João Aurélio Sansão Coelho nasceu a 24 de Agosto de 1949, em Granja do Ulmeiro, Soure. Pai de duas mulheres e um homem, viveu em Montemor-o-Velho, Miranda do Corvo, Coimbra e Figueira da Foz, o que o leva a considerar-se um “cidadão do Baixo-Mondego”. Tinha apenas 12 anos quando criou o seu primeiro jornal. Em Coimbra fundou a empresa Presença Coimbrã que também foi um programa de rádio. De volta a Portugal após ter cumprido o serviço militar, em Angola, entrou para a Emissora Nacional e por lá ficou até se chamar Rádio e Televisão de Portugal.
O talento de Sansão Coelho entretece-se com a história da comunicação social portuguesa da segunda metade do século XX. O seu timbre de voz inconfundível começou por ser transmitido pela Emissora Nacional, depois pela Radiodifusão Portuguesa e, por fim, pela Rádio e Televisão de Portugal. A ele se deve, entre outras tantas iniciativas, a Gala Internacional dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz. Reformou-se em 2010 e não tardou a ser-lhe atribuída a Medalha de Ouro de Coimbra, essa cidade por que sempre lutou e onde deu tempo de antena a várias gerações de artistas.
Depois da aposentação os dias de Sansão Coelho são divididos por Coimbra e pela Figueira da Foz. Dar notícias já não é a sua profissão, mas continua a partilhar o seu conhecimento e experiência com os alunos do Instituto Superior Miguel Torga, leccionando, desde 2006, as disciplinas de Jornalismo Radiofónico e Ética, Deontologia e Direito da Comunicação. As causas solidárias continuam a tocar-lhe bem fundo no coração, não conseguindo resistir a solicitações para apresentar eventos com essa característica. A bem da verdade, Sansão Coelho mantém-se activo e a sua voz continua, para alegria de muitos, a fazer-se ouvir.
Para conhecer a história deste homem de estatura média e um gigante em simpatia e cavalheirismo, temos de recuar até ao final dos anos quarenta. É um montemorense nascido na Granja do Ulmeiro: “Normalmente, nós, naquela altura, nascíamos em casa, mas a minha mãe foi para casa dos meus avós para ser mais fácil a deslocação para a maternidade em Coimbra. Eu ou a minha mãe estávamos apressados e acabei por nascer na Granja do Ulmeiro. Mas sou realmente um montemorense”.
“Sou um cidadão do Baixo-Mondego que defende, cada vez mais, uma ligação forte entre Coimbra, Montemor-o-Velho e a Figueira da Foz. Defendo, inclusivamente, que seja construído no Ramal da Lousã o Metro Mondego e que ele ligue, também, toda esta região. A Linha da Lousã é a primeira fase entrando dentro do coração e da alta da cidade de Coimbra para ser rentável e resolver a mobilidade urbana. A segunda fase será a ligação ao eixo Montemor – Figueira, e a terceira fase o eixo Mira – Cantanhede – Mealhada – Condeixa. Isto é fundamental porque Coimbra precisa de ter a reposição de eléctricos retirados há anos, agora em forma moderna, e estas localidades vizinhas, integradas na Grande Coimbra, têm de ter o Metro Mondego com uma bitola que, por compatível, as ligue às Linhas da CP do Norte e do Oeste. Muitas cidades europeias de média dimensão têm já este tipo de transporte. Não bastam os autocarros, é preciso movimentar muito bem, e rapidamente, esta população, a rondar os quatrocentos mil”. Se alguém tivesse uma réstia de dúvida relativamente ao fervor que ainda nutre pelo distrito de Coimbra, esta análise certamente a dissipará.
Tinha dois anos quando a sua família se mudou para Miranda do Corvo, outra localidade que sempre lhe despertou uma grande paixão. “Era uma terra pobre. Não era a riqueza que se distribuía, era a pobreza. Era o pouco que havia que era distribuído entre nós mirandenses”. O jovem João Aurélio não era dos que passava maiores dificuldades, pois o seu pai ocupava o cargo de chefe da estação ferroviária, uma profissão que gozava de algum estatuto, a par do chefe do posto de correio, do professor primário e do médico.
