Foi, em tempos, o “coração” da Cidade, o local para onde convergiam todos os caminhos da vida coimbrã. A Baixa de Coimbra guarda, ainda, os encantos de outrora, e está apostada em reconquistar o estatuto de que já gozou: ser o centro da Região Centro.

As grandes superfícies comerciais e os centros de lojas, que começaram a fazer parte da paisagem da cidade de Coimbra no início da década de noventa, marcaram, definitivamente, o declínio das zonas de comércio tradicional. Tal como aconteceu noutras tantas cidades do País, a modernidade e o avanço de determinada Região pareciam medir-se pelo número de centros comerciais e lojas de cadeias internacionais por metro quadrado. O comércio de rua, de proximidade, tão rico em tradições, histórias e particularidades tornou-se, progressivamente, quase obsoleto.

Para quê ir à loja de tecidos, quando se amontoavam os prontos-a-vestir com roupas a preço de saldo durante todo o ano? Era só chegar, escolher, experimentar e pagar. E correr o risco de “tropeçar” em pelo menos três modelitos iguais até sair do centro comercial. Qual seria o objectivo de ir à mercearia comprar fruta e legumes, passando de caminho na padaria, respondendo ao apelo do aroma reconfortante do pão quente, se numa grande superfície basta pegar no carrinho de compras e navegar corredores fora?

A diferença está, sobretudo, no atendimento personalizado, diriam alguns. No senhor Manuel da frutaria, que nos trata pelo nome e sabe que gostamos das maçãs mais miúdas, ou na dona Luísa da sapataria, que não nos tenta impingir sapatos de salto vertiginoso, pois sabe que subimos e descemos o “Quebra-costas” todos os dias. Nas Zaras e Continentes, somos todos iguais. Na Baixa de Coimbra, cada cliente é uma história, um rosto, um nome. Percorrer aquelas ruas é passear sobre história, num centro comercial a céu aberto.

Da antiga “Brasileira”, que depois de anos de ausência voltou a abrir portas, aos emblemáticos cafés “Santa Cruz” e “Nicola”, sem esquecer os conceituados prontos-a-vestir e as livrarias com décadas de actividade. As barbearias e os sapateiros fazem lembrar tempos idos, enquanto as ourivesarias da nossa tradição “convivem” paredes meias com o mais recente fenómeno das casas de compra e venda de ouro. Sapatarias de prestígio não temem a concorrência da loja chinesa, pois há sempre quem atente mais à qualidade do que ao preço, e as lojas de artesanato e bijuteria contemporâneos também não ameaçam o posto dos espaços mais virados para o “galo de Barcelos” e o postal de Coimbra.

Mas as riquezas do “coração” da Cidade não se esgotam no meio milhar de espaços comerciais. Há monumentos e sítios a descobrir, pedaços de cultura e tradição à espera de serem colhidos, como frutos. Há gente, muita, de todas as cores e feitios. Há, até, pombos, que transformam um passeio de fim de tarde numa experiência tão mais bela e romântica. Há vendedores de castanhas se é Outono, de gelados se faz calor, de tudo um pouco, durante todo o ano. Há esplanadas, cafés, restaurantes e um sem número de artigos e coisas. Pode haver chuva ou sol, vento frio ou brisa cálida. Enfim, na Baixa há, sobretudo, vida. E tanto para descobrir…

Coisas e sabores da Baixa

Queijos e enchidos regionais, doçaria tradicional, vinhos e licores, produtos gourmet, artesanato e artigos decorativos. A “Coisas e Sabores” vende tudo isto e mais, tendo apostado num segmento que, apesar de não tão prolífico quanto o dos estabelecimentos de compra e venda de ouro, tem conquistado clientes a cada dia que passa. Hélder Gonçalves está na Baixa há quase três décadas, tendo tido no mesmo espaço em que hoje encontramos a “Coisas e Sabores” (em frente à Igreja de Santa Cruz) uma loja de artigos decorativos: “Foi uma área que teve uma quebra muito grande. Por isso, há três anos, decidimos remodelar o espaço e introduzir novos produtos. Apostamos no artigo nacional, muito procurado pelos turistas, que são dos nossos principais clientes”. A localização estratégica, em plena Praça 8 de Maio, não é alheia ao sucesso que o estabelecimento tem tido, que até já teve honras televisivas.

