Manuel de Sá e Sousa Castelo Branco nasceu há 46 anos em Arganil, Distrito de Coimbra, mas viveu toda a sua infância e adolescência em Cantanhede, terra do seu pai. Parte, então, para Coimbra, rumo ao Ensino Superior, onde cursa Direito. Vários anos de docência e um gabinete ministerial depois, é eleito Presidente do Instituto de Contabilidade e Administração de Coimbra (ISCAC), cargo que exerce actualmente. Cursou Direito mas podia ter escolhido a área das Ciências. Aconteceu. O Ensino Universitário, a que se dedica há mais de 20 anos, também aconteceu. Tal como a passagem pelo Gabinete da ex-Ministra da Justiça, Celeste Cardona, no XV Governo Constitucional. Retalhos da vida de um advogado e professor mas, acima de tudo, humanista. Arganil consta dos registos biográficos de Manuel Castelo Branco, afinal é o local onde nasceu. Mas é de Cantanhede, onde foi menino e cresceu, que vêm as suas primeiras recordações. “A Escola Primária de Cantanhede, Conde Ferreira, que ainda hoje lá está, e os amigos desse tempo, que são amigos que vieram até hoje. Recordo o Professor Barata, com a personalidade do professor primário à antiga”. Como qualquer criança do seu tempo, as horas do dia que não eram ocupadas a estudar, passavam a correr, por entre brincadeiras e tropelias: “Não tínhamos jogos de vídeo, nem Internet, naturalmente dedicávamo-nos ao berlinde, ao pião, ao prego, a uma série de jogos tradicionais, que recordo com saudade. Eram enormes tardes de recreio, passadas com os amigos, com os colegas”. Aos amigos, companheiros de divertimento, juntavam-se os três irmãos, mais novos. O Miguel, hoje médico, a Noémia, no Instituto Português de Oncologia de Coimbra, e o Gonçalo, um dos fundadores da Crioestaminal, empresa que se dedica à criopreservação de células estaminais. Todos escolheram Ciências. Todos, menos Manuel, que haveria de seguir as pegadas do pai, advogado. Boémia e tradição Sucedem-se o Ciclo e a Secundária, sempre em Cantanhede. Até chegar o 12.º ano, momento em que, quem pretendesse continuar os estudos, tinha forçosamente que “emigrar”. Manuel mudou-se para Coimbra, cidade dos Estudantes e da Universidade, onde completou o Ensino Secundário. Tal como o Mondego, lá em baixo, na alta da cidade o jovem de Arganil segue o seu curso. De forma natural, vem o Direito: “Gosto tanto de Ciências quanto de Direito, podia perfeitamente ter cursado na área científica. Ainda hoje leio, a título lúdico, obras sobre Física, sobretudo, mas também Psicologia, Filosofia. Talvez por influência do meu pai, é natural, mas não tenho qualquer vocação específica para Direito. Gostava e gosto, mas também gostava de Ciências, e muito”. As tradições académicas e o espírito estudantil, sempre associados a Coimbra, regressavam, a medo, após um perío-do conturbado de Crises Académicas e Revoluções. As capas negras iam saindo das sombras, os cantores afinando as gargantas, o trinar das guitarras voltava às ruas e às tabernas. “Entrei na Universidade em 1981. Apanhei o retomar das tradições, mas nada que se compare com o ambiente que se vive hoje. De qualquer forma, a maior parte do tempo era para a boémia, apesar de não haver tanto pretexto quanto há hoje”. Mais do que os copos e as guitarradas, Coimbra e a Faculdade de Direito, em particular, marcaram-no pela riqueza patrimonial, a história que se esconde por detrás de cada fachada, de cada parede. “A Faculdade de Direito é diferente de todas as demais. O peso da tradição é ali muito grande. O peso simbólico e ritualístico quase que nos esmaga. Apesar de tudo, é uma faculdade que se conseguiu manter actual, está aberta ao mundo e à mudança. O próprio facto de ter aulas naquele espaço, antigo, com séculos, mágico… talvez seja isso que marca mais. Coimbra é realmente uma cidade feita e vocacionada para os estudantes. Noutros locais, eles dissolvem-se”. Leis e aulas Do Direito realça, mais do que as leis e os códigos, a vincada vertente humanista: “É uma das grandes vantagens