Foi precisamente em Miranda do Corvo que tomou pela primeira vez contacto com o jornalismo. “Ainda miúdo conheci um grande caricaturista, porventura o maior caricaturista português de sempre, chamado Zé Oliveira, que tem tanto de talento como de humildade. Com 12 ou 13 anitos começámos por fazer um jornal. Não tínhamos uma tipografia e, portanto, era escrito com recurso a rolhas de cortiça, onde nós desenhávamos as letras e todos os caracteres, alguns em duplicado e triplicado, que funcionavam como os carimbos para imprimir. Era um jornal que distribuía-mos pelos amigos”.
As emissões televisivas regulares estavam a dar os primeiros passos e ele, fascinado por esse mundo, construía “televisores” com caixas de sapatos, canas, recortes da banda desenhada das edições de domingo do jornal Primeiro de Janeiro, barro do Carapinhal, placas de vidro e botões de fatos. “Fazia concursos do tipo ‘Quem sabe, sabe’, fazendo perguntas aos meus amigos e depois oferecia esse ‘televisor’ ao vencedor”.
Adeus ao “Joãzinho da estação”
Se em Montemor-o-Velho era conhecido por João Aurélio e em Miranda da Corvo por “Joãozinho da estação”, na “cidade do Mondego” passou a ser chamado de Sansão Coelho. Estudava no liceu D. João III e quem o passou a tratar pelo sobrenome e apelido foi o professor de Matemática. A razão, explica, prendia-se com o facto de existirem mais alunos com o nome João.
Três anos mais tarde o seu pai seria colocado na Figueira da Foz e, pouco depois, em Lisboa. Essas mudanças levaram a que o jovem montemorense frequentasse parte do quarto ano do Liceu na Figueira da Foz e o resto em Coimbra, onde a sua mãe trabalhava.
“Ainda era eu um ‘bicho’ do Liceu, sou convidado pelo director da revista académica Capa e Batina para colaborar com ele como correspondente do jornal Record, que ele dizia que não tinha muito tempo, e, por outro lado, para assumir quase tudo na revista. Recordo-me de em alguns números assinar reportagens como João Aurélio, João Coelho, João Sansão e Sansão Coelho, porque eu fazia a revista quase de uma ponta a outra”.
As suas férias escolares eram normalmente passadas em Mira. Por lá conheceu, por exemplo, Rocha Dinis (actual director do jornal Tribuna de Macau), de quem se tornou amigo e, mais tarde, parceiro na fundação do jornal semanário Centro Desportivo. “Chegaram a ser publicados dez mil exemplares por semana e eram vendidos em todo o país. Foi um grande fenómeno de vendas e só não foi melhor e maior porque em Coimbra não havia um parque gráfico capaz de responder às exigências de tiragem”.
Por forma a apoiar o órgão de comunicação social desportivo fundou, com 18 anos, a produtora Presença Coimbrã. “É uma homenagem ao movimento presencista. O Bettencourt estava ligado aos fados de Coimbra e foi ele que deu o nome à revista Presença. Nós, então, achámos que era um nome ideal para esta produtora de rádio e de outros meios. O nome era muito simbólico, de homenagem à cultura de então”. Essa empresa actuava também como editora e depois passou a movimentar-se no sector da publicidade e da organização de eventos. “O outro sócio era o meu pai mas tive, no início, a colaboração do Adriano Eliseu que fez o curso de histórico-filosóficas mas veio a ser um dos nomes cimeiros da publicidade em Portugal”.
