Do pai “herdou a simpatia e o bom coração”, segundo Pedro Guerra. Já a mãe, Maria João Leal, suspeita que lhe transmitiu os dotes de atleta. Mariana Guerra tem doze anos, é nadadora da Columbófila de Cantanhede e bateu um recorde nacional que já se mantinha há quinze anos.

Um sorriso afável saúda-nos durante toda a conversa. Mariana Guerra é nadadora da Columbófila de Cantanhede e a soma de bons resultados, em diversas provas, culminou, no último fim-de-semana de Março, num recorde nacional.

A atleta de competição conseguiu uma marca fantástica (00:28:93) na prova dos 50 metros livres, na categoria Infantil B, durante o Inter-Distrital de Clubes realizado em Leiria, no passado dia 27 de Março.

Bateu assim um recorde nacional (de 00:29:22) que pertencia à atleta olímpica Raquel Felgueiras, do Sporting Clube de Braga, alcançado há quinze anos.

Enquanto a ASSSCC (Associação de Solidariedade Social Sociedade Columbófila Cantanhedense) diz que foi feita história para o Clube, a pequena nadadora confessa, com grande naturalidade, que quer continuar “a bater outros recordes, ganhando sempre até chegar aos Jogos Olímpicos”.

O sorriso mantém-se. A jovem tem doze anos e começou a nadar aos três, idade com que os pais a inscreveram apenas para que aprendesse a nadar. Mas o talento para a natação cedo veio à tona, e quem estava à sua volta apercebia-se que ali estava uma verdadeira campeã.

“Passou pelas piscinas da Mealhada e pela Municipal de Cantanhede”, contam os pais, até que, na Columbófila, “eles viram que ela tinha jeito e passou para a pré-competição. Queríamos que ela soubesse nadar para a sua formação, mas nunca imaginámos que viesse a ser nadadora de competição sobretudo ao mais alto nível”.

O factor x

Vai para quatro anos que está na competição e os pais perderam a conta aos troféus conquistados pela filha. Habituaram-se às vitórias e habituaram-se, também, a que Mariana não batesse recordes apenas por um triz.

“Muito trabalho a somar ao factor x” – é, segundo o pai, o segredo da pequena Mariana, que treina toda a semana, três horas por dia. Ao fim-de-semana, fá-lo durante duas horas ao sábado, e apenas ao domingo tem folga da preparação “muito dura e exigente”.

Mariana relativiza o esforço e apenas lamenta que, às vezes, não possa ir a algumas festas de anos, das amigas. Boa aluna, com óptimas notas em todas as disciplinas (frequenta o 6.º ano), a atleta garante que consegue conciliar todas as suas obrigações.

Diz a campeã que gosta de brincar, seja ao que for, e que quer ser médica. E acrescenta que a natação há-de sempre fazer parte da sua vida. O pai, ali ao lado, vai avisando que ela bem sabe que sai da natação no dia em que os estudos não correrem bem…

“A natação não dá futuro a ninguém, nem carreira nem suporte financeiro”, considera. “Em Portugal não, por isso, quando ela tiver que fazer uma opção será sempre a dos estudos”, reforça Pedro Guerra. Mariana ouve-o e diz que sim com a cabeça.

“Leva tudo à frente”

Vai mais longe na descrição da filha: “Ela é muito competitiva. Ganhar já é dela, seja naquilo que for. Quando ela mete isso na cabeça, leva tudo à frente, seja na piscina, seja na escola, seja nas brincadeiras”.

“Ela sabe que tem que trabalhar muito para conseguir o que quer, não é sobredotada, nem para o desporto nem para o resto”, insiste o pai. Mariana continua a acenar que sim. Não será a primeira vez que ouve o conselho paterno…

O casal, orgulhoso, olha para a filha, que nunca deixou de sorrir. A mãe, que também foi atleta na adolescência (e acabou por desistir do atletismo aos 16 anos), é professora de Ciências em Tábua, enquanto o pai é designer gráfico em Cantanhede, cidade onde vive a família, que conta com mais um membro: o pequeno Gonçalo, de seis anos.

Tentam descrever a filha… À mãe, faltam-lhe as palavras, enquanto o pai dispara: “É introvertida, mas é muito simpática. É amiga de todos e tem um bom coração”. Não herdou o jeito para a natação de nenhum dos dois, embora a mãe ache que as pernas são dela.

O pai atira de novo: “De mim, herdou a simpatia e o bom coração”. Mariana ainda sorri, agora quase uma gargalhada. “Sim, sou amiga das pes-soas e quero o bem de toda a gente”, remata. Isso, e também um dia estar nas Olimpíadas…


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