São já 31 anos dedicados ao fabrico do bolo de Ançã, o bolo da sua terra. Maria do Rosário Seixas produz 40 unidades por dia, sozinha e à moda antiga. Do forno a lenha utilizado por sua mãe para cozer broa, onde aos 19 anos cozeu a primeira fornada de bolos “a sério”, ainda recorda os aromas doces, de fazer crescer água na boca.


 

Maria do Rosário começou nova, quando a curiosidade ainda vencia muitas vezes as obrigações, a visitar a casa da sua vizinha. Tinha 14 anos quando conheceu de perto, pela primeira vez, o processo de fabrico do bolo de Ançã: “Tinha uma vizinha que fazia bolos e eu, com 14 anos, ia para casa dela, para pincelar a parte de cima dos bolos. Ela disse-me que um dia me havia de ensinar a fazer a massa de raiz. Aos 16, ainda com ela, comecei por amassar aos três quilos de massa de cada vez. Aquilo ainda custava… Ela ia dando as indicações e eu ia fazendo. Depois era meter no forno e esperar”.

Depois de uma breve passagem por Coimbra, onde trabalhou “em casa de senhoras durante algum tempo”, acabou por voltar a sentir o apelo doce dos dias passados na cozinha, em casa da sua vizinha. “Decidi experimentar o fabrico do bolo de Ançã no forno em que a minha mãe cozia a broa. Os primeiros não sairam muito bem, mas depois foram sempre melhorando. Hoje ainda sou eu que os faço, sempre sozinha”.

Acordar com as galinhas

São 40 os bolos que saem do forno artesanal de Maria do Rosário diariamente. Levanta-se às 5h00 para preparar a massa que, por levar pouco fermento, fica cerca de cinco horas a levedar. Por volta das 10h00 aquece o forno e lá para as 13h00 estão prontos os deliciosos bolos. É hora de levar a mercadoria para o ponto de venda, num dos cruzamentos da EN234-1 na zona de Ançã, perto da saída da auto-estrada A14.

Depois, é esperar que o apelo do bolo recém-confeccionado faça parar os automobilistas que por ali passam. No estabelecimento a céu aberto vão-se contando as horas e os bolos que ainda falta vender. E nem a chuva, que toda a tarde ameaçava cair, teria feito Maria do Rosário arredar pé. “É uma vida difícil mas já estou habituada a estar aqui tantas horas. Quando faz frio ou chuva, tenho a minha ‘tenda’ preparada com o chapéu e o corta-vento. O problema maior ainda vai sendo a lenha, ter que a apanhar. Se fosse forno eléctrico era tudo mais fácil”. Mas o sabor, esse, dificilmente seria o mesmo.

Amor à camisola

Que é uma vida difícil, Maria não nega. Há 31 anos que se dedica a estas lides e acredita que a geração seguinte não lhe vai seguir as pegadas: “Os meus filhos são formados e não querem saber disto”. Amargos de boca não lhe conhecemos, até porque o negócio vai dando para viver, faz o que gosta e já não se imagina sem esta rotina, dura e difícil, mas reconfortante. “Aqui há dias fui a uma excursão e só conseguia pensar nos bolos. Já não me vejo sem isto. É para fazer bolo de Ançã até morrer”.

E para que o seu negócio não fique sem alma, o segredo não nos revela: “O bom bolo de Ançã tem um segredo que eu não posso divulgar. Está na massa e nas mãos… E mais não digo!”.