José Luís Pimentel Lavrador nasceu há 51 anos no Seixo, em Mira. Vem regularmente à terra natal, onde estão familiares e amigos. Volta porque aqui é feliz. Com um vasto currículo profissional e académico, é sobretudo conhecido (no país e no mundo) como o cozinheiro da Selecção Nacional de Futebol.

Ser cozinheiro da Selecção é apenas uma das muitas tarefas de Luís Lavrador. É um dos grandes nomes da Cozinha Portuguesa, desde sempre ligado ao ensino e à formação. Sem papas na língua, diz que prefere ser cozinheiro a ser chefe. E que a sua maior virtude é “ser extraordinariamente livre”.

Entre dezenas de fardas apressadas, na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, destaca-se a jaqueta branca do Chefe Lavrador. As aulas decorrem e o professor, ligado à instituição de ensino desde o seu início, há mais de 20 anos, percorre, sorridente, as diversas alas da enorme cozinha.

Mistura-se um cheiro a doce e a refogado; os alunos alegram-se com os elogios do mestre. Ele que nos confessa preferir ser cozinheiro do que chefe: “Sinto-me melhor como tal, sou bom nisto porque tenho muito prazer no que faço. Cozinhar é uma forma de me expressar artisticamente”.

Ministra várias disciplinas na Escola de Coimbra, cidade onde vive com a mulher e os três filhos, um rapaz de 24 anos e duas gémeas de 17. E é em Coimbra que estuda, há dois anos, na Universidade. Está a concluir o Mestrado em Alimentação, na Faculdade de Letras, algo que, afirma, lhe dá muito prazer.

Para além de professor, é consultor de eventos gastronómicos, está ligado a diversas associações e confrarias gastronómicas, é conselheiro de empresas (na área da restauração e hotelaria). “Ah, e sou pai!”, aponta, deixando claro que não descura esse papel. Às diferentes actividades extra (acções de formação, cursos, concursos, entre outras) somam-se a organização de eventos e a cozinha para a Selecção Portuguesa.

Cozinheiro por acaso

Gosta sobretudo de organizar festas e banquetes: “Por prazer. Gosto muito de fazer um ‘mega-jantar’, tipo mil pessoas. É uma adrenalina bestial. Primeiro tenho medo, quando me pedem para organizar eventos, fico para morrer… Depois, começo a pensar e a organizar-me mentalmente até que acabo por ter um prazer enorme. Fico como peixe na água”. Destaca a organização e a disciplina como características da sua personalidade, o que lhe permite ter tempo para tudo.

Com quatro irmãos, é o do meio e o único cozinheiro profissional. “Os outros [irmãos] são amadores”, graceja. E garante que não é ele quem cozinha nas jantaradas: “O que é mais fácil, jogar para um estádio cheio ou para um sem público?”, compara. O chefe Lavrador gosta de cozinhar para muita gente, “três ou quatro é muito pouco”, defende.

Tinha 19 anos quando se candidatou à Escola de Hotelaria do Porto, onde se formou. Fê-lo um pouco por acaso, depois de um amigo lhe ter dito que o futuro estava na hotelaria e no turismo, e por ser uma questão de oportunidade e de saída profissional, num tempo em que o caminho, depois do Liceu, era ou a Universidade ou arranjar emprego.

“Eu nem sabia que gostava de cozinha”, recorda, apesar de já cozinhar em casa. “Sabe que os gandareses fazem de tudo… Têm de cozinhar, de ir à escola, de varrer a casa, ajudar o pai e a mãe, tirar o leite à vaca…”, vai desfiando o cozinheiro, satisfeito com as memórias. Resolveu então experimentar.

No Porto deu-se bem, aprendeu a arte e mais: gostou dela. Dois anos de formação e foi logo convidado para dar aulas. Mas por achar que precisava de mais “bagagem”, ficou apenas um ano no ensino. Trabalhou, a seguir, num hotel emblemático de Aveiro (nos anos 80), durante seis anos, mas sempre ligado à formação: “Não tive escapatória, acabaram por ir-me buscar, abriam escolas e não havia pessoal com formação”, brinca.

Na Selecção até que Deus queira

Sempre adorou futebol. Em miúdo, no Seixo, tinha o sonho de um dia ver um jogo a sério ao vivo. Nem imaginava que um dia viria a fazer parte de uma equipa, ainda mais a Selecção. Foi convidado depois do Europeu de 1996, aceitou, e há 13 anos que partilha com Hélio Loureiro a responsabilidade de gerir a cozinha da equipa nacional.

Tem sido uma experiência única, afirma. Diz que “as palavras são fracas para descrever” o que faz e o que sente. E recorre a um exemplo: “Imagine uma família que se junta e nesse dia perdeu, e vai comer depois da derrota de um jogo importante. Ou então, imagine como é quando se ganha um jogo e se vai jantar a seguir!”.

A imagem da família é, aliás, a que mais usa para nos falar da Selecção. “É um dia normal como na nossa casa”, descreve. “Nós somos uma família. Repare: há uma hierarquia, há um chefe, juntamo-nos para almoçar, para jantar, para merendar…”.

Admite que no início era tudo muito estranho mas garante que agora é “uma rotina do quotidiano, apesar de continuar a ter uma carga emotiva muito grande”. Mais que alimentar os jogadores, Luís Lavrador diz que a cozinha serve para lhes proporcionar alegria e bem-estar, algo que faz com todo o carinho.

As ementas são definidas pelos médicos e nutricionistas da equipa, já que se destinam a atletas de alta competição, e, ao contrário do que se possa pensar, os “homens da bola não comem grandes bifes”. Pratos de bacalhau, outros à base de carne de cabrito ou borrego e refeições com peixe são, afinal, as preferências dos nossos jogadores.

Entre os seleccionados não há preferido, garante o chefe, muito menos melhores do mundo: “Somos todos iguais, da-mo-nos muito bem”. Até quando vai ficar, não sabe. “Fico até quando Deus quiser”, diz, a sorrir. “O vínculo que tenho é de jogo a jogo, é agora um vínculo mais afectivo que formal”.

Com alguma gratidão, reconhece ser muito acarinhado pelo facto de ser o cozinheiro da equipa portuguesa: “Quando sabem que sou eu o cozinheiro da Selecção há muito carinho, sinto o calor e simpatia das pessoas, cria-se logo uma empatia”.

Alma de gandarês

É, sem dúvida, um homem do mundo, mas nota-se-lhe o amor à terra. “O torrão onde nascemos é sempre aquele que mais nos cativa”, confessa. “Eu corro o mundo inteiro, mas na Gândara é que sou feliz. Vi das coisas mais bonitas que o mundo tem, vi torres e catedrais, estive no Oriente… Já vi tudo, mas não há como a casa gandaresa, o cheiro a mar, o pinhal… Aquela terra é que me atrai. Foi lá que nasci e lá sou feliz”.

Afável e simpático, de pequenos gestos, Luís Lavrador alega que não gosta de falar dele. “Posso dizer verdadeiramente que sou Homem e que o tento ser em tudo o que faço. E não consigo dizer mais que isto, interprete como quiser”.

“Sou honesto e extraordinariamente livre”, remata a seguir. E insiste: “Sou livre, livre, livre, de uma liberdade profunda, vivo no mundo como uma pomba, não tenho vergonhas, nem complexos, nem ódios”. Eis o auto-retrato de Luís Lavrador, um homem sem sonhos concretos, que apenas pretende ser “feliz no dia-a-dia, em todos os momentos feitos de pequenas coisas, um atrás do outro”.