João Evangelista Pimentel Lavrador nasceu a 18 de Fevereiro de 1956 no Seixo, uma freguesia de Mira castigada pela emigração e com forte tradição católica. Irmão de três rapazes e de uma rapariga, começou pequenino a chamar a si o papel de padre, nas brincadeiras de infância com que recriavam a ida à missa. E o sonho de ser sacerdote concretizou-se, numa carreira notável que levou a que fosse ordenado bispo há dois anos.

Fazer o melhor que pode, “como se ficasse para sempre, e sempre disponível para partir de novo”. Eis o sonho de João Lavrador, e, simultaneamente, o seu lema. Na vida como no sacerdócio. Padre desde os 25 anos e com uma carreira eclesiástica feita, quase sempre, na diocese de Coimbra, onde chegou a cónego e acompanhou a irmã Lúcia no leito da morte, está há dois anos no Porto, onde é bispo auxiliar.

A tranquilidade e a afabilidade de D. João Lavrador norteiam toda a conversa. Na casa onde nasceu, no Seixo, próximo de Mira, recorda os seus tempos de menino. Nascido e criado na Gândara, evoca uma terra marcada pela emigração, onde cedo se habituou a ver os amigos de escola “partirem para a França ou Alemanha, Estados Unidos ou Canadá”.

Dos dias da infância destaca a vontade precoce de seguir o sacerdócio. “Um imaginário que cresceu” com ele, ou não fosse esta “uma terra com uma tradição católica muito forte, onde as famílias tinham uma fé personalizada por causa da vida dura que levavam”. Com quatro irmãos, entre eles uma menina, brincavam, então, com brinquedos que eles próprios faziam, recriando, nos seus jogos, o quotidiano dos mais velhos. A ida à missa era um dos momentos que os petizes gostavam de imitar nas suas brincadeiras, e, já aí, João Lavrador chamava a si o papel de padre.

Ao compasso das lembranças, as gargalhadas acompanham-lhe o discurso. No olhar, sempre directo e algo perscrutador, baila-lhe um sorriso. Fala-nos da primária e da visita de um missionário que lhe despertou a vontade de ingressar no seminário. Aponta a vivência católica da própria família e o respeito que a vida sacerdotal merecia naquele tempo como factores que lhe acentuaram as convicções. “Nesta freguesia houve um fenómeno de evangelização, já que chegámos a ser 18 padres, só aqui no Seixo, e todos contemporâneos”, reforça.

O fim das dúvidas

Tinha 11 anos quando entrou no seminário, na Figueira da Foz. “Foi a 2 de Outubro de 1967, mas o apelo veio mais cedo”, confessa. Foi lá que transformou o seu “imaginário de menino em realidade”, e, em 1972, rumou a Coimbra, onde fez os sexto e sétimo anos. Na sede do distrito cursou e licenciou-se em Teologia, no Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET) do Seminário Maior de Coimbra, e, em 1980, foi ordenado diácono, numa altura em que estava destacado em Pombal.

Aos 25 anos foi ordenado sacerdote, em 1981, e, três anos mais tarde, regressa a Coimbra, assumindo o Secretariado Diocesano da Juventude e dando assistência ao CNE (Corpo Nacional de Escutas). Em 1990, terminou a Licenciatura Canónica, na Universidade Pontifícia de Salamanca, instituição onde, em 1993, concluiu o doutoramento, numa altura em que era já Reitor do Seminário de Coimbra (cargo que assumiu entre 1991 e 1997).

Numa década, D. João Lavrador abraça uma série de funções e assume vários cargos. Leccionou Teologia Dogmática no ISET, foi Pró-Vigário Geral da Diocese e Director do Instituto Universitário Justiça e Paz, membro do Conselho Episcopal e cónego da Sé de Coimbra e, ainda, secretário da Comissão Episcopal da Cultura, dos Bens Culturais e das Comunicações Sociais. Em 1998, assume o cargo de capelão das Carmelitas, no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, onde, durante cinco anos, privou com a irmã Lúcia, acompanhando-a no seu percurso espiritual e, sobretudo, no leito da sua morte.

