António de Oliveira Mendes Moço nasceu a 8 de Setembro de 1935 em Berlengas, uma pequena localidade da Tocha, terra onde cresceu, casou e ainda vive. Durante 36 anos foi carteiro, de porta em porta, distribuindo cartas e entregando segredos. Até aos 54 anos viveu os dias por giros, mas em 1988 a reforma dos correios levou-o a abraçar a paixão pelo mar. Com 75 anos, António é um dos últimos pescadores da Praia da Tocha.

Vestiu, a cada porta, a pele de um amigo. Carteiro durante mais de três décadas, António Mendes passou pelas mesmas casas vezes sem conta, cruzando-se, anos a fio, com as mesmas caras. Por isso, fez dos que o esperavam a cada volta a sua família, numa vida difícil mas “muito bonita”. A reforma dos correios entregou-o à Praia da Tocha, onde se fez pescador há 22 anos. Quando deixar o mar, será o princípio do fim da arte xávega no areal.

Tinha quatro anos quando rebentou a Segunda Grande Guerra e cerca de 10 quando terminou o conflito mundial. Talvez por isso não recorde em particular os anos da infância nem brincadeiras de outrora. Se é que as houve. Cresceu “em tempos de miséria e de guerra e passou-se meio mal”, recorda. Natural de Berlengas, uma localidade da Tocha com o nome do arquipélago a oeste de Peniche, não foi, contudo, no mar –– que sempre o seduziu –  que António Mendes encontrou, em catraio, rumo para a vida.

Feita a 4.ª classe, rumou a Lisboa. Ainda miúdo era já um dos homens da “borda d’ água”. “Fui cavar para a reforma agrária, ali perto do Seixal, nas vinhas e nas hortas”. Volvidos nove anos numa vida dura e já depois de cumprida a tropa, acabou por concorrer aos CTT, numa altura em que ponderava candidatar-se à Guarda Fiscal. Acabou admitido pelos Correios, corria o ano de 1958. Deixou de ser carteiro 36 anos depois e apenas à força da reforma.

“Era uma vida muito bonita, mas difícil”. E em tudo diferente do que é hoje a profissão. “Havia muita correspondência naquele tempo, não era como é agora”. Às costas carregava, diariamente, entre sete a dez quilos. Das oito da manhã às cinco da tarde, distribuía entre 500 a 600 cartas. “Era a mala cheia, não contando com os jornais e as outras coisas”. O ofício começou em Cantanhede, onde esteve quatro anos. O centro da então vila e as freguesias do concelho eram percorridos por António Mendes dia sim, dia sim.

“Na vila andei sempre a pé, só mais tarde comecei a ir de bicicleta pelos lugares vizinhos”. Febres, Pocariça ou Outil são nomes de localidades que lhe ficaram à força de giros repetidos. Seguiu, depois, para uma zona de Leiria, distrito onde trabalhou dois anos, até ser destacado para a Figueira da Foz. E ali permaneceu até ao fim da carreira. Nada mais, nada menos do que 28 anos.

A vida num giro

“Tantos anos num giro, já viu? Aquela gente, que eu via todos os dias, já era a minha família”. Metódico no percurso, que passou a fazer de mota, António Mendes era sempre aguardado pela maioria. “Tinha uma corneta que tocava à chegada à povoação. As pessoas já sabiam a que horas passava, de manhã e à tarde, e era raro não estarem à minha espera”. À ombreira de cada porta, aguardavam-no sorrisos e lágrimas, conversas e silêncios, pedidos e lamentos. “Eu era o mensageiro. Levava notícias boas e notícias más”.

“Havia sempre uma palavra para dizer, mesmo andando sempre a correr. Mais do que o carteiro, eu era um amigo”. Para todos, sem excepção. Correr era, literalmente, a alternativa que lhe restava, num tempo em que as comunicações se resumiam aos correios e metade do país parecia estar fora. “Havia muitas cartas por causa do Ultramar, chegavam muitos aerogramas, e também porque apanhei o tempo de Marcelo Caetano, altura em que toda a gente começou a emigrar e, por isso, escrevia-se muito”.

