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Histórias da Gândara em madeira

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Manuel Moreira Carapito, nasceu na Lagoa de Mira, em 1925. Aos 85 anos, e depois de uma vida dedicada à floresta, o ex-guarda-florestal recria em madeira momentos e símbolos da vida gandaresa. Basta uma navalha para o escultor trabalhar aquele material e imortalizar instantes de outros tempos, que brevemente estarão expostos no Núcleo Museológico de Mira.

Numa pequena casa gandaresa, em Cabeços de Mira, há um verdadeiro museu sobre a região da Gândara. Manuel Moreira Carapito recria, em madeira, desde 1993, momentos de outros tempos. As miniaturas em madeira retratam a região da Gândara e enchem a casa do ex-guarda-florestal, que mostrou ao AuriNegra todo o seu trabalho.  As peças permanecem em sua casa à espera de serem levadas para o Núcleo Museológico de Mira (na antiga escola primária daquela vila), que está prestes a ser inaugurado.

A paixão de pegar numa navalha e em bocados de madeira e transformá-los em momentos que marcaram a vida de todos os gandareses começou só depois de estar reformado.

Actualmente com 85 anos, Manuel Moreira Carapito nasceu na Lagoa de Mira e é mais conhecido por “Neco de Pompeu”.

“’Neco’ de boneco e Pompeu de família, o meu pai chamava-se Pompeu”, explica ao AuriNegra, com a boa disposição que o caracteriza.

Após terminar a quarta classe, em 1937, o ex-guarda florestal teve uma curta passagem pelos serviços florestais, onde o progenitor já trabalhava, e esteve também empregado numa fábrica de tijolos.

“A fábrica era de uns senhores de Cantanhede. Chegava a fazer 600 tijolos por dia”, recorda.

Entretanto, e já com vinte anos, chega a altura de ir para a tropa, e só depois de cumprir o serviço militar é que Manuel Moreira Carapito abraça a profissão de guarda-florestal. Mas, até se dedicar de corpo e alma às florestas, foi ainda camionista.

“Sempre tive aquela ideia de ser também, como o meu pai, guarda-florestal. Mas antes, e logo após a tropa, tirei a carta de condução e fui camionista”, conta o ex-guarda-florestal, garantindo que com aquela profissão andou pelas estradas de todo o país.

Entretanto, e porque as saudades da terra que o viu nascer sempre falaram mais alto, Manuel Moreira Carapito aproxima-se do concelho de Mira, quando consegue arranjar tra-balho em Ílhavo, onde conduziu transportes públicos de passageiros.

“Não sou escultor”

O dia 1 de Maio de 1993 ficou para sempre gravado na memória de Manuel Moreira Carapito. Ao fim de 38 anos ao serviço da Guarda Florestal, o “gandarês de gema”, como ele próprio se caracteriza, passa à situação de reforma.

Ainda com a voz embargada, de quem não se desligou da profissão a que se dedicara durante quase quatro décadas, o ex-guarda-florestal recorda os tempos em que as florestas eram mais respeitadas e mais apreciadas pela população.

“As florestas agora estão todas abandonadas, antigamente as pessoas respeitavam-nas, mas agora está tudo abandonado. No meu tempo trabalhava-se nas florestas, a malta semeava as terras todas, agora ninguém faz nada”, relembra Manuel Moreira Carapito.

Antes de vir para o concelho de Mira, o guarda florestal foi colocado em Lamego, onde trabalhou durante seis anos num altura em que aqueles profissionais abundavam no país.

“Depois vim para o concelho de Mira, estive no Seixo, depois na Videira e vim acabar o meu percurso aqui perto dos Cabeços. É uma pena não haver agora mais guardas-florestais. Eu naquele tempo era o número 25 aqui no concelho, agora há aqui apenas uns dois ou três. As casas dos guardas-florestais estão todas abandonadas”, diz, com tristeza.

Com um “feitio especial pa-ra lidar com o povo”, Manuel Moreira Carapito refere que “no concelho de Mira, em tanto tempo de serviço, fiz um único auto”. Uma atitude que o deixa orgulhoso, por saber que sempre foi “uma pessoa respeitada e que sabia também respeitar os outros”.

Decorria o ano de 1988 quan-do, numa das rondas pelas florestas, o ex-guarda-fiscal encontra umas lâminas de fresar a terra e nasce a sua primeira peça em madeira.

“Foi este podão. Com as lâminas que encontrei fiz uns seis e fiquei com um. Foi fácil e a partir daí fui imaginando peças. Mas só quando tive tempo, depois de me reformar, é que comecei a trabalhar nisto mais a sério”, recorda, enquanto mostra ao AuriNegra todas as centenas de peças que estão espalhadas pela sua casa, tornando-a num verdadeiro museu.

Cenas do casamento à mo-da antiga, a matança do porco, os moinhos da Gândara, os agricultores a trabalhar a terra arenosa, as brincadeiras das crianças, os pescadores em alto mar, as dunas da Praia de Mira, a casa gandaresa e respectivas divisões, são realidades de uma Gândara de outrora, agora imortalizadas nas peças de Manuel Moreira Carapito, que utiliza somente uma navalha, uma faca e madeira.

“O resto vem da cabeça. Na mesinha de cabeceira tinha uma esferográfica e uma agenda e quando estava na cama e me lembrava de algum momento ou alguma figura da Gândara desenhava, para depois fazer”, confessa o ex-guarda-fiscal, que não se considera escultor e se recusa a vender o seu trabalho.

“Não quero. Não há dinheiro que pague o que aqui tenho. Agora já não faço tanto como fazia. Antes era de noite e de dia, era um vício. Agora já não, a disposição não é a mesma e não tenho mais nada que fazer. Já fiz em madeira tudo o que havia a fazer desta zona que é a Gândara”, defende.

Apesar de não as vender, as peças de Manuel Moreira Carapito já foram expostas em vários pontos do país, nomeadamente Aveiro, Calvão, Figueira da Foz, Mira e Santarém, sendo que o artista é também muitas vezes visitado por alunos das escolas do concelho de Mira e concelhos limítrofes.

Quando questionado pelo AuriNegra se tem noção de quantas peças em madeira construiu ao longo destes anos todos, Manuel Moreira Ca-rapito confessa que, inicialmente, tentou fazer esse exercício, mas eram tantas que acabou por desistir.

“São tantas que cheguei a uma altura que deixei  de contar”, afirma, ao mostrar a maior peça que já fez: o seu próprio retrato, com cerca de 1,60 metros, com a farda de guarda-florestal.

Desejoso por ver todas as suas peças expostas no Núcleo de Museologia de Mira, Manuel Moreira Carapito admite receio de as guardar na sua própria casa.

“Não faço aqui fogueiras, tenho medo de incendiar a casa. Já viu a madeira que está aqui e que de um momento para o outro pode arder? Nem quero pensar!”, desabafa, receoso.

E para quem quiser apreciar todo o trabalho de Manuel Moreira Carapito, sem ter de ir a Cabeços de Mira e enquanto as peças não são expostas num espaço adequado, pode fazê-lo através de um simples clique ao aceder ao site http://jean-pierre.cruz.neuf.fr//carapito/index.html.

Nesta página da Internet é possível ver fotos que mostram algumas peças deste invulgar escultor da Gândara.


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