“Desde a minha ordenação que digo sim a tudo o que me pedem, por princípio e por temperamento”, confidencia, algo que talvez ajude a justificar um tão preenchido percurso. Nunca teve dúvidas sobre a sua vocação? “Sim, claro que tive, tantas!”, admite, num gracejo. “Sobretudo no seminário… Afinal, somos jovens normais…”.

Terá sido depois do seminário que as hesitações tiveram um ponto final. “Tive mais, ou menos, dificuldades, mas dúvidas nunca mais voltei a ter. No momento em que me pus a questão de aceitar, ou não, o convite, que eu sabia que era Deus que me punha, questionei-me. Fortemente. E foi duro. Mas, depois, senti que a resposta era sim e decidi que ia arriscar tudo”. Tudo, para sempre.

Um convite surpreendente

Na Primavera de 2008 João Lavrador foi apanhado de surpresa, ao ser convidado para auxiliar D. Manuel Clemente, bispo do Porto desde Fevereiro de 2007. “Não contava, nem sequer alguma vez colocara essa hipótese. Senti-me pequenino…”, sublinha, de riso no rosto. Dizer sim e dar o seu melhor, “estando até ao último minuto, e sempre disponível para partir de novo, na alegria do chamamento” que surja, é, afinal, o seu modo de estar, na vida e no sacerdócio. Pelo que, perante o convite, anuiu.

Nomeado por Bento XVI, foi ordenado bispo em 29 de Junho de 2008, na Sé de Coimbra, assumindo, então, um novo desafio, igualmente presidido pela audácia, pela coragem e pela dedicação aos outros, que sempre pautaram todo o seu percurso presbiteral. Não sabe – nem considera importante – os motivos porque foi escolhido; dá, apenas, graças a Deus por ser merecedor de mais uma missão.

O balanço que faz destes dois anos de trabalho no Porto é “muito positivo”, classificando-os como “um tempo de aprendizagem”. Se vai continuar no Porto ou noutras dioceses, se virá a ser bispo diocesano ou, até, a exercer mais próximo do Papa, são assuntos que nem sequer pondera. Nos desígnios da sua fé, e na sua confiança em Jesus Cristo, D. João sabe que é um dos escolhidos e que será chamado em função das necessidades da Igreja. Nisso assenta o seu futuro. Tranquilo, profetiza: “Sei que hoje é ali, amanhã será noutro lado”.

Apóstolo do povo

Se Cristo teve os seus apóstolos, hoje são os bispos os escolhidos. Aquando a sua ordenação, D. João afirmou, na cerimónia: “Sinto a Igreja a dizer-me que o bispo é profeta, testemunha e servo da esperança”. Uma convicção que o tem acompanhado na caminhada. Com um vasto leque de funções na diocese portucalense (dividida em quatro grandes regiões), o bispo do Seixo assume, ainda, tarefas pastorais nas vigararias (arciprestados) de Ovar/Espinho, Oliveira de Azeméis/São João da Madeira, Arouca/Vale de Cambra e Santa Maria da Feira, destacando-se a pastoral dos leigos, das famílias e das vocações sacerdotais.

A visita pastoral, é o seu trabalho de eleição. “É das coisas mais bonitas que tenho, procuro estar com as pessoas e comungar das suas preocupações”. E chega a todos. Crianças e professores, empresários e autarcas, trabalhadores e desempregados, pobres e necessitados. Ir a casa das famílias visitar os doentes também o realiza: “Sinto uma alegria enorme, num exercício de proximidade e fraternidade”.

O bispo gandarês pretende ser, acima de tudo, a expressão viva do amor de Deus pelo seu povo, acabando, simultaneamente, por conhecer as diversas realidades sociais e económicas.Numa zona altamente afectada pelo desemprego, não hesita em classificá-lo “o maior e mais preocupante flagelo da sociedade actual”, com todas as consequências que dele decorrem, como a “nova pobreza envergonhada”.

Levar a ajuda da Igreja às pessoas que mais precisam e fazê-las acreditar que, juntas, têm potenciais imensos, são, agora, as suas duas grandes preocupações. Nas pausas, poucas, D. João Lavrador regressa ao Seixo, onde comunga do quotidiano da família, que sempre o apoiou incondicionalmente e em liberdade. Volta, quem sabe ainda à procura de um som que persiste na sua memória: o tilintar dos trincos dos carros de bois, ao anoitecer, e o coaxar das rãs, noite dentro.