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“Sou da Gândara, sou gandarês”

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António Castelo Branco, nasceu em Covões, numa altura em que a Gândara era uma terra de gente pobre, mas trabalhadora. A infância possibilitou-lhe múltiplos contactos com a cultura popular que divulgou enquanto coordenador cultural do INATEL. Para além de dirigente associativo, foi director do jornal “Independente de Cantanhede” e do Centro de Estudos Carlos Oliveira. Recentemente lançou “Os Lazarilhosda Gândara”, sobre experiências e tradições daquela região.

 

Sentado ao borralho da casa onde passou toda a sua infância, em Covões, António Castelo Branco mostra um dos seus manuscritos. Num pequeno texto, declara-se como “gandarês assumido, por nascimento, por devoção, por temperamento e por tudo quanto me liga a estas terras do Senhor”.

Orgulhoso por ter sido criado numa casa gandaresa, onde muitas vezes se deliciou com as favas regadas com molho de carne, a broa com sardinha ou as papas de abóbora, António Castelo Branco viveu naquela região até aos 11 anos, altura em que o pai, emigrante, o enviou para um colégio em Coimbra.

“Senti, como ninguém, uma ruptura abismal. Até àquela idade tive sempre um colo e um xaile que me levava para a cama, mas o meu pai, como pessoa pragmática que era, achou que eu tinha de saber o que era a vida. Só vinha cá de férias e, por vezes, ao fim-de-semana. Penso que tudo isso me ajudou a moldar a personalidade. Cada vez que cá vinha, se eu gostava disto, passava a amar ainda mais. Era um mundo encantador”, garante o também escritor.

Depois de uma curta passagem por Lisboa, onde ainda ingressou no curso de Direito, regressou a Coimbra, onde viria a licenciar-se em História.

Bancário de profissão, esteve sempre ligado à área de intervenção social, nos serviços de relações públicas do banco, o que lhe possibilitou múltiplos contactos no exterior.

Paralelamente, acumulava as funções de director do jornal local “Independente de Cantanhede”, e, em Coimbra, de coordenador cultural do Instituto Nacional para Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (INATEL), onde esteve 11 anos.

Foi neste cargo que aprofundou ainda mais o seu conhecimento sobre a cultura popular, que o fascina desde tenra idade.

Deu formação a grupos etnográficos e de folclore, um pouco por todo o país, com o objectivo de “sensibilizar as pessoas que faziam parte desses grupos, ensinando-os a fazer a recolha de uma cantiga, de um conto, de um objecto ou como é que uma mantilha ou um traje deveria ser recuperado”.

Neste contexto, lembra Ernesto Veiga de Oliveira, Tomaz Ribas, António Sardinha, Madalena Ferrajota, os grandes mestres da etnografia que com ele fizeram estas peregrinações.

Questionado pelo AuriNegra sobre adulterações que se observam na reconstituição da cultura popular, António Castelo Branco admite que é uma realidade que o preocupa.

“O que me revolta mais são as aberrações e a ignorância atrevida das pessoas. Para mim, um dos maiores males que temos na nossa cultura é a ignorância atrevida, porque quando uma pessoa não sabe, procura saber. Vejo ranchos, não são grupos de folclore porque estes têm autenticidade etnográfica, que não tiveram cuidado com a autenticidade dos trajes, com aquilo que estão a apresentar e simplesmente estão a plagiar as modas e as cantigas do Minho ao Algarve e o que os move, no fundo, é andar dum lado para o outro de autocarro. Eu não sou um homem de política, mas a responsabilidade aí, e na minha perspectiva, é de quem dá subsídios. Não se devia subsidiar quem não apresentasse um trabalho sério e de interesse cultural, concretamente na área da recolha e da reposição etnográfica. Porque isso é desonesto e desanimador para os que o fazem com seriedade”, defendeu.

O homem da cultura popular

“O meu gosto pela cultura começa neste borralho com histórias que me contavam”, admite António Castelo Branco, que continua empenhado em recuperar tudo o que esteja relacionado com a Gândara, sejam artefactos, trajes ou utensílios agrícolas.

Todos os objectos por si recolhidos estão expostos na casa que pertencera ao seu tio-avô, que era médico. É uma casa típica da região e transformada num verdadeiro museu gandarês.

Caracterizando-se como um “homem da cultura popular”, António Castelo Branco explica que toda a vida procurou cultivar e saber mais sobre a Gândara.

“Em primeiro lugar porque sou de cá, em segundo lugar houve uma série de escritores que me empurraram e sensibilizaram para isso, nomeadamente, Carlos de Oliveira e Idalécio Cação. Mas, particularmente, porque vi-vi aqui, nasci em Covões, onde passei toda a minha infância, que foi riquíssima em termos de valores”, justifica.

Para além do livro “Os Lazarilhos da Gândara”, lançando em Junho passado, que incide sobre estórias reais, utilizando uma linguagem picaresca e onde o autor dá a conhecer vidas e experiências de gentes que ainda hoje moldam a realidade daquela região, António Castelo Branco editou também a obra “Sabores de ontem, manjares de hoje” e tem múltiplos trabalhos publicados quer em jornais, quer em revistas. Tudo resultado de uma investigação e recolha na área da cultura popular.

Para além de dirigente associativo na filarmónica de Covões, o escritor foi também presidente do Centro de Estudos de Carlos de Oliveira, uma instituição efémera, que surgiu pela mão de vários escritores da Gândara.

Quanto ao futuro, António Castelo Branco está certo que os três filhos vão acarinhar todo o trabalho que o pai tem desenvolvido até aqui, até porque o escritor não pensa apenas vir a editar mais obras, já que quer também transformar a sua quinta em Covões num espaço pedagógico.

“Penso desenvolver um projecto muito meu, mas aberto à comunidade. Gostava que esta quinta funcionasse como uma quinta pedagógica, onde eu não pretendo ter fins lucrativos. O que eu pretendo é que as pessoas saiam daqui sensibilizadas para a preservação”, esclarece, sublinhando que o seu principal objectivo é “mostrar como era a Gândara”, porque ser “gandarês é sentir as raízes, sentir a monotonia de um espaço, a vida interior das gentes e ter paixão pelas coisas da terra”, conclui.

Paixão pela caça

Para além da paixão pela Gândara, António Castelo Branco tem muitas outras, uma delas a caça, tendo sido um dos fundadores do Clube de Caçadores de Covões.

A paixão nasceu no seio da família e aos 14 anos precisou de uma autorização do pai para poder praticar aquela actividade. Actualmente, António Castelo Branco admite que está preocupado com a atitude de muitos caçadores que não sabem que estatuto é esse.

“Nós tínhamos, na Gândara, lebres, coelhos e, particularmente, a perdiz vermelha. De repente houve um morticínio e a maioria dos animais desapareceram, fruto do espírito predador dos que andam com espingardas às costas e que matam tudo quanto mexe no mato.

Há que obrigar a repor as espécies e fazer o equilíbrio ecológico com intervenção oficial e legal. As autarquias não se podem alhear desta realidade. Para isso existem, se bem que não funcionem, os conselhos cinegéticos e os serviços do Ministério da Agricultura. Amanhã os meus netos vão chamar selvagem a esta minha geração que, de facto, exterminou tudo”, concluiu.


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