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Começar de novo

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A vida dá muitas voltas e que o diga Mário da Costa Catarino. Numa entrevista carregada de emoção, conta ao AuriNegra como deu a volta por cima, depois de ter sido obrigado a abandonar o projecto de uma vida. Aos 54 anos encontrou em França aquilo que o seu país não lhe conseguiu dar, a “alegria de voltar a viver”.

 
 

Sentado numa das salas da sua nova casa, em França, Mário da Costa Catarino não esconde a emoção e o nervosismo ao falar sobre os últimos acontecimentos na sua vida. Lá fora, na estrada que atravessa a pequena vila de Saint Pierre de Boeuf, situada a sul de Lyon, os carros não deixam de passar e abafam os momentos de silêncio em que Mário Catarino se cala para retomar o fôlego.

Na vila de Febres, terra que o viu partir para o estrangeiro aos 54 anos, é bem conhecido de todos. Ali, provavelmente são poucos os que não sabem quem é Mário “Fetex”. “Mário, do nome próprio, ‘Fetex’, da loja e da fábrica”, explica.

O brilho dos olhos e o sorriso deixam adivinhar o carinho que ainda nutre pelo projecto, que um dia foi obrigado a abandonar e que começou como o de muitos empresários portugueses.

“Tentei sempre procurar uma vida melhor e naquela altura a opção mais indicada seria montar a fábrica”.

A decisão de se lançar por conta própria foi tomada depois de Mário Catarino ter aprendido o ofício de alfaiate e ter trabalhado em Almada, numa fábrica de confecções de calças. Quando regressa a casa e a Febres, labora também no ramo dos têxteis, na Palhaça, e numa outra fábrica de camisas na sua freguesia, que acaba por encerrar. “Ainda eu era solteiro, tinha uns 25 anos”, contextualiza.

Desempregado, o ainda jovem conta ao ex-patrão, que deixara em Almada, a sua situação. O incentivo para se “lançar” chega do outro lado da linha. “Mas eu não tenho dinheiro”, responde Mário Catarino. “Não há problema, arranjas, pedes ao banco que ele empresta-te”, foi a resposta do ex-patrão que mudou para sempre a vida de Mário Catarino.

“Sempre me incentivou. Tivemos sempre uma relação profissional e pessoal muito boa. Ainda hoje, passados tantos anos, telefono-lhe no Dia do Pai. Foi uma pessoa que me marcou muito e que me ajudou muito”, esclarece o agora emigrante, sem conseguir esconder a emoção provocada pelas memórias de um passado diferente.

O crédito para criar a empresa é concedido, as máquinas são compradas e os primeiros funcionários começam a trabalhar. As encomendas vão chegando, pouco a pouco, e Mário Catarino empenha-se na “menina dos seus olhos”. Além disso, tem também uma loja de vestuário no centro de Febres, que abrira antes de ter a fábrica. “Fui adquirindo coisas que nunca imaginava vir a ter”, confessa.

“Projecto de uma vida”

1979 e 2007. À primeira vista têm apenas o número sete em comum, mas para Mário Catarino são, certamente, dois dos anos mais importantes da sua vida. O primeiro assinala o nascimento da sua fábrica de camisas em Febres e o ano em que se casou. O segundo é caracterizado pelo encerramento do seu projecto, fechando assim um ciclo.

“Não correu sempre tudo bem. Muitas vezes não era fácil gerir uma empresa. Aquela fábrica fui eu que a criei. Não a herdei de ninguém e quando somos nós a criar algo, falta-nos a experiência, o que torna certas decisões difíceis”.

Ao seu lado, neste longo caminho, esteve sempre (e ainda está) a esposa. A amiga e o apoio na alegria e na tristeza.

“Não tomo nenhuma decisão sem a consultar e ela tem estado sempre comigo, costumo dizer que nós trabalhamos sempre para o mesmo lado. Tem sido o meu grande apoio e já lá vão 30 anos”, refere Mário Catarino, que não se cansa de tecer elogios à mulher de uma vida.

“Trabalhei sempre com a minha esposa, sempre empenhados, e depois de cumprir os meus objectivos e criar os meus filhos, queria estabilizar, caminhar para a velhice. Entretanto, com 54 anos fico sem trabalho”.