Sansão Coelho tinha 19 anos quando se candidatou a um concurso para locutores da Rádio Televisão Portuguesa (RTP). Entre os jovens concorrentes encontravam-se os nomes de Júlio Isidro, Eládio Clímaco, Fernando Balsinha, Raúl Durão e Maria Elisa. “Fui um dos finalistas”. Entretanto, ingressou nos Serviços Cartográficos do Exército, cujo director era o major Baptista Rosa, então responsável por várias publicações, como o jornal desportivo O Benfica. “Também era director de programas da RTP e, como tal, director do concurso”. Quis o destino apanhá-lo de surpresa e o jovem aspirante a locutor ser mobilizado para Angola. “O major Baptista Rosa disse-me uma coisa que me desiludiu um pouco, mas que foi realista: ‘Nós precisamos já de pessoas e você vai ser mobilizado. Mas quanto voltar tem aqui um lugar’”.
Embarcou para Luanda, capital de Angola, onde cumpriu o serviço militar. Esta não era a primeira vez que Sansão Coelho saía do país natal. Anos antes tinha-se estreado a fazer relatos desportivos para o Rádio Clube Português (RCP) em Inglaterra. “Eu não estava minimamente ligado ao RCP, mas sim a dois dinâmicos produtores, o senhor Fernando Santos e o senhor Ribas Martins, que eram os donos das Produções Carrossel. O RCP vendia tempo de antena e eles trabalhavam para lá. Eu fazia uma espécie de subaluguer de tempo, com programas intitulados ‘Presença Coimbrã’ e ‘Recortes em FM’”. “O próprio ‘Presença Coimbrã’ chegou a ser também transmitido na rede de colunas de som da praia da Figueira da Foz, um serviço coordenado pelo senhor João Rocha”.
O sacerdócio
Regressou a Portugal após mais de dois anos em Angola. Logo a seguir ao abraço aos pais e uma visita a Coimbra, deslocou-se à capital para bater à porta da RTP. Pôs o novo director de programas a par da sua situação, obtendo a seguinte resposta: “Pois meu amigo, eu não falei com o major Baptista Rosa. Já tenho algumas informações sobre si e queria-lhe dizer que se fosse mulher entrava já. Agora, assim, eu não posso resolver nada de imediato. Mas também mais depressa do que aquilo que lhe vou dizer é quase impossível. O meu amigo vai apresentar, já no sábado, um programa de desporto, que é essa a sua vocação”.
A proposta era aliciante, até em termos pecuniários, tendo apenas um senão. “O valor não era nada mau, mas era cachet”. Decidiu tentar a sua sorte na Emissora Nacional (EN) e deu de caras com um concurso que decorreu de forma bastante célere. A razão da rapidez, veio a descobrir, prendia-se com a lacuna existente na delegação de Coimbra da EN, no seguimento da saída de dois locutores. E Sansão Coelho, conimbricense, era a pessoa indicada para a colmatar. Olhando para trás, confessa ter sido a melhor a escolha. “Comecei a fazer contas. Na RTP ia apresentar dois programas em cada mês e pagavam uma determinada verba que não era suficiente para eu ficar em Lisboa, caso não me mantivesse em definitivo também na EN. Não sabia qual era a compatibilidade dos horários, porque na altura as empresas eram do Estado, mas estavam separadas. Como também queria continuar a estudar, optei por Coimbra”. O facto de ser director da Presença Coimbrã também teve o seu peso na altura de decidir. Contudo, antes de assentar arraiais no distrito natal deu provas do seu talento em vários programas, noticiários e trabalhos no exterior por Lisboa.
Na “cidade dos estudantes” ainda acompanhou uma visita do Presidente da República Américo Tomás à apresentação das obras da barragem da Aguieira, presenciando um episódio caricato. “Era Março, mas estava um calor incrível. O senhor Presidente devia ter-se levantado muito cedo e estava cheio de sono. Ao lado dele estavam dois ministros a abanar-lhe o cadeirão porque ele estava constantemente a adormecer”.
Nem tudo era motivo de riso. Enquanto profissional de rádio teve de saber lidar com a censura do regime antes do 25 de Abril. “Nas ordens de serviço da EN dizia que não se podia passar certos temas, como o ‘Vampiros’, por exemplo”.
