa. A minha mãe tinha a mão leve, mas de vez em quando pesava. Nada de cuidado! Carinhos e amor de mãe, que elas sabem não magoar”.

Das brincadeiras e traquinices, às festas em família, em que Fernando era, por norma, o animador de serviço: “Nos dias de matança do porco juntavam–se as famílias e eu lembro-me, por ser muito vivo, de que os mais velhos puxavam por mim e eu dava-me imediatamente por achado. Saltava para cima da mesa e começava a fazer que cantava e tocava guitarra”. Expressivo, Regateiro imita o pequeno Fernando, de quatro ou cinco anos, e é como se também nós lá tivéssemos estado, numa matança do porco à moda antiga, algures no coração gandarês. Uma aldeia em que todos se davam e em que as crianças eram cuidadas por todos, acarinhadas e protegidas pelos familiares de sangue e pelos “emprestados”.

Não tendo sido uma criança difícil, por vezes inquietava-se; nem colo de mãe, nem mimo de pai tinham o condão de o tranquilizar: “Quem me quiser acalmar é dar-me marmelada. Fico logo derretido. A chucha de marmelada acabava com qualquer birra. Ainda hoje, quando vejo marmelada fico vidrado. Dou aqueles ares eruditos e civilizacionais, misturo com queijo e assim mas, na verdade, eu não vou ao queijo, vou à marmelada”.

Agricultura ou Medicina

Chegado o tempo de ir à escola, apresentou-se aos sete anos, como era habitual. Já sabia ler, escrever, contar e à “letra graúda” tratava-a por “tu”. A “letra miúda”, os textos corridos, dominou-os facilmente nos primeiros dias de escola. “Tive sempre muita facilidade nos estudos, o percurso escolar correu muito bem. Tive professores notáveis, que ensinavam muito bem e puxavam pelos alunos, sobretudo aqueles que tinham mais dificuldade. Tenho uma dívida de gratidão para com a minha professora primária”.

Finda a quarta classe, o destino era o campo, o trabalho agrícola. Por recomendação da professora, lá “ganhou” mais uns anos de estudo: “O meu destino não era estudar, era ficar a trabalhar no campo, como muitos. A professora é que disse aos meus pais para me porem a estudar, que eu tinha cabeça. Se fizesse o quinto ano podia ir para a tropa e ser furriel. Terá pensado a minha mãe que assim, pelo menos, já mandaria em alguém”.

Dados os excelentes resultados e a facilidade com que aprendia, sucediam-se os prémios de mérito. Do Português à Matemática, Fernando estava sempre na linha da frente e era o principal candidato às distinções atribuídas: “No meu primeiro ano [actual 5.º], a professora de Matemática decidiu oferecer um livro sobre a vida de Edison, o inventor da lâmpada eléctrica e, para tal, fez uma votação na aula. Mas há coisas que não se devem plebiscitar… Um outro colega teve mais votos, no entanto ela entendia que eu era o melhor aluno e deu-me o livro a mim. Aí tive uma consciência clara do que é a democracia”.

Os estudos prosseguiram e a área de Ciências assumiu-se como o caminho a seguir. Matemáticas Modernas foi o desafio que enfrentou, na alínea F experimental dos estudos liceais, e que dava acesso a engenharias e medicina. Optou pela última, na Universidade de Coimbra, onde entrou em 1971, período em que estavam suspensas as tradições académicas devido à crise de 1969.

Jornalismo, aulas e cargos públicos

Apesar da predilecção pelas ciências, o jornalismo foi uma presença assídua ao longo do seu percurso académico. “Ao longo da minha vida houve uma certa tendência para o jornalismo e a imprensa. No quarto ano do colégio fundei o jornal ‘Pirilampo’, apoiado pelo director. A história repetiu-se no liceu D. João III, onde fundei o jornal ‘O Estudante’. Eu era sempre o director, claro, mas o mais interessante era formar a equipa”.

A vida universitária de Regateiro não se esgotava nas aulas em que participava enquanto aluno, já que nos últimos anos de curso foi também monitor. Quando terminou foi convidado para redactor da “Coimbra Médica” e, anos mais tarde, para Director da Imprensa da Universidade. Uma investida pela área da comunicação que marcou o modo como se tem vindo a relacionar com os jornalistas nos cargos públicos que ocupa.

No que à carreira académica diz respeito, doutorou-se em 1990, sendo actualmente Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde é regente da disciplina de Genética. Nessa área publicou um manual de estudo utilizado em diversas instituições e assinou, enquanto autor e co-autor, mais de duas centenas de artigos científicos.

Tudo isto, Fernando Regateiro conseguiu à custa de muita dedicação e empenho: “Notei que na Universidade as coisas não eram exactamente iguais à partida, mas na chegada ao fim já eram. Notei em algumas cadeiras, sobretudo nos primeiros anos, que havia nomes que já tinham bênção e outros que não tinham. Eu não tinha bênção, de modo que tive que a ganhar com esforço, trabalho e dedicação. No fim já não havia diferença nenhuma e admito que tive uma plêiade de professores notável, que contribuí-ram para fazer este cidadão que aqui está”.

Cidadão que, depois de alguns anos enquanto Presidente do Conselho de Administração da Administração Regional de Saúde do Centro, depois de dirigir o Centro de Histocompatibilidade do Centro, de presidir à Confederação Nacional das Associações de Pais e de ter sido Conselheiro Nacional de Ética para as Ciências da Vida é, desde Maio de 2007, Presidente do Conselho de Administração dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). “Resolvi dedicar-me à coisa pública. Senti que as minhas vivências e conhecimento podiam emprestar algo, dar um contributo positivo a esta causa da administração e da gestão da saúde”.

Os vários anos de visibilidade pública não o tornaram um homem fechado e inacessível, antes pelo contrário, promoveram uma faceta de comunicador inata, uma naturalidade desarmante na forma como se relaciona socialmente, como ouve as preocupações das pessoas com quem trabalha, cena que se repetiu muitas vezes ao longo dos corredores dos HUC. Defende que não nos devemos contentar com a mediocridade e que é importante “sair do nosso casulo”, até porque “o mundo tem que se vivenciar, não se pode só importar condensado ou escrito. Isso, nitidamente, não chega”.

Quanto a desafios próximos ou projectos em carteira, é peremptório: “O futuro, a Deus pertence. A sorte constrói-se com trabalho, dedicação, honradez e perseverança. São os ingredientes que me transmitiram os meus pais e aqueles que me foram moldando. Naquilo que se faz, há mais transpiração que inspiração, é assim que se projecta o futuro. Eu sonho mas ponho muito pragmatismo naquilo que faço”. Não se detém no passado nem se deixa ficar ansioso pelo futuro, vai vivendo o presente, sempre com a certeza de que tem nos seus alunos e nos prémios que estes lhe atribuem “a maior coroa de glória de todas as honrarias”.