Com duas lojas, uma em Febres (que entretanto mudou de sítio) e outra em Cantanhede, uma fábrica, que empregava cerca de dezena e meia de funcionários, e com os dois filhos já criados, Mário “Fetex” tinha a vida “endireitada” e sentia-se realizado. Contudo, ainda tinha um longo caminho a percorrer.

“A recessão começa a chegar a Portugal, com a abertura do mercado aos países asiáticos. Contudo, durante alguns anos consegui manter uma vida sempre boa. Os problemas começaram a surgir com a diminuição de encomendas e fui reduzindo o pessoal. Comecei a não ter lucro e em 2007 já tive prejuízo. Tive de recorrer a economias para pagar os salários. Felizmente nunca deixei de pagar, as funcionárias podem dizê-lo e isso é muito importante. Entretanto entrei em depressão, quando comecei a ver que não conseguia manter a fábrica aberta. Era um projecto de uma vida, o meu sonho! E, ao fim de tantos anos, ver tudo ‘ir por água baixo’ não foi fácil. Nunca pensei que teria de fechar, porque dantes estávamos habituados a criar as coisas e tê-las até morrer. Infelizmente hoje os tempos mudaram e as pessoas têm de estar capacitadas para essa realidade. Quando um negócio não dá, não devemos morrer agarrados a ele, devíamos afastar-nos, mas não conseguimos, porque a nossa mentalidade não dá para isso. No meu caso foi algo que eu criei, não vou dizer que é um filho, mas é como se fosse”, desabafa.

No mês de Setembro de 2007, Mário Catarino tomou a derradeira decisão. Reuniu com as funcionárias e anunciou-lhes o encerramento da empresa e garantiu-lhes tratar de tudo para que tivessem direito ao subsídio de desemprego. Pagou salários e indemnizações, saldou as encomendas e fechou a porta a 30 de Novembro de 2007.

“Depois da tempestade, a bonança”

Nas semanas seguintes, Mário Catarino recorda-se de nem sequer sair do sofá. O encerramento da empresa somada à ida da filha para França agravou o seu estado de espírito. Os dias passavam lentamente e Mário Catarino pergunta-se a si próprio se merecia passar por tal situação. “Porquê a mim, se trabalhei tanto, tal como a minha esposa?”, questionava, constantemente. A resposta estaria a muitos quilómetros de Portugal.

“A minha filha trouxe-me para França, para desanuviar a cabeça. Adorei a zona de Lyon, à beira do Rio Rhône. Afastei-me de um sítio onde já não me sentia bem e aqui descobri a minha cura”, assegura, sublinhando que aceitar a sua situação foi o primeiro passo para que a vida começasse de novo a fazer sentido.

O tempo passou e Mário Catarino decidiu abraçar uma nova profissão, a de camionista, numa empresa de construção civil. Valeu-lhe a carta de condução de pesados que tirara ainda jovem.

A medicação para a depressão foi colocada de parte, as saudades da esposa, do filho e da mãe (que ficaram em Portugal) começaram a ser controladas e a felicidade, essa, parece ter vindo para ficar.

“Hoje estou feliz. Não sei bem o que é a felicidade total, mas posso dizer que há coisas que perdi e que são muito difíceis de perder, mas ganhei outras, que eu nem sabia que existiam”, assegura Mário Catarino, frisando que a união familiar saiu beneficiada.

Hoje as viagens entre França e Portugal são constantes. Depois de ter investido em Portugal, ao fim de tantos anos começou também a fazê-lo no estrangeiro. Conseguiu adquirir duas casas em França e está neste momento a recuperá-las.

Apesar da barreira da língua, que ainda não domina bem, Mário Catarino afiança que desenvolveu uma paixão por França. “Vivi situações que só tinha vivido até aos 26 anos. Voltei a ser a pessoa que era, voltei a ser o Mário Catarino alegre que eu era, até a mim me surpreendi. Hoje tenho a mente muito mais aberta e estou mais solto para a vida. Amanhã a vida pode alterar-se e posso estar noutro lado. Mas estou mentalizado para isso”, conclui, sorrindo.

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