“Sempre tive as minhas simpatias partidárias, mas só as assumi publicamente depois me afastar da informação. Quando somos profissionais da comunicação temos de ser íntegros, verdadeiros sacerdotes, temos de ser humildes, amigos de Portugal, pedagógicos, divulgadores de todos aqueles que trabalham e dos que constroem empresas. Disso não tenho vergonha absolutamente nenhuma, porque acho que cumpri aquela que era a minha missão”.
Não tinha ainda a Radiodifusão Portuguesa (RDP) sido fundida com a estação de televisão do Estado e já Sansão Coelho era colaborador da RTP Porto. Ao longo desse período teve a oportunidade de criar um programa pelo qual há-de ser sempre recordado: a Gala Internacional dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz, um projecto realizado em colaboração com a UNICEF, para a divulgação dos Direitos da Criança. “Ainda hoje a Figueira da Foz é falada internacionalmente por causa dessa gala”. Noutro programa infanto-juvenil por si apresentado, designado por “Hora dos Talentos”, lançou nomes agora bem conhecidos do grande público, como o mágico Luís de Matos. “Depois tive o privilégio de conseguir meter, pela primeira vez, o nome de Coimbra na programação da RTP 2 com o “Cantos e Contos de Coimbra”.
A licenciatura na área profissional estaria reservada para mais tarde, integrando o primeiro grupo de alunos que frequentaram o então recém-estreado curso de Jornalismo da Universidade de Coimbra. “Foi um grupo de velhinhos que se juntou para ajudar a criar o curso”, brinca.
Aposentou-se em finais de 2010 quando exercia o cargo de realizador na RTP. No ano seguinte, recebeu a Medalha de Ouro de Coimbra pelo esforço de uma vida em prol do município. O desporto é outra das suas paixões, embora tenha deixado de ser um adepto praticante. “Fui correspondente do jornal A Bola durante 30 anos. Agora até cortei quase radicalmente. Já não vou assistir a jogos porque acho que fui tantas vezes que o grande prejuízo que dei à família foi cancelar-lhe os fins-de-semana. Muitas vezes acabava por ir trabalhar, não para a Emissora Nacional ou para a RDP, mas para o jornal A Bola. Não tive descanso. Foram quase 40 anos de trabalho super contínuo, de manhã à noite”.
Bom dia, Angola
No continente Africano foi a voz e o rosto do programa “ A Hora do Soldado”, emitido duas vezes ao dia, bem como locutor de outros programas em rádios privadas. Classifica a experiência em território angolano como “verdadeiramente inesperada pela positiva. Acabei por ficar mesmo em Luanda, e apaixonado por aquela mágica terra onde fiz muitos amigos que por lá continuam, a fazer um programa diário na Emissora Oficial de Angola. Era um programa dedicado à comunidade militar, mas simultaneamente à comunidade civil. Posso compará-lo ao que se vê no filme “Good Morning, Vietnam”.
Além das funções de locutor, desempenhava um papel de intermediário entre os militares e as suas famílias. “Arranjava postais ilustrados e, em nome da malta que estava no mato, mandava-os para as namoradas deles e para as madrinhas de guerra porque na mata só havia os aerogramas, não havia um miminho para mandar às miúdas…”. Outras vezes mandava o jornal A Bola aos militares que estavam na mata e eles passavam um único exemplar do jornal pelo batalhão inteiro, tal era a saudade e desejo que tinham de ler notícias dos seus clubes.
“Ia poucas vezes ao mato, mas quando lá ia costumava levar um cantor chamado Branco Malveiro, que viria a ser governador civil de Beja”. “Eu levava música gravada, alguma até de intervenção, filmes para projectar e fazíamos um mini-espectáculo de variedades”. Essas visitas eram uma espécie de “acção psicológica”, afirma. “Erámos tão bem recebidos que uma vez deram-nos batatas com bacalhau e eles ali ao lado a comer ração de combate. Isto são homens, o macho tem também este ar verdadeiramente benévolo, de uma simpatia explosiva e de uma afectuosidade singular. São valores que eu não conhecia. De facto, em momentos assim, nós, homens, somos solidários, piegas, amorosos, parece que temos uma marca feminina…” | LM



Publicar um comentário
Comentários feed para este artigo