“Procurámos valorizar o nosso produto, o que é português, pois normalmente é o que os turistas mais procuram para levar para fora. Os nossos vinhos, queijos, doces, todos são muito apreciados”, assegura. Aos artigos alimentares juntam–se as loiças típicas, como as faianças Bordallo Pinheiro, em tempos apelidadas de “pirosas”, e os sabonetes das fábricas Confiança e Ach.Brito. “Desde que remodelámos, as vendas têm subido sempre. Espanhóis e brasileiros contam-se entre os nossos principais consumidores, à parte dos nacionais, claro, que gostam dos nossos produtos e ficaram clientes fiéis”. A onda de revivalismo e patriotismo, com os sucessivos apelos ao “compre o que é nosso”, tem contribuído para popularizar este tipo de espaços.

À Baixa, o que é da Baixa

Foi criada em 2004 com o intuito de promover o desenvolvimento da Baixa de Coimbra, bem como de contribuir para o seu reposicionamento no centro da vida económica e cultural da Cidade. As “Noites Brancas” são, provavelmente, o seu trabalho mais visível, mas há muito que é feito nos bastidores, sem chegar a ver “as luzes da ribalta”.

Foi, como não podia deixar de ser, num dos mais icónicos espaços da Baixa que nos encontrámos com Armindo Gaspar, presidente da Direcção da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC). O café “Santa Cruz” deixa fascinados os milhares de turistas que por lá passam e é, inquestionavelmente, um local singular e privilegiado. Nada melhor do que estar na Baixa para falar da Baixa, pensámos nós. A escassos metros do estabelecimento de que é proprietário, a perfumaria “Pétala”, o responsável começou por contextualizar a criação da APBC: “Foi em 2004 que foi criada a Agência, fundamentalmente com o intuito de criar uma dinâmica de conjunto na Baixa, de entender a Baixa como se de um condomínio fechado se tratasse. A ideia cresceu no seio da ACIC [Associação Comercial e Industrial de Coimbra] e pretendia, realmente, transformar a baixa num centro comercial a céu aberto”.

A Agência conta com a Câmara Municipal de Coimbra, a Caixa Geral de Depósitos, a Indústria da Panificação e as Juntas de Freguesia de S. Bartolomeu e Santa Cruz como sócios fundadores, a que se junta a ACIC, e incorporou desde logo a velha máxima “a união faz a força”. Os associados pagam uma quota mensal, “praticamente simbólica”, que garante certas regalias, nomeadamente em termos de estacionamento e em termos de licenças e restauro de imóveis. A iniciativa mais mediática da APBC é, sem dúvida, a “Noite Branca”, um evento em que os horários de funcionamento das lojas aderentes são prolongados noite dentro, e em que há campanhas e preços especiais para os clientes. A próxima está agendada já para Junho: “A 15 de Junho juntamo-nos às Marchas Populares e na semana seguinte, a 23 de Junho [sábado], aproveitamos a vinda da Madonna a Coimbra, cujo concerto é no domingo, para promover um dia de iniciativas diversas. Vamos tentar que as lojas estejam abertas até à meia-noite ou duas da manhã”.

As “Noites Brancas” têm atraído milhares de visitantes à Baixa, contribuindo para a agitação e o bulício que em tempos caracterizaram aquele espaço. Mas o trabalho da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, que conta com Barbosa de Melo, presidente da Autarquia, nos seus órgãos sociais, não se esgota aí. “No dia-a-dia estamos constantemente a trabalhar. Além de assinalarmos as datas importantes, como dias de Namorados, Pai e Mãe, temos também um papel reivindicativo. Estacionamento, licenciamento, higiene, segurança, são apenas algumas das vertentes em que intervimos. Além disso, estamos em permanente diálogo com as Instituições”, garantiu Armindo Gaspar. Ainda assim, o responsável lamenta que a adesão por parte dos comerciantes não seja maior, dando como exemplo a primeira edição de “Noite Branca”, que contou com “pouco mais de 40 estabelecimentos”. Hoje, são perto de 250.