Com o passar dos anos, o fluxo de correspondência foi, notoriamente, diminuindo. A Guerra Colonial havia de terminar e as cartas dos emigrantes escassearam. “Os que tinham partido vieram e levaram com eles os familiares. Já não tinham a quem dar notícias…”. Mesmo assim, foi sempre muito o trabalho nos quase quarenta anos de serviço. “Era uma vida dura. Acredita que no Inverno só se via o carteiro na rua?”. Os olhos de António, azuis profundos, sorriem enquanto descreve uma profissão que assumiu como se de uma missão se tratasse.

“Hoje em dia, já não são bem carteiros…”, diz, referindo-se aos que, em plena era das comunicações digitais, ainda entregam correspondência de porta em porta. “Antes fazíamos um serviço limpinho. Agora não. Então se eles [carteiros] também são trocados de tempos em tempos! Nem chegam a conhecer as povoações e depois trocam as cartas todas”, explica, benevolente.

Na mala que acarretou durante décadas – e que teve de entregar, aos CTT, no dia em que se aposentou, com a corneta com que se anunciava – António Mendes carregou pedaços de vidas, desculpas e desconfianças, zangas e saudades, perdões e despedidas. Houve cartas que leu, outras que escreveu. Mas isso adivinha-se-lhe no sorriso. “Era expressamente proibido ler a correspondência”, argumenta. Na expressão solene assoma-se um riso traiçoeiro. “Ai, que eu não posso, dizias-lhe eu, mas pediam-me tanto que eu tinha de ajudar, mesmo não podendo”. Segredos partilhados que, anos e anos depois, o carteiro continua, honrada e orgulhosamente, a preservar.

“Conheci segredos bons e segredos maus, mas guardo-os todos”, assevera. “Era uma vida linda, não tinha custos”, diz, a propósito das agruras do ofício. Mais do que mensageiro, António Mendes, era também cobrador e zelador das reformas dos mais idosos. “Ouvi muitos pedidos de ajuda. Quando as reformas não chegavam era eu que escrevia para a caixa de Aposentações e tentava reaver o dinheiro”. O dinheiro, esse que sempre o importunou. “Fazia cobranças, recebia dinheiro do telefone e de seguros. À noite andava com centenas de contos e tinha de bater tudo certo. Era muitas contas de cabeça, não podia faltar nem sobrar um tostão”.

O mar dá e leva

Aos 54 anos, reformou-se dos correios. Ficou-lhe a saudade de ser recebido em festa pelos moradores a quem levava notícias, uma ausência que viria a afogar nas marés da Praia da Tocha. “Sempre fora pescador em ‘part-time’, depois dediquei-me a isto a tempo inteiro”. É um dos últimos pescadores de arte xávega. Instalou-se por conta própria e para ele trabalha meia dúzia de homens. “Já quis parar, mas ‘os do Turismo’ não deixam, há sempre turistas e grupos que querem ver a tradição”. E lá continua a divulgar o principal cartão-de-visita desta zona, mesmo sem apoios nem retornos de espécie alguma.

“Vem-se para aqui e esquece-se da morte”, justifica. Os olhos azuis ficam-lhe mais profundos, aconchegados na tez escura de homem do mar. É-o há 22 anos. “Mas a idade não me permite ficar muito mais tempo. E tenho pena. Quando eu parar, isto acaba”. Será o princípio do fim da arte xávega no areal, que nos meses de calor continua a chamar muitos turistas. “É uma vida dura… o mar dá e leva”. Levou-lhe o amigo e sócio, faz agora dez anos. “Vi-o morrer no mar, o barco afundou-se”. Mão no peito. “Fiquei aqui com uma dor e disse que não voltava, mas tanto me pediram que não deixasse isto morrer…”.

A humildade e delicadeza de António são uma espécie de ilha na profunda galhofa do rancho de pescadores, que se junta para a “bucha” à hora do almoço. “São dias duros. Quando o mar está agitado e vejo os homens a irem para o mar, até viro as costas e fico com o coração apertado”, confessara-nos, minutos antes. Depois, António deixa-se ir na maré enchente das gargalhadas dos colegas…