Um começo de Primavera radioso ajudou no sucesso da X Feira do Bolo de Ançã, no domingo passado, com milhares de pessoas a visitaram o Terreiro do Paço, no coração da vila. Para o doce secular, que é marca registada desde Maio de 2009, pretende-se agora a certificação.
O dia esteve soalheiro e, naquela que foi a décima edição da Feira do Bolo de Ançã, uma onda de gente invadiu o Terreiro do Paço. Segundo a contagem da “Avança”, a Associação para o Desenvolvimento e Qualidade de Vida no Meio Rural de Ançã e principal promotora do evento, passaram na feira “entre quatro e cinco mil pessoas”, como afirmou ao Aurinegra André Neves, vice-presidente da associação.
Valorizar um doce secular que faz parte da tradição histórica da vila é o principal propósito do certame, que decorre anualmente no último domingo de Março, com o apoio da Junta de Freguesia de Ançã e o patrocínio da Câmara Municipal de Cantanhede.
Milhares de quilos de Bolo de Ançã (nas suas três variedades) foram vendidos durante a Feira, ‘voando’ das bancas das sete boleiras presentes, a comprovar que este produto endógeno é “um património que faz crescer água na boca”, como notou Pedro Cardoso, vereador da Cultura da autarquia.
As arruadas dos gaiteiros deram o tom à jornada que contou com um conjunto de actividades diversas: visitas guiadas à vila, passeios de carroça puxadas por burros (sobretudo para as crianças), uma exposição retrospectiva sobre as feiras já realizadas e demonstrações sobre o modo de fazer o bolo marcaram a feira, que acolheu também o V Grande Capítulo da Confraria do Bolo de Ançã.
Estudo de mercado prevê futuro do bolo
Com mais de 200 anos e confeccionado segundo um método artesanal, que passou de geração em geração, o Bolo de Ançã tem, por esta altura, três versões (Bolo Fino, Bolo de Cornos e Bolo de Ovos) e é, desde Maio do ano passado, marca registada.
“Foi um processo muito demorado e difícil” por causa das burocracias, relembrou Ricardo Rosa, presidente da junta, para a seguir dar a novidade: “Vamos iniciar o processo de certificação”, processo igualmente moroso e para o qual não há prazos.
Mais rápido será um estudo que vai ser encomendado pela Junta para “saber qual é o mercado que existe para o bolo de Ançã”, como revelou ainda o autarca, defendendo que o produto tem “qualidades e potencialidades únicas, mas o seu futuro passa pela sua viabilidade económica”. Importa, por isso, saber “até onde pode ir a sua produção, promoção e comercialização”, notou.
Uma estimativa que pode ser fundamental, tal como o é a actividade das jovens que aceitaram o desafio da “Avança” e participaram em cursos lançados pela associação para aprenderem a confeccionar a guloseima. Raquel Leitão, Ana Leitão e Ana Coutinho, jovens com idades entre os 22 e os 24, não tiveram mãos a medir para demonstrarem, no local, a confecção do bolo.
Amassado à mão e cozido em forno de lenha, o futuro do bolo de Ançã depende, também, de quem queira continuar a dedicar-se à arte, actualmente ocupação sobretudo das mulheres mais velhas. “Não, não vamos ser boleiras, só se for em ‘part-time’”, garantiram-nos as primas Ana e Raquel.
Uma é estudante de Enfermagem, a outra é técnica de farmácia, e os motivos da escolha serão óbvios… Actualmente, existem, segundo as contas das mulheres com banca no Terreiro do Paço, “cerca de 13 ou 14 boleiras em Ançã”, número que ameaça diminuir.
Bolo de Ançã feito como “manda o coração”
De confecção simples, o bolo de Ançã tem uma textura leve e aveludada, constando da sua receita ingredientes vulgares: farinha, açúcar, ovos, manteiga, fermento e sal. E bastam para a genuidade deste produto secular, que exige ser amassado à mão e cozido em forno de lenha.
Actualmente, três versões resultam das técnicas tradicionais de confecção: o fino (também conhecido por bolo de Cantanhede), os cornos (não levam ovos e têm um sabor intenso a canela e limão) e o de ovos (o mais tradicional e o ‘autêntico’ bolo de Ançã).
Numa ronda pelas bancas, o AuriNegra confirmou que todas as boleiras usam os mesmos ingredientes e que a maioria defende o segredo como “a alma do negócio”. Dorinda Vagos, filha e neta de boleiras, tem 68 anos e assegura que “a quantidade certa de cada coisa” é fundamental “para os bons resultados”, ela que vende cerca de 150 quilos por semana, em encomendas que lhe vão buscar a casa.
Alice Carnim, contabilista de profissão, é boleira por vocação, tendo aprendido a arte com uma vizinha. Aos 38 anos é mãe de um casal e tem a ajuda do marido na produção dos bolos que vende aos domingos, à saída da missa. Categórica, defende a temperatura do forno e o bater da massa à mão como factores essenciais.
Também nesta banca há segredos, mas, curiosamente, Alice revela-os: “O segredo existe sempre, porque tudo ‘vai’ das mãos da pessoa. Das mãos e sobretudo do coração”, declara-nos a boleira, emocionada. “Estou cansada, amassei muitos e venho agora do forno…”, tenta disfarçar a comoção. “Faço bolos com amor e sentimento”, declara, afinal. E fica tudo dito.