Respondeu ao apelo do mar e passou uma parte da vida a bordo de navios. Ano após ano, campanha após campanha. Até ao dia em que, exactamente como havia começado, largou o ofício, duro e cruel, que já só existe na memória dos mais antigos: a pesca do bacalhau.

Fernando Almeida, 65 anos, vive em Febres há 40, onde casou. É hoje empresário da construção civil, depois de uma vida cheia e na qual podia ter seguido diversas profissões. Filho de agricultores, não gostava da lavoura, por isso aprendeu carpintaria, apesar da sua grande paixão ser a mecânica, um amor que deixou por consumar.

Foi também moliceiro, no barco do pai e com o irmão. Na Ria apanhava moliço com que os pais fertilizavam as terras arenosas da Gândara. Algures entre Mira e Vagos surgiu-lhe o primeiro chamamento do mar.

Começara a década de 60, viviam-se em Portugal os tempos áureos da “faina maior”, muito promovida pelo Estado Novo. Fernando Almeida, na fogosidade da juventude, valeu-se dos conhecimentos de moliceiro, tirou a carta marítima e pediu ao pai para ir para a pesca do bacalhau.

Num navio aos 16 anos

Foi-lhe atendido o pedido. Fernando Almeida optava por uma uma vida de sacrifícios e de perigos. Tinha apenas 16 anos e o atrevimento e a insensatez que caracterizam a juventude.

“Fui quase por uma brincadeira, sabe?”, conta-nos. E hoje, na sabedoria dos seus 60 e tal, ri-se das circunstâncias de então. “Eu via o sucesso que tinham os outros tipos que andavam na pesca do bacalhau. Quando chegavam a terra, conseguiam as mulheres todas dos bailaricos, e eu queria ser como eles…”.

O ex-pescador fala-nos com um brilho nos olhos, num tom de quem aprendeu a viver à procura de encontrar oportunidades na adversidade. Embarcou pela primeira vez no “Capitão João Maria Vilarinho” (de uma empresa da Gafanha da Nazaré), corria o ano de 1961. Foi a sua estreia num navio, ainda de pesca à linha, pouco antes de surgirem os arrastões que poriam fim a este método usado na pesca longínqua do bacalhau.

O estágio num “dóri” solitário

É certo que Fernando Almeida partiu num navio. Ele e mais 160 homens. Mas pescar à linha significava passar a maioria das horas, de dias infindáveis de trabalho, num pequeno e frágil “dóri”. Do “Capitão João Maria Vilarinho” saíam sempre 140 pequenas embarcações, atingindo (entre o navio-mãe e uns dos outros) distâncias de largos quilómetros.

No seu “dóri”, sozinho e inexperiente, Fernando Almeida atirou pela primeira vez as linhas, para, ao alá-las, ter grande surpresa: não reconhecia o peixe que pescava. Restou-lhe devolvê-lo à água e ser içado a bordo sem um único bacalhau. O erro, percebeu-o já no porão…

Hoje, à luz de uma conversa que acontece 49 anos depois, Fernando Almeida não segura a gargalhada: “Veja bem como eu era inocente! Só conhecia o bacalhau já seco, pelo que pensei que era um peixe espalmado…”.

Fernando Almeida aprendeu a cair antes de ter aprendido a voar, e, talvez por isso, foi o segundo melhor pescador dos “verdes” a nível nacional, em virtude das quantidades que conseguiu pescar nesse ano da sua estreia.

(Re)nascer no mar

De moço verde passou a maduro e, a bordo do navio-mãe (onde iam para dormir, poucas horas, e para comer), aprendeu as actividades relacionadas com a preparação do bacalhau: o trote (amanhar o peixe), o partir cabeças e a escala (tirar a espinha). Foi escalador, salgador e, ocasionalmente, redeiro. Mas foi sobretudo pescador à linha, numa quase “casca de noz”.

“Era uma vida rude, mas eu gostava”. Confirma que teve muitos sustos no mar e que, na imensidão de águas profundas, escapou por um triz ao pior: “Voltei a nascer, algumas vezes no mar”. No seu “dóri”, sempre guiado apenas pelo instinto, teve a companhia de baleias, avistou esquimós e perdeu-se no nevoeiro cerrado que lhe roubava o norte…

Foram três anos em campanhas de seis meses, aliviadas pontualmente por uma ida a terra, de 40 em 40 dias. Carregar o navio e regressar com vida norteavam os dias, que não conseguia distinguir, passados sobretudo nas águas da Terra Nova e da Gronelândia.

De mar em mar

Dias iguais às noites, sem grandes condições, onde a semana se contava com a comida: “Todos os dias comíamos bacalhau, com feijão-frade e grão-de-bico, à excepção do domingo e da quinta, altura em que o comíamos com batata cozida”. E, então, pouco importaria saber se era, ou não, domingo…

Andou nove anos no bacalhau. Ao “Capitão João Maria Vilarinho” seguiu-se o “Navegante”, um arrastão em que pescou cinco anos. Os mesmos mares, o mesmo pescado, mas outros métodos e outro cargo. A pesca à linha acabara e, no “Navegante”, Fernando Almeida foi, por mérito, timoneiro.

A ponte de comando substituiu o antigo “dóri” e, nesta faina, as preocupações foram outras. Começava a década de 70, e Fernando Almeida deixou o mar e a pesca, por uma série de circunstâncias. E por orgulho…

“Eu recebia sempre o meu ordenado e um envelope com um extra, pelas tarefas que tinha a bordo. O patrão morreu e a patroa tirou-me o ‘envelope’”. Já era um homem, tinha 26 anos e a determinação de um rapaz que crescera no mar. Hoje tem pena: “Se não fosse isso, tinha continuado sempre… eu adoro o mar”.