“Ao Redor dos Muros” é o novo livro de António Canteiro, tendo já arrebatado o Prémio Literário Alves Redol de 2009. A mais recente obra do escritor gandarês, que chegou às livrarias de todo o país no passado mês de Fevereiro, surge no ano em que se comemora a interculturalidade, para a qual remete a sua temática. A apresentação vai decorrer em Cantanhede, no próximo dia 10 de Abril.
Ao longo de 17 capítulos, António Canteiro relata um conjunto de vivências no interior de uma cadeia com personagens de minorias étnicas. O objectivo, como o próprio autor referiu ao AuriNegra, é demonstrar, no ano em que se comemora a interculturalidade, que quer “brancos, quer negros, ciganos, imigrantes oriundos do Leste ou de África cometem crimes. (…) São pessoas como nós, que precisam de ser reinseridas e apoiadas e quanto mais precisam, por vezes, mais nos afastamos delas”.
António Canteiro, pseudónimo de João Carlos da Cruz, natural de S. Caetano, caracteriza a obra como um conjunto de experiências profissionais, fruto de um trabalho de muitos anos.
“Este livro é um bocadinho de todas as experiências que tenho vivido ao longo dos anos. Não me lembrei de um tema e comecei a escrever um romance. Ele é fruto de um labor de dois a quatro anos, de situações dispersas que juntei e que coloquei no mesmo saco. Não acredito na inspiração para fazer um livro em dois ou três meses. Recordo-me que falei deste livro, que agora saiu, a uns amigos na passagem de ano 2006 para 2007. Foram quatro anos de trabalho”, refere o escritor, também técnico superior de Reinserção Social do Estabelecimento Prisional Regional de Aveiro.
“Ao Redor dos Muros” relata o dia-a-dia de uma cadeia, um local que suscita curiosidade a partir de fora e o qual o autor quer dar a conhecer com este livro, de “leitura muito fácil”, admite.
“O primeiro capítulo tem seis páginas e agarra o leitor. Quem o lê fica com vontade de ler o resto dos capítulos. O livro lê-se em cinco ou seis horas e tem uma leitura muito fácil. (…) Ao separar o trigo do joio, e colocar apenas o que é o essencial daquilo que é o livro, ou seja, como é a vivência de um preso, pensei numa leitura rápida e também nas pessoas menos letradas, que pudessem pegar, agarrar-se e criar hábitos de leitura a partir daí. O livro envolve e prende, e as pessoas com menos escolaridade têm toda a possibilidade de compreendê-lo. Pensei também nos próprios presos, e espero que a obra consiga entrar nas bibliotecas deles, pois quero que sintam o livro como algo que foi feito por alguém que está do outro lado, mas que tem a empatia suficiente para conhecer o que eles sofrem e o que sentem”, esclarece.
A viver actualmente em Barracão, freguesia de Febres, o escritor falou das primeiras reacções à obra. Tal como muitos amigos, também Matilde Rosa Araújo teceu elogios “Ao Redor dos Muros”, um livro que para a escritora deveria ganhar um prémio, tal como veio a acontecer poucos meses depois.
Três obras, três prémios
“Ao Redor dos Muros” não é a primeira obra de António Canteiro e muito menos o primeiro livro a ser premiado. Depois de receber uma menção honrosa do Prémio Carlos de Oliveira, em 2005, com o romance “Parede de Adobo”, e a menção honrosa no Prémio de Poesia da Murtosa, em 2009, com “Poesia da Terra e da Água”, o escritor consegue arrebatar o Prémio Literário Alves Redol com a obra que agora se publica.
“É sempre com muita surpresa que se recebe uma menção de honra ou um prémio literário. Surpresa por se ser reconhecido, e por ver que nos lêem e que dão mérito ao que escrevemos. Tenho um segredo, como diz um amigo, que é escrever com alma. As pessoas são alma e identificam-se com aquilo que escrevemos e tudo o que ponho no papel é com alma”, revelou o escritor orgulhoso com o galardão, instituído pelo município de Vila Franca de Xira.
“É um prémio que simboliza muito, porque Carlos de Oliveira identificava-se, e é também um dos neo-realistas, e convivia com Alves Redol, estiveram juntos. Na altura agradeci aos dois por ser aquilo que sou como escritor”, confessou.
Neste momento, “Ao Redor dos Muros” está já disponível em todas as livrarias do país, inclusivamente na Livraria Lifréu, em Febres, e vai ser apresentado na Biblioteca Municipal de Cantanhede, no próximo dia 10 de Abril.