Adaptar ou morrer

Um dos principais problemas do comércio tradicional, quando comparado com as grandes superfícies e lojas de cadeias multinacionais, é a dificuldade de adaptação a novas tendências do mercado e a novas exigências por parte dos clientes. A aposta na imagem e em campanhas de marketing, ou até a flexibilização dos horários dos estabelecimentos, podem ter impacto muito positivo na (re)conquista e posterior fidelização de consumidores. “Temos uma oferta diversificada mas para atrair consumidores temos que nos adaptar às novas regras de consumo. Se não o fizermos, não vale a pena andarmos aqui com estas iniciativas. Ou há uma adaptação, ou a luta dificilmente será ganha”, garante Armindo Gaspar, presidente da Direcção da APBC.

Armindo Gaspar sabe do que fala, afinal, leva mais de 50 anos ligado ao comércio. Conheceu a Baixa enquanto “espaço comercial de excelência e pólo de atractividade da população”, e espera voltar a vê-la assumir esse papel. O projecto BeCoimbra tem conseguido dar alguma vida à zona histórica, nomeadamente através da fixação de alguns estudantes universitários em residências que estavam desocupadas. O fado também chama gente à Baixa, sobretudo turistas, estando a surgir nos últimos tempos alguns espaços dedicados à canção tradicional coimbrã. “Queremos fazer da Baixa aquilo que já foi. Queremos chamar as 31 Freguesias de Coimbra, para que nos ajudem a dinamizar esta zona, nomeadamente através de feiras de produtos endógenos. Queremos marcar pela diferença e defender este património, que é de todos nós”.

Livros e outras velharias

Luís Quintãns está há muitos anos na Baixa de Coimbra. É proprietário de um dos mais característicos estabelecimentos que por lá se podem encontrar, dedicado ao comércio de velharias e antiguidades. O “Encanto da Freiria” vende de tudo um pouco, dos livros e revistas antigos, aos rádios e despertadores, passando por loiças, candeeiros e talheres. É um daqueles estabelecimentos em que mal se descobre um centímetro de parede ou de chão, de tantas que são as coisas e loisas expostas. Há 18 anos que “vive intensamente a Baixa”, apesar de a sua ligação ao local ser bem mais antiga, do tempo em que explorou um café na Alta.

“A decadência da Baixa começou a acentuar-se em 1993, que foi quando abriram as primeiras grandes superfícies em Coimbra. Progressivamente, a Baixa foi perdendo clientes, mas também comerciantes e moradores”, diz. As pessoas deixaram de viver a e na Baixa, descentralizando as suas actividades para próximo dos centros comerciais. “Com o abandono dos campos, houve também muita gente que começou a abrir comércios e serviços nas respectivas vilas. Em Cantanhede, por exemplo, houve tempos em que quando era preciso comprar sapatos ou um bom fato tinha que se rumar a Coimbra. Hoje já não é assim. Cantanhede tem tudo”. Esta “democratização do comércio”, de que Luís Quintãns nos fala, contribuiu para o esvaziamento da Cidade, que deixou de ser “o ponto de convergência de toda a Região Centro”.

Com a chegada da crise, a situação agravou-se ainda mais: “Estamos todos encadeados e o meu negócio não é diferente, apesar de ser de certa maneira específico. Vivo muito do transeunte, da pessoa que passa ocasionalmente e que acaba por entrar. Ora, se as pessoas não passam, não entram. Sentimos uma grande crise de procura”, assevera. O euro, a perda de poder de compra, a quebra no turismo, tudo se conjugou para deixar os comerciantes “à beira de um ataque de nervos”. “Tenho uma variedade grande de tudo, mas não há um artigo que tenha mais procura que outros. O negócio é cada vez mais incerto… não mudo de negócio porque não sei para quê. Se soubesse, olhe que se calhar mudaria”. Apesar de tudo, o valor quase museológico do “Encanto da Freiria” e a paixão de Luís Quintãns pelos seus objectos, garantem a continuidade do negócio. “Alimento-me de todas estas coisas”, confessa. Porque nem só de pão vive o Homem. | FC

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