Mais ou menos violentos, em plena luz do dia ou durante a madrugada. Discretos ou com tiros à mistura, executados por ladrões encapuzados ou de cara descoberta. As notícias de roubos a ourivesarias, ou de tentativas, são praticamente diárias e os profissionais do sector vivem em permanente estado de alerta.
Meio-dia de terça-feira, 27 de Abril. Alta de Coimbra. Dois homens chegam de moto e, sem retirarem os capacetes, entram numa ourivesaria na zona de Celas. Um deles tem uma pistola e ameaçam a funcionária, sozinha na loja.
Num saco, levaram o máximo de jóias que estavam à vista, e fugiram na mota em que chegaram. Foram menos de cinco minutos, sem estragos no estabelecimento, mas as contas ao roubo revelaram prejuízos avultados.
Quatro dias antes, 23 de Abril, tarde de sexta-feira. Emí-dio P., ourives natural da Chorosa (Febres, Cantanhede), al-moça num restaurante de Minde, localidade onde já teve uma ourivesaria aberta e ainda mantém uma casa, onde vai com regularidade. É o único cliente, numa refeição tardia, quando três indivíduos entram no estabelecimento.
Pistolas em punho, caras a descoberto, exigem ao ourives a pasta que tem com ele. Emídio resiste. É imediatamente agredido à coronhada, na cabeça, e baleado numa perna. Os ladrões fogem com a pasta do dinheiro e desaparecem, sem rasto, num carro estacionado à porta do restaurante.
“Antes que acabem connosco!”
Ainda em recuperação e visivelmente combalido, depois de operado e do internamento no Hospital de Abrantes, a vítima revelou ao AuriNegra que os prejuízos são elevadíssimos. Actualmente proprietário de duas ourivesarias em Santarém, tinha com ele, na pasta, não só o apuro das lojas mas uma quantia de dinheiro que levantara para fins pessoais.
Na casa dos 70 anos, Emídio P., que partiu de Febres para se estabelecer no norte do Ribatejo há cerca de quatro décadas, está agastado. Em virtude das dores da cirurgia e das da revolta. “Alguém acabe com o ouro antes que eles [ladrões] acabem connosco”, desabafa o ourives.
Foi o segundo assalto ao longo da sua vida e bastar-lhe-ia, agora, para que pusesse fim ao ofício. “Se eu não tivesse dois filhos que também trabalham no ramo acabava com isto de uma vez!”.
As autoridades estão a investigar o caso; a Polícia Judiciária de Leiria já tem na sua posse a bala que foi disparada. Nada que crie expectativas ao ourives, que não acredita que algum dia os responsáveis pelo seu infortúnio paguem pelo que fizeram.
“Não há Justiça”
“O medo está instalado”. Quem o garante – e lamenta – é António Pereira dos Santos, Presidente da Associação Nacional de Ourives e Relojoeiros (ANOR). Fundada em 2007 com o propósito de preservar o património e as memórias dos ourives e dos relojoeiros (nomeadamente os da zona de Cantanhede, com grandes tradições nesta actividade), depressa se viu confrontada com o crescente clima de insegurança que ataca o sector.
Já há dois anos, numa ini—ciativa conjunta com outras associações nacionais, a ANOR, sediada em Febres, expôs o assunto ao Ministro da Administração Interna. Mas, e desde então, pouco ou nada melhorou. Pelo contrário: “O sentimento de insegurança que se vive é muito grande, porque as pessoas sentem que não há Justiça”.
Segundo o responsável da ANOR, o sentimento de insegurança é geral, transversal a toda a sociedade. “Mas no sector da ourivesaria acaba por ser pior, porque é uma área muito apetecível. O ouro que se rouba é, afinal, dinheiro vivo”, nota. E fácil de fazer desaparecer e difícil de desvalorizar.
A sensação de que a Justiça, em Portugal, não funciona, ou não é célere, é, na perspectiva de António Pereira dos Santos, a causa de tantos assaltos a lojas de ourivesaria, e cada vez mais violentos. “As pessoas têm de acreditar que se houver um assalto os ladrões vão presos e vão pagar pelo crime”, defende.
“Hoje sai mais depressa o ladrão da frente do Juiz do que sai o polícia da esquadra para acudir num assalto”, ironiza o Presidente, indicando como fundamental, para resolver o problema, uma mudança rápida no funcionamento dos nossos tribunais.
O princípio do fim
A ANOR, com cerca de uma centena de associados, assume-se impotente para acalmar os ecos de medo que lhe chegam, e confirma estar a haver um desinvestimento no sector: “Depois de vários assaltos, as pessoas acabam por desistir e fecham a casa”.
Na venda ambulante, por exemplo, cada vez com menos profissionais, foi exactamente a insegurança que concorreu para o princípio do fim deste tipo de ourives. Os assaltos, quase sempre violentos e sobretudo durante as viagens, têm ditado o fim da actividade.
“A ida e o regresso são de alto risco, é especialmente aí que são atacados”, confirma António Pereira dos Santos. E vai mais longe: “O ourives é um alvo a abater”. Ao contrário do que se possa pensar, há seguros para o transporte de ouro, mas “o preço dos prémios é tão elevado, e as exigências são tantas, que o lucro do negócio não comporta tamanho esforço financeiro”.
Para já, e numa altura em que os últimos dados, recolhidos em meados de 2009, apontam para a existência de 198 ourives ambulantes no activo (oriundos de Cantanhede e de Mira), resta aos homens do ofício encontrarem alternativas para resistirem com relativa segurança.