Com a entrada da segunda quinzena, Agosto arrefeceu, mas três tórridas semanas bastaram para que Portugal ardesse como não ardia há cinco anos. As altas temperaturas, as mais elevadas de que há memória, surgem como uma das explicações da catástrofe, mas desengane-se quem pensa que a descida dos termómetros extinguiu o problema. Enquanto não chover, a floresta portuguesa continua a correr sérios riscos.

Ainda queimam na memória os incêndios gigantes de 2003 e 2005, e eis que surge um dos Verões mais negros desta década em matéria de incêndios. Na última semana de Julho e na primeira quinzena de Agosto, o País voltou a incendiar-se e só até ao passado dia 15, num balanço provisório, contavam-se já cerca de 70 mil hectares de terra queimada, mais do que o total registado em 2007 e 2008 juntos.

Quase todos os anos é assim. As temperaturas elevadas surgem a justificar o desastre, o discurso dos governantes recorre aos fenómenos naturais como a causa do problema e a oposição acena com as políticas fracassadas para a gestão da floresta. As autoridades apontam o dedo aos negligentes, o povo clama por castigo para os criminosos que queimam o que é de todos. No terreno, os bombeiros queixam-se da falta de condições, e quem os coordena garante que a logística melhorou e os meios estão mais sofisticados.

O Verão ainda não terminou e as descidas das temperaturas, há 15 dias, foram acompanhadas pela previsão dos especialistas de que vão voltar a subir. Para o final do ano faltam ainda quatro meses e, contas feitas, em 2010 já ardeu o equivalente a 71 mil campos de futebol de floresta e zonas verdes, algumas protegidas, um valor que fica perto dos 89 mil hectares contabilizados na soma dos 12 meses de 2009.

Casas e aldeias estiveram ameaçadas, populações em sobressalto e três bombeiros perderam a vida no combate aos fogos. Antes do Verão, Xavier Viegas, professor catedrático da Universidade de Coimbra e fundador da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI), alertava para as consequências de um Inverno e Primavera demasiado chuvosos, que se traduziram num crescimento exponencial da vegetação. Com os solos repletos de herbáceas e pequenos arbustos, as florestas transformaram-se num potente barril de pólvora. Depois, várias condicionantes se conjugaram e o pior aconteceu. Mais uma vez.

2010: um ano excepcional

A descida do mercúrio nos últimos dias traduziu-se, efectivamente, numa redução do número de incêndios, mas nem por isso Xavier Viegas, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF) está tranquilo. “Continuo muito apreensivo. Há uma aparente mudança das condições climáticas, mas, se não houver precipitação de uma forma intensa e generalizada por todo o país, não será isso que vai resolver o problema. É, claramente, urgente que chova, até porque os combustíveis demoram a responder”, explicou ao AuriNegra.

O investigador, que estuda o comportamento do fogo há mais de duas décadas, destaca que 2010 é um ano atípico e absolutamente excepcional, quer pelas altas temperaturas registadas no final de Julho e primeira quinzena de Agosto, quer, sobretudo, pelo baixo teor de humidade que os combustíveis finos apresentam. “É uma coisa absolutamente extraordinária e que não se verificou nos anos de 2003 e 2005”, realça.

Na Lousã, no Laboratório de Estudos sobre Incêndios Florestais (LEIF), um acompanhamento aturado dos níveis de humidade nos combustíveis, com recolha de elementos desde meados de Julho passado, indica que o “teor de humidade tem estado na ordem dos 10 por cento, um patamar que se mantém, e que, inclusivamente, tem descido. Nalguns dias, ronda os quatro por cento”, avança Xavier Viegas ao nosso jornal. Quer isto dizer que os combustíveis estão demasiado secos, como nunca estiveram nos últimos três anos, fazendo aumentar o risco de incêndios bem como a duração e dimensão que acabam, depois, por assumir.

Dados que explicam, igualmente, um aumento do número de reacendimentos registados este ano (cerca de 600) bem como a duração das ocorrências, com grandes incêndios a prolongarem-se durante vários dias. “Sendo a humidade tão baixa, mesmo quando os incêndios são considerados extintos há combustões residuais que se mantêm na manta morta e que são muito difíceis de detectar”. E muitas vezes sem meios adequados para um rescaldo eficaz, pequenos fogachos parecem acordar das cinzas, e o monstro adormecido reergue-se em forma de labaredas impiedosas.

Em alerta máximo

Sem querer causar alarmismos, o investigador admite que, sem chuva, Setembro e Outubro, por exemplo, podem ainda ser meses complicados em matéria de incêndios e apela à consciencialização de todos. “Sendo certo que nada há a fazer perante as condições meteorológicas, é preciso estarmos conscientes que as condições de risco continuam muito elevadas”, acautela Xavier Viegas.

“Deve-se apostar na vigilância e, por exemplo, o recurso às forças armadas pode e deve ser uma opção”, aconselha, admitindo que o estado de alerta das populações (que devem agir tendo em conta o risco que se mantém) é rigorosamente essencial para que o pior não se repita. “Infelizmente, ainda se pensa que os fogos são um problema que surge no Verão e que, depois, alguém vem e resolve. Não pode ser assim”.

Segundo os dados apresentados por diferentes autoridades, a negligência continua a ser o principal rastilho na origem dos incêndios. Por exemplo, este ano e num relatório provisório, a Autoridade Nacional Florestal (ANF) conclui que “metade dos mais de 300 fogos diários, registados na primeira quinzena de Agosto, foi causada por negligência”. Entenda-se por esta “queimas, queimadas, fogueiras e cigarros”.

O responsável pelo CEIF parece concordar. “Reconheço que exista incendiarismo malévolo, mas esse explica apenas 15, 20 por cento das ocorrências. A maioria dos incêndios deve-se a comportamentos de risco, de pessoas que decidem arriscar porque acham sempre que não acontece nada”. Xavier Viegas tem dezenas de casos analisados, de vítimas de fogos, e dá exemplos: “O emigrante que regressa na férias e vê o seu quintal sujo. É a única altura em que o pode fazer, por isso, faz uma roça e acaba por queimar o lixo. Sabe que não pode, mas arrisca, normalmente sozinho, quase às escondidas, e depois corre mal porque não tem ajuda”.

Agosto caminha para o fim, numa despedida com algumas nuvens e com temperaturas mais amenas. A chuva até tem ameaçado cair, mas, apesar de algumas gotas teimosas, os níveis de precipitação continuam “a zeros”. Não será por isso demais lembrar que o pior pode ainda não ter passado e que todo o cuidado continua, ainda, a ser pouco, sobretudo quando as temperaturas podem voltar a subir em Setembro.