O imenso mar azul da Praia de Mira viu nascer David Damas, corria o ano de 1942. Quinze anos mais tarde, esse Mar Português, que tantos poetas cantaram, haveria de exercer o seu inexorável fascínio sobre o jovem aspirante a marinheiro. Desde então, muitas lágrimas se perderam na volta das marés. Quase tantas quantos os sorrisos abafados pelo arrulhar das ondas no regresso a casa.

“Era uma vida muito difícil, muito dura”. As palavras repetem-se ao longo da conversa. Ensombram, por breves segundos, o rosto de David Damas mas não lhe retiram o entusiasmo com que parte para a recordação seguinte. Começou novo nas lides do mar, tinha apenas 15 anos e a urgência em arranjar mister, em deixar de ser encargo para o pai, pois que a mãe já a tinha perdido.

“Com 15 anos fui para a Escola de Pesca em Lisboa. Fui o rapaz mais novo da Praia de Mira a ir para lá, e depois a ir para a pesca de bacalhau à linha. Tinha dois irmãos mais velhos que já andavam na faina do bacalhau e como as alternativas, por aqui, eram muito poucochinhas, segui-lhes os passos. Aqui ou se ia trabalhar para o campo ou para a arte xávega”. Lavrar em terra ou no mar, David escolheu a “Faina Maior”, como muitos lhe chamam, e seguiu caminho rumo às águas gélidas dos mares do Norte.

Os quatro meses passados na Escola ensinaram-lhe muito no que à marinharia diz respeito. O que não há cartilha ou professor que ensine são as agruras e a solidão da vida em alto-mar, a pequenez e fragilidade de um homem no vasto azul. Isso não se aprende, vive-se. E nunca se esquece. “Cheguei a pensar que morria a bordo dos barquinhos pequeninos. Não gostei da vida da pesca à linha”.

Colher frutos no mar

Por ter apenas 15 anos, David precisou de “cunha” para poder lançar-se na primeira campanha. “Tive primos e colegas que foram primeiro que eu. Fiquei tão triste que chorei, por eles irem e eu não”. Mas as lágrimas cedo secaram, e o desejo do jovem marinheiro tornou-se realidade.

Embarcou no “Viriato” já com 16 anos, um barco pequeno que demorou nove dias a chegar aos Açores, primeira escala na longa viagem até à Terra Nova, Canadá: “Apanhámos muito mau tempo pela proa. Sentia-me tão triste e enjoado que se caísse ao mar e ele me levasse nem me importava. Eu tão novo, naquele mar de Cristo… Enfim, só via mar e de vez em quando uns passarinhos, dei por mim a pensar ‘meu Deus, para onde é que eu vim?’ Nessa altura arrependi-me, mas depois passou”.

Era moço nessa primeira campanha, o que significa que, quando em mar largo, não abandonava o barco-mãe para a pesca à linha nos pequenos dóris. “Fazíamos a escala do peixe e depois salgávamos. Tirava-se a espinha, a cabeça, a língua. Ainda por cima tive azar de me calhar um capitão que era muito mau para nós moços”.

A campanha era feita entre os meses de Abril e Maio, apesar de tudo ainda muito frios, sobretudo quando era necessário passar algumas horas no dóri, pequena embarcação em madeira do tamanho de um só homem, que era arriada do navio principal, ancorado.

David Damas fez duas viagens de moço e uma terceira a arriar. Foi nessa última campanha de pesca de bacalhau à linha que teve um encontro inesperado: “Nos leitos onde pescávamos à linha via-se o fundo, os peixes a nadar. Numa dessas vezes, eu ainda tinha pouco peixe, ainda estava no dóri. Lancei novamente a linha com os anzóis e o isco para ver se apanhava mais bacalhau. Estava sentado e cantava, pois que me lembrava da minha senhora. Quando me levanto vejo um tubarão do meu lado esquerdo quase do tamanho do bote. Estava com medo mas mantive-me calmo. Comecei suavemente com o remo a tentar afastá-lo e lá foi embora. Não ganhei para o susto”.

Da linha para o arrasto

Garante que nem foi por causa do tubarão, mas assim que regressou a terra pediu para lhe ser dada dispensa da pesca à linha e seguir num arrastão. “Foi quando embarquei no ‘Santo André’, um pesqueiro com perto de 70 metros. É como se me tivesse saído o Euromilhões. Era o barco que mais pescava, mais dinheiro dava a ganhar. Ainda lá andei com dois dos meus cinco irmãos e o capitão gostava muito de mim”.

Do “Santo André” para o “Santa Isabel”, um barco-fábrica em que já não mexia no peixe, era quase como se fosse oficial e ganhava bem. “Era um bom trabalho, mas eu tinha ambição. Casei-me e queria ter uma casinha. Pensei, pensei e decidi que tinha que emigrar para a Alemanha. Tinha 26 anos e já tinha livrado à tropa e à Guerra, por isso fui”.

Mudou de país e de cenário mas manteve-se o ganha-pão. O mar continuou a ser o companheiro de aventuras e desventuras de David Damas, e assim foi por mais trinta anos. Já na Alemanha, a bordo do “Keel” (quilha), foram 22 anos de trabalho, 17 enquanto encarregado e os restantes como 2.º mestre. A faina era feita de forma diferente da de arrasto, através das redes pelágicas que iam buscar o peixe a grande profundidade.

“Apanhávamos bacalhau, sardinha arenca, cavala, biqueirão, de tudo. Chegámos a fazer 86 toneladas de cavala em 24 horas. No barco-fábrica o peixe apanhado era logo transformado e preparado para o consumo. Era um barco com 96 metros de comprido por 15 de boca [a parte mais larga]. Era uma coisa fora de série”. As viagens sucediam-se, porto atrás de porto. Mais ainda quando trocou a pesca pelos barcos de longo curso, com carregamentos de tudo um pouco, desde carros de luxo a açúcar amarelo. “Por esse mar de Cristo conheci eu meio mundo! Toda a orla costeira da Europa, América do Norte, Gronelândia, Norte de África, Haiti, Rússia, estive debaixo das torres que caíram na América”.

Ao jeito dos filmes, tinham licença para abandonar o navio e descontrair por umas horas: “Nesses portos de mar há muitos bares e muitas casas com meninas para dar um pé de dança”. Mesmo com a “senhora” em terra, à sua espera? “Nunca me portei muito mal, era só companhia para beber uma cervejinha ou dançar um bocadinho”.

Durante quarenta anos deu a sua vida ao mar, o seu suor e as suas lágrimas, mas também sorrisos e canções. O grande oceano foi seu confidente e amigo, às vezes compreensivo, outras tantas tirano. Providenciou-lhe sustento mas tirou-lhe o Natal em família. “Valeu a pena?”, perguntava o poeta. Responde o pescador: “Hoje digo que valeu a pena. E às vezes falo com o mar e digo que ainda hoje lá devia andar”.