Maria Amélia da Encarnação Silva nasceu a 24 de Outubro de 1910, na vila de Febres, concelho de Cantanhede. Aos 99 anos, e em vésperas de se tornar centenária, conta já com quatro gerações de descendentes. Filhos, netos, bisnetos e trinetos coroam uma vida dedicada à lavoura e à família onde, por estes dias, “o tempo já vai passando muito depressa”.

Maria “Maia” já cá está há muito tempo. Nasceu poucos dias depois do derrube da monarquia em Portugal, viveu duas Guerras Mundiais, dias a fio no campo, namoricos ao ritmo das quadras. Uma vida de trabalho, sem vícios, passada, quase por inteiro, na Gândara. Pode não ter ido à escola, mas uma coisa tem como certa: não há terra como esta.

Foram poucos os dias da sua (longa) vida que Maria Silva não passou em solo gandarês. Recatada e de gostos simples, sempre se sentiu melhor longe da agitação e da algazarra: “Nunca andei muito por fora, a minha vida foi quase sempre aqui, na freguesia, mais retirada. Aqui nasci, aqui me criei e daqui me levarão para o destino. Quando o meu homem morreu, há 37 anos, fui ficar com um filho, que vive no Norte. De resto, tenho passado sempre aqui a minha vida”.

E se dúvidas houvesse em relação aos laços que unem Maria a esta terra, ela faz questão de as dissipar: “Esta terra para mim é boa porque é simples, quem quer trabalhar e ser honesto governa-se bem. Já quem quer ser vadio…”. À imagem da terra que tanto gaba, também a sua vida foi uma de trabalho e honestidade, às vezes doce, aqui e ali pontuada por alguns amargos.

Ao mundo deu cinco filhos, três meninas e dois rapazes. Um deles, acabou por vê-lo partir antes dela, há sete anos. As três filhas seguiram vocação idêntica, todas se dedicaram a Deus e aos outros. “Três raparigas todas elas freiras, não se casou nenhuma. Cada um tem que escolher a vocação que tiver. Eu fui convidada para ir para freira, mas não me puxava para ir… Apesar de não ir eu, acabei por dar três, e estou muito contente com isso. Elas sentem-se bem no lugar onde estão”.

Escola para poucos

Eram tempos difíceis para as famílias. Todos os braços faziam falta no trabalho, mesmo os pequeninos e frágeis das crianças. Ir à escola custava dinheiro, dinheiro esse que teimava em escassear. Se se pudesse mandar algum filho estudar, a sorte recaía nos rapazes. “Nunca fui à escola. Como trabalhava com a minha mãe, tanto nas terras como em limpezas, só lá ia quando era para limpar. Aprendi a ler letra de forma [letra de máquina, não manuscrita] porque um irmão meu me ensinou. Da minha idade, só duas meninas foram à escola. Eu gostava de ter ido, mas a minha mãe não tinha posses”. Sem mágoas, Maria vai avivando memórias, com a resignação e paz de espírito de quem sempre fez por aceitar o que a vida tinha para oferecer.

Sem segredos nem truques, segundo diz, foi vivendo. E para não sobressaltar o coração, o seu grande amor não foi à primeira vista. “Trabalhámos juntos no campo. Ele acabou por andar uns anos no Brasil, mas nem ele pensava em mim, nem eu nele. Dez anos depois, quando ele regressou, é que aconteceu. Eu tive mais pretendentes, mas não quis nenhum. Temos obrigação de escolher, se tivermos por onde escolher. Quem não tiver por onde escolher, se quiser sujeitar-se, que se sujeite”.

Do trabalho no campo, onde começou nova, com a mãe, recorda que “gostava de fazer de tudo o que fosse semear, sachar e apanhar. O que não gostava mesmo nada de fazer era malhar o milho. Quem tinha criados era a primeira coisa que lhes mandava fazer, assim, lá ia eu”. Para aqueles que nunca trabalharam no campo, fica o recado: “Quando tínhamos que andar a cavar com a enxada nas vinhas, não tínhamos vontade de cantar, não. A cantiga era outra! Quando se apanhava e descamisava o milho, aí talvez já cantasse uma canção”.

Noitadas de outros tempos

O trabalho duro e desgastante do campo pedia momentos de descontracção. Ao início da noite, juntavam-se no largo da Igreja homens e mulheres que, acompanhados por ranchos fol-clóricos, davam início à “noitada”. “Eram rapazes e raparigas, casados e solteiros. Qualquer pessoa podia ir dançar e cantar. Eu não, nunca fui grande dançarina, não tinha vocação”.

Podia não ter vocação para a dança, mas ainda assim conseguiu arranjar “par”. Regressado do Brasil, o amigo de outros tempos foi conquistando lugar no coração de Maria Silva. “O meu marido era cozinheiro, trabalhou dez anos na casa do Bispo de Aveiro. Depois também fazia casamentos e baptizados, a época alta na Curia, jantares em restaurantes. Cozinhava que era uma maravilha, às vezes também cá em casa, mas para descansar da sua arte gostava que fosse eu a cozinhar. Não era por ser meu homem, mas era muito boa pessoa. Sabia onde tinha o nariz”.

Fosse pelo arroz de cabidela dos domingos, ou pela sopa caseira com presunto, a saudade espreita nas palavras de Maria. Um casamento feliz, uma vida em pleno. “Nunca pensei chegar a esta idade. Foi uma vida de trabalho, sempre cumprindo as minhas obrigações. Há pessoas que querem paz, mas nem a procuram nem a dão. Eu sou uma mulher de fé. Isso ajudou-me a viver uma vida saudável e equilibrada”.

Uma pessoa muito respeitada em Febres, alegre e bem-disposta, foi “Filha de Maria”, um grupo de raparigas solteiras que se juntavam para limpar igrejas abandonadas, e pertenceu à “Conferência São Vicente de Paulo”, que se dedicava a auxiliar quem mais precisava: “Havia muitos pobres naqueles tempos”.

Não havendo segredo para tamanha longevidade, fica a ideia de que quem dá aos outros, recebe em dobro. Em tempo de santos populares, Maria Silva despediu-se do AuriNegra com a mesma boa disposição com que nos recebeu: “Santo António milagreiro / Vem fazer um milagre: / Tornar em açucareiro / Este frasco de vinagre”.