e riquezas do curso de Direito em Coimbra. Não nos ensina a ser técnicos do Direito, ensina-nos a ter um pensamento humanista, e isso é um ensinamento para a vida inteira”. Sempre fez por conciliar o exercício da Lei com a docência, no Ensino Superior, em Coimbra, no Porto e na Figueira da Foz, a que juntou, mais recentemente, o Doutoramento que (ainda) não completou. Afinal, quantas horas têm os seus dias? “Embora seja muito desorganizado, gosto de ter o tempo ocupado, de fazer várias coisas ao mesmo tempo. O Doutoramento é que tem ficado um pouco para trás.” A docência foi “um acidente”, uma oportunidade que surgiu, mas que hoje faz parte da sua vida, tanto quanto a advocacia, a presidência do ISCA, ou o Doutoramento. Tanto que, faltando uma destas peças, fica o “puzzle” da sua vida incompleto: “Não seria capaz de ser só um docente, da mesma forma que gosto muito de advocacia mas acredito que me cansaria terri-velmente sendo só advogado. Este equilíbrio permite-me contactar com realidades diferentes, há aqui uma relação biunívoca e comunicante”. Aos “acidentes” Direito e docência, segue-se um outro, que o levou a Lisboa durante um ano, mais concretamente ao Gabinete da Ministra da Justiça, Celeste Cardona, em 2002. “Como quase tudo na vida, aconteceu por acidente. Tive, desde muito cedo, militância partidária. O 25 de Abril aconteceu quando eu tinha dez anos, apesar disso lembro-me perfeitamente desse dia, do ‘Verão Quente’ que se seguiu [1975], de toda a construção da Democracia em Portugal. Foi tão intenso que, apesar de muito jovem, marcou-me profundamente. Daí nasceu um grande gosto pela Política. Curiosamente, dois anos antes do convite político que me levou a chefiar o Gabinete da Ministra, tinha-me desfiliado do partido”. Quanto à experiência, permitiu-lhe conhecer por dentro o aparelho judicial e a função pública, algo que marcou a forma como percepciona, hoje, as instituições e o Estado: “É um mundo completamente diferente. Para mim foi muito importante para conhecer o Ministério da Justiça e perceber como funcionam as coisas. Fiquei com uma visão precisa da Justiça e dos tribunais, e com uma ideia muito diferente da Administração Pública, que en—caro com enorme respeito. Tra—balha-se muito, há pessoas extremamente dedicadas, e que ganham muito pouco. O seu esforço e dedicação são raramente reconhecidos. Por outro lado, estando em Lisboa, fiquei ainda mais convicto da necessidade de avançar com a regionalização. Lisboa é como um buraco negro, o centralismo é brutal”. Mais princípios que causas O percurso “acidentado” fá-lo regressar a Coimbra, às aulas e ao ISCAC, instituição de ensino a que preside, actualmente, e desde Fevereiro deste ano. “O que me levou a avançar foi a consciência de que o quadro legal do ensino superior é, hoje, um quadro muito mau. As condições que são dadas às escolas são cada vez piores, o Processo de Bolonha é, no meu entender, globalmente negativo e o sub-fi—-nanciamento do ensino superior é uma realidade. Temos aqui uma quadratura do círculo. Este conjunto de condições levaram-me a acreditar que podia contribuir, melhorar aspectos ne-gativos nesta escola, dando seguimento ao trabalho dos meus antecessores, naturalmente”. Considera-se uma pessoa mais de princípios que de causas, já que as últimas podem ser descontextualizadas: “Guio-me muito mais por uma tentativa de ser coerente com alguns princípios, do que seguir causas pontuais, muitas vezes de modas. Guio-me fundamentalmente pelo personalismo e humanismo”. Passou por vários sítios, mas é perto do mar que se sente tranquilo, em paz, sobretudo na praia da sua infância, a Praia de Mira. Em jeito de brincadeira, acrescenta: “O mar é o meu Prozac”. Mais do que isso, talvez possa ser a inspiração para concretizar os planos para o futuro: Terminar o Doutoramento e melhorar a qualidade de vida dos alunos, funcionários e professores do ISCA, projectando-o publicamente”. Pelo menos até ao próximo “acidente de percurso”.